O dia em que Popó reinventou Rocky Balboa

Tetracampeão superou personagem de filme com nocaute irretocável

Quatro vidas entrelaçadas pelo boxe e guiadas pelo roteiro da superação. No enredo da ficção, um Rocky Balboa aposentado, vivo à base de lembranças dos tempos de campeão. Hostilizado pelo próprio filho por conta de problemas pessoais. Era um filme. No script da realidade, Acelino Popó Freitas, pugilista brasileiro afastado dos ringues há meia década, em dívida com o rebento por nunca ter lutado diante dos olhos do garoto. Era palpável.

Duas histórias reescritas depois de um retorno triunfante dos veteranos ao mundo da luta. No cinema, Balboa reencontrou a glória ao resistir a um jovem campeão do esporte. Combateu por doze rounds, apanhou, revidou, aguentou e se fez vencedor mesmo na derrota. No Uruguai, na noite do sábado, Popó viveu a sina de Rocky, mas reeditou o significado de se reerguer: impôs um nocaute ao oponente e se despediu das quatro cordas com uma vitória incontestável. O Balboa do filme se reconciliou com o filho. O Balboa do mundo real satisfez o pequeno Popó com a garra de tetracampeão com a qual imortalizou o nome na galeria dos maiores atletas brasileiros. A realidade tripudiou da ficção.

A performance de Popó começou antes da luta contra Michael Oliveira, jovem talento do boxe nacional, com apenas 22 anos, até então invicto há 16 lutas e campeão latino de boxe. O tetracampeão mundial, longe dos ringues há cinco anos, perdeu 18 quilos, preparou-se, deixou de lado – por um momento – a carreira de parlamentar com a qual representa o povo baiano. Popó se adequou ao desafio. E se tomou de energia extra para encarar o duelo: um pedido do filho para vê-lo em ação.

As cenas da epopeia de Popó passaram pelas provocações. O adversário tachou-lhe de gordo, fora da forma física ideal, incapaz de triunfar. O tetracampeão rebateu. Garantiu a vitória. O drama da luta ganhou contornos de cinema na pesagem. Os atletas se estranharam. Popó reclamou de proximidade excessiva por parte de Michael e o empurrou. Separados pelos staff, os dois se reencontraram no ápice da tensão na noite do sábado.

Aos 36 anos, Popó mostrou por que chegou à luta com um cartel invejável de 40 duelos e somente duas derrotas. Abusou da ofensividade. Partiu para a guarda de Michael e apagou a diferença de idade. Os socos balançaram a jovem promessa. Levaram o garoto por duas vezes à lona. Acelino demonstrou nunca ter esquecido a esquiva. Saiu-se dos golpes de Michael com facilidade. A agressividade durou até o nono round, o penúltimo da luta. Mais aguerrido, Popó derrubou o adversário, e o juiz encerrou o combate.

Nos braços da equipe, o campeão perdeu para as lágrimas. Agradeceu a oportunidade de subir novamente no ringue. Expressou o amor pelo filho. Pagou a divida do sentimento, capaz de ser quitada apenas pela superação embalada no amor. Popó pregou a humildade, mas se portou como um autêntico campeão – dono do destino e da vitória quando colocado diante dos desafiantes. O regresso ao universo da luta tornou-se um épico de amor pela família e pelo esporte. Popó vestiu a pele de Rocky Balboa. E, com um nocaute irretocável, reescreveu até mesmo a sina de um campeão de bilheteria. Merecia o Oscar.

 

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