O encontro de todas as artes
Como a tentativa de criar um estilo de luta perfeito gerou o maior torneio de combate do mundo
Um sonho gestado na alma de brasileiros, embalado na sina de uma família, revigorado na estratégia de um norte-americano. A história do MMA (Artes Marciais Mistas, em português) peregrinou da tentativa audaciosa de criar um novo estilo de luta até os milhões de dólares gerados pelas transmissões televisivas negociadas pelo empresário Dana White, no início do século XXI. Uma trajetória costurada ao passado e à obstinação dos Gracie, descendentes de escoceses, nascidos em Belém, capital do Pará. Na década de 1920, os irmãos Carlos e Hélio decidiram aperfeiçoar o jiu-jitsu japonês e torná-lo modalidade de confronto pela qual o lutador mais fraco poderia superar o mais forte com emprego de técnicas de domínio do oponente, como imobilização, alavancas, torções e estrangulamentos. O objetivo mirou o impossível: a nova face da arte marcial asiática deveria se tornar, a partir do refinamento tupiniquim, o tipo ideal de combate dentro de um ringue. Germinaram daí as raízes do jiu-jitsu brasileiro.
Provar a supremacia das novas técnicas virou missão cotidiana para os Gracie. Tarefa encarada como obrigação, desempenhada diante de qualquer desafiante. E coube a Hélio vestir o papel de protagonista na trilha para popularizar o estilo de luta à brasileira. O duelo contra outras artes marciais se tornou uma conseqüência inevitável. A janela aberta na história dos combates pela qual se confrontariam modalidades diferentes só poderia receber um nome de batismo: vale-tudo. Ou melhor: quase. Os lutadores deveriam evitar condutas condenáveis até mesmo em brigas de rua: nada de acertar os órgãos genitais e enfiar dedo no olho, por exemplo. Os adversários, no entanto, sequer possuíam equipamentos de defesa. E o tempo da luta era a resistência dos lutadores. Quando o corpo capitulasse, o duelo chegaria ao fim.
Durante as décadas seguintes, os irmãos Hélio e Carlos promoveram todo tipo de desafio contra lutadores habilitados em outras artes marciais. Em estádios, eventos públicos, diante de autoridades ou desconhecidos, os combates viraram espetáculos de vale-tudo muitas vezes sangrentos, com duração capaz de desafiar a condição humana – a luta entre Hélio e um ex-discípulo, Waldemar Santana, em 1955, se arrastou por três horas e quarenta e cinco minutos. O duelo registrou a única derrota por nocaute do integrante da família Gracie.
As cenas sangrentas sobre o ringue desprovidas de quaisquer regras e a violência observada no entorno das lutas jogaram o vale-tudo na lama. A prática caiu na proibição no Brasil. O retorno à legalidade, apenas na década de 1980, ocorreu na penumbra: tachada de violento, a atividade perambulou pelas sombras do mundo esportivo sempre associada a condutas marginais ou transgressoras. Os competidores lutavam sem proteção enquanto os torcedores trocavam pancadas nas arquibancadas. Ficava difícil dar ao vale-tudo uma roupagem socialmente aceitável.
A mudança recairia sobre um brasileiro. Outro Gracie. Agora, nos Estados Unidos.
Rorion, filho mais velho de Hélio, mudou-se para a terra do Tio Sam no fim da década de 1970, onde passou a ensinar o jiu-jitsu brasileiro. Em pouco tempo, havia conquistado diversos alunos. Ele também botou à prova a técnica diante de outros estilos. Sempre com sucesso. Depois de superar desafios e exibir a modalidade até no cinema, Rorion deu um dos passos mais importantes para a consolidação da luta inter-estilos: criou o Ultimate Fighting Championship, o UFC.
O UFC
O campeonato se destacava por colocar os competidores dentro de um ringue diferente dos existentes – o espaço passava do formato quadrangular com cordas, marcantes no boxe, para uma estrutura octogonal em disposição de jaula. Os lutadores se enfrentariam sem regras. Na nova competição, entrou em cena outro Gracie: Royce. De aspecto franzino e iniciante no combate vale-tudo, ele venceu as três primeiras edições do UFC. Os eventos se tornaram sucesso na televisão paga e cresceram de 85 mil telespectadores, na primeira realização, para 180 mil, na terceira. Mas ainda encontravam dificuldade para comercialização porque dispensavam regras e tempo de duração.
A guinada para o sucesso e a aceitação do público couberam a um ex-promotor de boxe, Dana White, e dois irmãos donos de cassinos em Las Vegas, os Fertita. Os Fertita compraram o UFC em 2001 e, guiados pela mente criadora do norte-americano Dana, o novo presidente da competição, reformularam o evento: investiram na combinação de estilos, o MMA, impuseram regras, limitaram o tempo das lutas e criaram categorias para agrupar os atletas de acordo com o peso. A saúde dos lutadores e a plasticidade dos combates entraram na pauta da competição. O duelo virou espetáculo. E uma estratégia de marketing agressiva, com reality shows na televisão e a venda de produtos associados ao UFC e a seus profissionais, fez o Ultimate chegar ao topo da lista dos esportes em ascensão no mundo.
O crescimento hipnotiza: o UFC passou de evento marginal a uma produção transmitida por meio de dez canais de TV paga, além da internet. Os campeonatos são veiculados em 354 milhões de lares de 145 países, em 19 línguas diferentes. Os eventos foram diversificados. O calendário inclui edições do The Ultimate Fighter, UFC Fight Nights, UFC Unleashed, entre outros. A multiplicação dos espectadores fez a competição desbancar o futebol americano, líder no setor do topo das vendas de transmissões via pay-per-view. Eventos de MMA concorrentes, como o Pride japonês, cujos principais destaques eram atletas brasileiros, e o Strike Force, foram comprados e hoje fazem parte da história do UFC.
A história da combinação entre os estilos de lutas enxerga, oitenta anos depois de ter início, um horizonte animador. O clichê de barbárie impregnado no sendo comum vira, a cada evento, sinal de um passado distante. O sonho acalentado por brasileiros no século XX ganha, na aurora do presente, as cores da realidade. E um significado: o encontro de todas as artes.

