Por que não o Recife, Dana White?

Chefão do UFC está com dificuldade para fechar lugar e data da próxima edição no Brasil

O mandachuva do Ultimate Fighting Championship (UFC), Dana White, anda com a cabeça ressacada. O porre tem nome, integrantes, mas carece de dia e local: o UFC marcado para o mês de junho no Brasil. O dirigente nutria a esperança de promover o evento em São Paulo. Mas a ideia caiu por terra quando os administradores do Morumbi preferiram manter um evento pré-agendado, e uma lei municipal em respeito ao silêncio na madrugada vetou a utilização do estádio do Pacaembu. A franquia recorreu ao Rio. Mas o imbróglio continuou. O UFC achou o lugar (o Engenhão), mas tropeça para fechar a data: o dia 23 de junho já é dúvida e antecipá-lo ou adiá-lo ficou complicado em virtude da realização da Conferência das Nações Unidas Sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio +20).

A incerteza persegue o presidente do torneio. Na Suécia, onde foi para participar do UFC On Fuel, ele se viu obrigado a responder perguntas sobre o evento no Brasil. E admitiu a dificuldade. “A Prefeitura do Rio está sob grande pressão por causa da conferência das Nações Unidas no mesmo período, não querem dois eventos ao mesmo tempo. Mas mesmo que pudesse acontecer, teríamos o problema dos hotéis, pois quase todos estariam ocupados. E para um evento dessa magnitude nós vamos precisar de muitos quartos de hotel. Nós não estamos apenas falando da maior luta do ano. Anderson Silva contra Chael Sonnen é um dos grandes eventos esportivos de 2012”, ele declarou à reportagem da Sportv.

É compreensível a preocupação do dirigente. A batalha entre Anderson Silva e Chael Sonnen deve atrair olhares do mundo todo, alavancar índices de audiência, gerar cotas saborosas de patrocínio, elevar o nome do MMA no Brasil e no mundo. A ambição amplia a responsabilidade. Nada pode dar errado sob prejuízo de arranhar a imagem do esporte – e o bolso de lutadores e dirigentes.

Mas o momento abre espaço para novos horizontes ao UFC além do eixo Rio-São Paulo. A fuga dos dois centros pode ajudar o esporte a se consolidar ainda mais no país e, de quebra, incluir nova cidade brasileira na rota internacional da luta. Manaus, Recife e Salvador, por exemplo, já receberam membros do UFC e manifestaram interesse em acolher uma edição do evento. Da Suécia, Dana White afirmou ter cogitado (e descartado) a realização em outra localidade. A justificativa: “Não estaríamos prontos para isso”.

A recusa em mudar pede uma explicação mais detalhada. E menos restritiva. O esporte brasileiro sempre orbitou em torno do eixo Rio-São Paulo. É a região a qual a grande mídia dedica mais atenção e seriedade. Os outros estados são alinhados como periféricos e se resumem a “afluentes”. É assim, por exemplo, com o futebol – com os conhecidos privilégios e recursos destinados aos grandes clubes paulistas e cariocas.

O Recife tem porte para receber um evento de grande porte do UFC – e deveria entrar na briga para sediá-lo. O show duplo de Paul McCartney marcado para o próximo fim de semana atesta a capacidade de a cidade dar conta de uma atração internacional. Serão 120 mil pessoas em dois dias de apresentações. Se a capital pernambucana consegue atender aos padrões de uma das maiores celebridades da música mundial, por que enfrentaria dificuldades para ser palco de uma edição do Ultimate?

Os dirigentes do UFC deveriam abrir os olhos para escapar das algemas do Sudeste brasileiro. E os governantes de outros estados precisariam ser mais perspicazes para colocá-los na vitrine do esporte – e, assim, angariar recursos, atrair turistas e disseminar a prática até mesmo como uma saída viável para problemas sociais. A dor de cabeça de Dana White pode ser um remédio e tanto para quem souber aproveitar a oportunidade de ajudá-lo a curá-la.

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