Gente de opinião busca voto de opinião na corrida pela Câmara do Recife

cida “Eu posso, a partir dessa imagem de encantamento da arte, juntar ao redor de uma candidatura (a dela) um monte de gente que queira se encantar de novo e participar. E isso pode ser um bom serviço para a democracia na cidade do Recife”.

A declaração é da poeta Cida Pedrosa (na foto), candidata a vereadora da capital pelo PCdoB. Bem distante da hereditariedade do DNA que garante mandatos de pai para filho e da matemática inexata que viabiliza êxitos a partidos nanicos, Cida se move inspirada por outros anseios.

“Antes as pessoas aceitavam, tinham confiança nos políticos. Hoje estamos num momento tristonho, um processo muito individual. Ao invés de discutir política, participação, as pessoas estão discutindo coisas internalizadas. Quero colaborar com esse processo de encantamento, de participação” afirma.

O discurso da poeta pode até ter um lirismo incomum a homens públicos, mas reforça a sobrevivência de um modelo “alternativo” de pensar e fazer política.

Um modo desvinculado da busca pelo poder a qualquer preço e sim voltado para a representatividade popular e o desejo de mudar destinos.

Entre os concorrentes à Câmara do Recife ainda há quem pense assim. Gente que busca o voto de opinião, um respaldo menos eleitoreiro e mais consciente.

André Régis (PSDB), professor e cientista político, diz que volta ao teste das urnas por acreditar na força da participação e na capacidade de interferir no próprio futuro.

Ele disputou vaga no Legislativo municipal em 2008 e acabou ficando na 1ª suplência. Teve 5,3 mil votos, resultado que o colocou à frente de 11 eleitos mas que, por conta dos cálculos do quociente eleitoral, não lhe assegurou o mandato.

“Acho que tenho uma contribuição a dar. E o mandato é o instrumento para isso”. Assim como Cida, ele avalia que o desinteresse pela política precisa ser revertido.

O mesmo entendimento tem o também professor e candidato a vereador pelo DEM Marcos Viegas. Como a poeta comunista, ele é marinheiro de primeira viagem e observa que o descrédito nos ocupantes de cargos públicos lhe desafia a mostrar que é justamente a política o motor das transformações sociais.

“Acredito que a atuação na Câmara pode ser um veículo para se mudar a realidade”, diz. “A gente se propõe a lutar, a ouvir as pessoas, as propostas”, completa.

O caminho para chegar ao eleitor descrente e, por isso mesmo, mais criterioso é percorrido com menos artifícios de campanha e mais olho no olho. Portas de faculdades, escolas, livrarias estão invariavelmente no roteiro das panfletagens.

Inserção em setores organizados da sociedade civil também é fundamental. No alvo estão comunidades LGBT, artistas, grupos religiosos e entidades acadêmicas e estudantis.
Embalados por discursos que estimulam a reflexão em contraponto ao pastiche visto em slogans e guia eleitoral, os “alternativos” sublinham o que pensam em busca de apoio.

“Acho um mandato deve ser destinado a representar pessoas que pensam como você e que gostariam de ter voz”, frisa André Régis.

“A gente não tá chamando a nossa proposta de plataforma, mas de estandarte, porque estandarte muita gente carrega, é de todos, não pesa, e não vai pesar para mim. Vou chegar lá respaldada pelos artistas, pelos pessoas de direitos humanos, por algumas comunidades maravilhosas que apoiam essa candidatura”, diz Cida. “Já ganhei (essa campanha). Mesmo se não for eleita, já ganhei. Se meu baú de afeto já era cheio, agora está derramando”.