Dana White se ajoelha e leva um coice

O chefão do UFC deu as mãos à burrice e tomou um coice do destino. Mesmo calejado por decepções anteriores, Dana White decidiu passar a mão na cabeça de Nick Diaz, o eterno bad boy do torneio, e ficou ajoelhado aos pés do lutador para evitar prejuízo financeiro e moral. Veio a público esbravejar contra a conduta do subordinado, acusado pelo dirigente de perder (junto com o irmão, Nate) gravações de programas promocionais da edição 158 e fazer a franquia torrar mais de cem mil reais. Quem mandou insistir com o problema?

Nick Diaz é recorrente em trapalhadas. Perdeu coletiva de imprensa quando se preparava para enfrentar o adversário de agora, o campeão do meio-médio, George St-Pierre, e amargou rebaixamento à luta secundária do torneio. Antes, ficou encostado por uso de maconha. A fúria de Dana White, vomitada durante entrevista à época, parecia sentenciar o lutador à demissão. Mas o dirigente incorporou a clemência e se curvou ao lutador intempestivo – ele permaneceu na franquia e, depois, ganhou a chance de disputar o cinturão.

Lutador mediano, feroz com as palavras e razoável no octógono, Nick Diaz se sentiu prestigiado a ponto de pedir uma disputa com St-Pierre, contra quem só poderia lutar se tivesse vencido Carlos Condit. O UFC chacoalhou os bastidores, furou a fila do cinturão e, sob a desculpa podre de promover um acerto de conta, autorizou o combate entre os dois.

A marmelada custou caro: com medo de levar uma surra do campeão, Nick Diaz encena o script do atleta irresponsável e força o torneio a defenestrá-lo para driblar o vexame de atrapalhar o protocolo promocional até a luta. O lutador, cuja garganta sempre antagonizou com as artes marciais, jamais deu indício de mudança e pouco faz para atender o torneio. Inexistiam motivos para dar-lhe outra chance. Mas Dana pegou a contramão da inteligência. Sem cabelos para arrancar, encara o resultado de, lá atrás, ter feito escolhas erradas e absolvido um lutador sem respeito pelo torneio. Ficou de quatro. E levou um coice.

Finalmente, o UFC cria um ranking

 

Demorou quase duas décadas. Precisou de pressão, queixas, insistência. Mas, finalmente, o UFC cedeu ao apelo do público e do show business e criou um ranking oficial para hierarquizar os lutadores dentro das categorias definidas por peso e em um apanhado geral entre os melhores do MMA. É um dos mais significativos passos dados pela franquia para profissionalizar o torneio – comparável à imposição de limite de tempo nas lutas e adoção de regras rígidas para proteger os atletas. Iniciativa impossível de ser desprezada em função de o Ultimate ser o maior campeonato de artes marciais mistas do mundo e congregar quase 400 contratos regiamente assistidos.

A lista divulgada nesta segunda-feira, de acordo com o site da marca, tomou como referência a opinião de 28 jornalistas – maior parte dos Estados Unidos e sete do Brasil – de veículos especializados em MMA. O Ultimate ainda abriu espaço para outros profissionais de mídia envolvidos votar nos lutadores considerados por eles como mais qualificados. O UFC estabeleceu como regra fixar – com toda razão – os campeões no topo do ranking. Os interinos, a exemplo do potiguar Renan Barão na categoria peso-galo, vêm necessariamente em segundo. A atualização da relação deve ocorrer mensalmente.

A instituição de uma lista com os melhores de cada categoria é o balizamento fundamental para cobrar o casamento de lutas entre os atletas mais bem cotados – embora o chefão da franquia tenha insistido em manter a prerrogativa de arranjar os combates a seu bel prazer. A definição dos melhores permite a quem acompanha o esporte saber quando o lutador evolui ou despenca na relação dos atletas da categoria pela qual compete. Serve, na esteira da publicidade feita no próprio site do UFC, como parâmetro para questionar manobras condenáveis dos dirigentes, como colocar para disputar o cinturão o desafiante mal situado no ranking.

A primeira lista atirada a público coloca, sem surpresas, o campeão do peso médio, Anderson Silva, como o melhor tanto na categoria pela qual luta como na relação dos mais bem avaliados no geral (pound-for-pound). O campeão dos meio-pesados, Jon Jones, vem logo em seguida. A tríade é completada por George St-Pierre, dono do cinturão dos meio-médios. José Aldo é o outro brasileiro na listagem. (Veja tudo abaixo).

O FANTASMA

O ranking divulgado pelo UFC apresenta distorções já apontadas por quem segue de perto os passos da franquia. A mais ridícula é a ausência do lutador Chael Sonnen. Desafiante do cinturão dos meio-pesados contra Jon Jones, escalado como estrela da edição de número 17 dio The Ultimate Fighter, o falastrão falta à relação divulgada. Explica-se: o Ultimate só permitiu a inclusão de lutadores com pelo menos um combate na categoria. Como Sonnen subiu de peso, não está no índice. O estranhamento é: como um lutador sequer hierarquizado tem cacife para disputar o título?

DE DUAS SÓ

A criação impetuosa da categoria das mulheres no UFC, medida súbita de Dana White para agradar a ex-campeã do Strikeforce, Ronda Rousey, deixou um vazio no primeiro ranking: a relação prescinde de listar as melhores no MMA feminino simplesmente porque só existem duas contratadas no peso-galo, única para elas. A campeã Ronda e Liz Carmouche. É hora de chamar mais gente.

O único pernambucano rankeado pelo UFC entre os top 10 das categorias é Raphael Assunção. Ele é o sétimo entre os escalados do peso-galo e, se repetir as atuações demonstradas em lutas anteriores, deve se aproximar da disputa do cinturão pertencente, hoje, a Dominick Cruz.

CONFIRA

Peso por peso:

1 Anderson Silva
2 Jon Jones
3 Georges St-Pierre
4 Jose Aldo
5 Benson Henderson
6 Cain Velasquez
7 Dominick Cruz
8 Demetrious Johnson
9 Frankie Edgar
10 Dan Henderson

Peso Mosca

Campeão : Demetrious Johnson
1 Joseph Benavidez
2 John Dodson
3 Ian McCall
4 John Moraga
5 Jussier Da Silva
6 Louis Gaudinot
7 Chris Cariaso
8 John Lineker
9 Darren Uyenoyama
10 Ulysses Gomez

Peso-galo

Champion : Dominick Cruz
1 Renan Barao (Interim Champion)
2 Michael McDonald
3 Urijah Faber
4 Eddie Wineland
5 Brad Pickett
6 Brian Bowles
7 Rafael Assuncao
8 Scott Jorgensen
9 Mike Easton
10 Ivan Menjivar

Peso-pena

Champion : Jose Aldo
1 Chad Mendes
2 Ricardo Lamas
3 Chan Sung Jung
4 Frankie Edgar
5 Dennis Siver
6 Cub Swanson
7 Dustin Poirier
8 Nik Lentz
9 Erik Koch
10 Clay Guida

Leve

Champion : Benson Henderson
1 Gilbert Melendez
2 Anthony Pettis
3 Gray Maynard
4 Nate Diaz
5 Jim Miller
6 Donald Cerrone
7 TJ Grant
8 Rafael dos Anjos
9 Joe Lauzon
10 Khabib Nurmagomedov

Meio-médio

Champion : Georges St-Pierre
1 Johny Hendricks
2 Carlos Condit
3 Nick Diaz
4 Rory MacDonald
5 Demian Maia
6 Jake Ellenberger
7 Martin Kampmann
8 Josh Koscheck
9 Jon Fitch
10 Tarec Saffiedine

Médio

Champion : Anderson Silva
1 Chris Weidman
2 Vitor Belfort
3 Michael Bisping
4 Yushin Okami
5 Mark Munoz
6 Constantinos Philippou
7 Luke Rockhold
8 Hector Lombard
9 Alan Belcher
10 Tim Boetsch

Meio-pesado

Champion : Jon Jones
1 Dan Henderson
2 Lyoto Machida
3 Alexander Gustafsson
4 Glover Teixeira
5 Antonio Rogerio Nogueira
6 Rashad Evans
7 Mauricio Rua
8 Phil Davis
9 Ryan Bader
10 Gegard Mousasi

Pesado

Champion : Cain Velasquez
1 Junior dos Santos
2 Fabricio Werdum
3 Daniel Cormier
4 Antonio Silva – Pezão
5 Frank Mir
6 Alistair Overeem
7 Antonio Rodrigo Nogueira
8 Roy Nelson
9 Stefan Struve
10 Shane Carwin

 

“MMA é o esporte de contato mais seguro do mundo”, diz Dana White

É tão provocativa quanto instigante a declaração categórica do presidente do UFC, Dana White, sobre a segurança na franquia comandada por ele e os irmãos Fertita há 12 anos: “O MMA é o esporte de contato mais seguro do mundo”, afirmou o dirigente a um veículo especializado dos EUA. Dana tem motivos para sustentar a frase: em 20 anos como torneio estabelecido, nenhum atleta do Ultimate morreu ou apresentou sequelas irreversíveis por participar das lutas promovidas pela franquia. Nem mesmo nos primórdios sob a tutela do brasileiro Rorion Gracie, com mínimo de regras, limite de golpes e sem a preocupação de zelar pela integridade física dos competidores. Valia sobreviver no octógono.

O dirigente reconhece a violência no esporte. Sabe do contato e da intenção óbvia de superar os oponentes com golpes contra o corpo. Seria tolice desprezar isso. Mas ele rebate os danos físicos definitivos e avalia o MMA como um esporte menos violento na comparação, por exemplo, com o futebol americano (cuja sigla é o NFL).  Veja o que ele disse (frases publicadas no Combate):

A concussão é um grande dilema para a NFL no momento. Aqui está a diferença entre o UFC e a NFL. Primeiro de tudo, se você tiver uma concussão, for nocauteado ou se machucar no UFC, terá três meses de suspensão. Você está suspenso por três meses e não pode voltar até que seja liberado por um médico. Não pode ter qualquer contato. Na NFL, você não vai perder Tom Brady por três meses, cara. Se perde Tom Brady por três meses, sua temporada inteira está acabada. O UFC – ouça, nós não escondemos, é um esporte de contato e é isso que esses caras fazem – é muito mais seguro”.

“Nos 20 anos de história do UFC, que se completarão em novembro, nunca houve uma morte ou uma lesão grave. Nunca ocorreu porque vamos além quando se trata da segurança desses caras. Quando você sabe que tem dois atletas saudáveis se preparando para competir, eles recebem a atenção médica apropriada, antes e depois. É o esporte (de contato) mais seguro no mundo, fato”.

Você concorda com o dirigente? Opine na enquete ao lado.

Mais de cem lutas canceladas por lesões

Levantamento mostra estrago das contusões em um anos de trabalho no UFC e no Strikeforce

Quando recomendou aos lutadores diminuir o ritmo de treinamento para evitar lesões, o presidente do UFC tocou em um ponto sensível – e aparentemente irremediável – no mundo do MMA: a recorrência de problemas físicos e a conseqüente alteração dos cards das lutas. Dana White (abaixo) cobrou prudência em tom de apelo. Soou como súplica de quem sente no bolso o prejuízo deixado por uma mudança súbita na ordem dos combates. Levantamento inédito do MMA Fighting divulgado nesta semana deu números à preocupação do dirigente: somente em 2012, exatamente 104 duelos foram cancelados no Ultimate e no Strikeforce (prestes a ser extinto) motivados por lesões.

Veja a lista completa aqui

O montante, apesar de ser absorvido ao longo dos 31 eventos promovidos somente pelo UFC em 2012, incomoda e coloca na mesa dos dirigentes a necessidade de adotar medidas mais eficazes para evitar a recorrência dos episódios. A redefinição de uma luta gera prejuízos para os cofres dos torneios – com perda ou mudança de material de marketing, queda na venda de ingressos, renegociação de direitos televisivos – e frustra a ansiedade do público muitas vezes alimentada por meses de ver o confronto entre dois lutadores. O espiral de transtornos enredou o mal-estar no cancelamento do UFC 151, justamente depois de Dan Henderson se machucar às vésperas de enfrentar Jon Jones. Lyoto Machida e Shogun recusaram a luta. Coube a Belfort o duelo, na edição de número 152. Em 20 anos de UFC, pela primeira vez um torneio deixou de ser promovido.

A pesquisa do MMA Fighting frisou os combates por título cancelados pelas lesões: foram sete. O brasileiro José Aldo (no alto), campeão do peso pena do torneio, aparece duas vezes na relação. Teve as lutas contra Erik Koch e Frankie Edgar removidas – a última após sofrer acidente de moto. Sete disputas de combate principal deixaram de ser feitas por conta das contusões. Entre elas, a final da primeira edição do TUF Brasil entre Vitor Belfort (quebrou a mão) e Wanderlei Silva, revanche esperada desde 1998 e provavelmente marcada para nunca acontecer.

É difícil explicar a origem de tantas lesões. Esforço extremo durante os treinamentos, provocado pelo nível cada vez maior de competitividade, e desgaste físico em função da idade certamente pesam. Mas há quem enxergue nas contusões uma forma de os lutadores ludibriarem as comissões atléticas e correrem dos flagrantes nos testes de doping. Além, é claro, do descuido na preparação do dia a dia, a exemplo de José Aldo, lesionado depois de cair de uma moto.

 O levantamento serve de alerta para o UFC e outros eventos de MMA. Instiga a adoção de medidas mais eficazes para diminuir a alteração dos cards em função de lesões geradas nos treinamentos. O dano financeiro pode até ser remediado pela convocação de outras lutas de peso para recompor os torneios. Mas a possibilidade de nunca ver dois lutadores em ação no auge da forma é uma perda irreparável para os fãs. Só os atletas podem poupar esforços nessa hora.

Ronda vale mais que Dan Henderson e Lyoto Machida?

A admiração do chefão do UFC, Dana White, pela primeira e única campeã do torneio sem jamais colocar o pé no octógono, Ronda Rousey, perdeu as estribeiras. Ou melhor: fez o dirigente subestimar o cacife de dois dos principais atletas do MMA da atualidade. A luta da atleta contra Liz Carmouche, estreia das artes marciais mistas femininas no Ultimate, sobrepujou o peso do confronto entre os dois lutadores, ex-campeões cujos combates são sempre dignos da elite do esporte.

A predileção por Ronda é mais um agrado concedido por Dana à atleta. Ele já contratou a lutadora contra prognósticos próprios de nunca abrir as portas do torneio para o MMA delas. Depois, concedeu-lhe o título de campeã sem colocá-la para lutar. Ronda desfrutava do status no Strikeforce, franquia administrada pelos donos do Ultimate, onde mereceu o cinturão do peso-galo.

A mulher que virou a cabeça do chefão do UFC

A manobra de complacência da vez é situá-la no combate principal da edição 157, em 23 de fevereiro de 2013. Pode parecer simples. Não é. A luta mais importante da noite dá nome ao evento e serve de referência histórica. Concentra as apostas e é o objeto de barganha do UFC para barganhar cotas de televisão e anunciantes – e vendê-las, claro. A escolha por Ronda é um recado da disposição de investir nela. Sem, necessariamente, apostar na categoria: o Ultimate sequer possui de quantidade suficiente de lutadora para dar conta da manutenção de um torneio feminino.

É válido frisar: Dan Henderson e Lyoto possuem histórico suficiente para credenciá-los ao combate da noite. Hendo brilhou no Pride, no Strikeforce e chegou a vencer a lenda Fedor Emelianenko. O carateca brasileiro já ergueu o cinturão dos meio-pesados do UFC, derrotou Randy Couture e foi o homem mais agressivo contra Jon Jones, atual campeão, em pé. A luta deles só fica aquém da disputa do cinturão porque Dana White derrapou na inteligência e escalou o vencedor de Shogun x Gustafsson para o desafio.

A história das mulheres deve e merece ser construída com prestígio. Mas nunca à custa da escuridão na qual são atirados os atletas com os quais o UFC edificou a própria trajetória. É questão de coerência com o passado. De nada vale apagá-lo.

Card do UFC 157 (até o momento)
23 de fevereiro de 2013, em Anaheim (EUA)
Ronda Rousey x Liz Carmouche
Dan Henderson x Lyoto Machida
Urijah Faber x Ivan Menjivar
Brendan Shaub x Lavar Johnson
Neil Magny x Jon Manley*
Court McGee x Josh Neer

GSP se curva à facilidade e o MMA sofre…

Campeão prefere enfrentar o bad boy Nick Diaz a lutar contra o Aranha

E George St-Pierre se curvou. Preferiu o caminho mais fácil. Embora menos digno para a trajetória dele enquanto campeão do meio-médio do UFC. Aceitou lutar contra o bad boy da franquia, Nick Diaz – e a pecha de playboy do mal é o único atrativo dele na fase atual do showbiz do MMA – em detrimento de um possível combate contra Anderson Silva, melhor do momento nas artes marciais mistas. Entre arriscar levar uma surra do Aranha e sanar uma rixa antiga com um lutador cheio de empáfia e maus modos, a exemplo da suspensão por uso repetido de maconha, o canadense tascou a chance de sair por cima.

Os dois lutadores sobem no octógono em 18 de março de 2013. Antes, não dá. Há um detalhe nada desprezível pelo caminho: Nick Diaz aguarda o fim da suspensão de um ano por ter consumido maconha no período do duelo contra Carlos Condit, na disputa pelo cinturão interino da categoria. Combate do qual saiu derrotado depois de encher o peito se declarar o melhor antes de ser submetido ao infalível teste do esporte: simplesmente entrar, competir e ganhar.

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O falatório também dominou o primeiro encontro dos dois lutadores no ringue – frustrado porque Nick faltou à coletiva de imprensa sobre o torneio. Enfurecido, Dana White, o flexível presidente da franquia, colocou o atleta para fazer a luta secundária da noite e chegou a ameaçá-lo. Mas, ciente do potencial de lucro dos lutadores com a língua solta, amansou. E Nick ganha nova oportunidade de disputar o título da categoria. De quebra, também resolve uma pendência extra-octógono com St-Pierre. Nos meses recentes, os dois trocaram farpas pela mídia – fenômeno raro para o campeão, sempre tido como um gentleman pela conduta social – e se juraram mutuamente.

A St-Pierre, um fôlego para dissipar a atenção em torno da superluta contra Anderson Silva. Confronto do qual ele foge e se esconde atrás de argumentos financeiros. Levar o próximo desafio até março implicaria, logicamente, adiar um possível combate contra o Aranha para, no mínimo, o meio de 2013 – respeitado o prazo de descanso e recuperação pós-duelo. E tempo, como todos sabem, é um inimigo mordaz do brasileiro, já com 37 anos e perto de pendurar as luvas – embora insista junto ao UFC em estender o contrato por mais confrontos.

Cada vez mais envolvido com a possibilidade de faturar, o UFC nem hesitou em definir o duelo principal da edição de número 158. O canadense George St-Pierre, campeão com mais defesas de títulos depois de Anderson Silva, colocará o cinturão em jogo contra o garotinho problema do torneio, o imprevisível Nick Diaz. A escolha vai valer a noite: os dois chegarão ao confronto com fumaça no nariz. Mas, lá no fundo, fica a sensação de mais uma oportunidade perdida. Bom mesmo seria ver GSP em pé de igualdade contra o Aranha brasileiro. O MMA se curvaria.

E agora, Shogun, o sonho acabou?

Derrota diante de Gustafsson afasta o lutador do cinturão da categoria

A mão perdeu a força de outrora. Fere sem tanta gravidade, machuca menos, leva com mais dificuldade ao chão. A mobilidade minguou. O corpo arfa, as pernas demoram, o organismo cambaleia. Só a resistência dá provas de vida. Mas falta fôlego ao desempenho de dias gloriosos dentro do ringue. Aos 31 anos, o curitibano e ex-campeão do UFC e do Pride (extinto torneio de MMA do Japão) Maurício Shogun Rua sofre com o peso do tempo. A performance arrebatadora de anos atrás, quando desfigurava os adversários com golpes infalíveis, parece ter ruído. E o atleta virou uma sombra do lutador temido do passado.

O fracasso mais recente se deu na luta contra Alexander Gustafsson, revelação sueca do MMA, no UFC On Fox 5. O confronto decidiria o próximo adversário de Jon Jones, detentor do cinturão. Era uma aposta velada de Dana White, presidente da franquia, para dar a Shogun a chance de revanche contra quem lhe tirou o título dos meio-pesados. Mas o tropeço do brasileiro, com uma atuação sofrível e indigna dos melhores dias dele nas artes marciais mistas, deu a vitória ao oponente e obrigou o chefe do UFC a rebolar para inventar nova luta ao sueco antes de importunar o atual campeão.

Dana dizimou a expectativa de Gustafsson e convocou o nome de Lyoto Machida para definir o desafiante à hegemonia da categoria – mesmo a contragosto de Dan Henderson, contra quem o carateca está escalado para lutar. É o imbróglio fabricado na esteira da decisão precipitada do dirigente de colocar o duelo Shogun x Gustafsson como ponte para o combate e, sobretudo, da queda inesperada do brasileiro diante do sueco.

A derrota do sábado é a terceira de Maurício nas últimas cinco lutas. Perdeu para Jon Jones por nocaute, Dan Henderson em uma luta épica e Gustafsson. E venceu Brandon Vera e Forrest Griffin. Mas nem as melhores performances têm sido convincentes. Shogun evidenciou cansaço incômodo na luta contra Vera e poderia ter perdido. Diante de Griffin, conseguiu vitória mais expressiva, com nocaute no primeiro round.

Dentro do octógono, no entanto, ele apresenta lentidão, cambaleia, hesita em momentos cruciais. Exibição distinta da observada na trajetória do atleta. Shogun se notabilizou pelo apuro atlético no Pride – quando perdeu apenas uma vez – e até aparentou engrenar no UFC quando venceu Mark Coleman, Chuck Lidell e Machida, na disputa pelo cinturão. Desde então, oscila entre maus e bons momentos, sem conseguir vencer duas vezes consecutivas.

A gangorra no UFC o afasta do retorno ao posto de melhor lutador do mundo na categoria. A derrota para Gustafsson praticamente o elimina da chance de enfrentar Jon Jones, já um adversário difícil de ser batido por lutadores de expressão. A lista de desafiantes é extensa com Chael Sonnen (injustamente escalado), Lyoto Machida, Dan Henderson e o próprio sueco. Some-se à dificuldade a possibilidade de o jovem campeão subir de categoria, ao fim de 2013, como anunciou, ou fazer uma superluta contra Anderson Silva em peso combinado – todas as hipóteses adiam infinitamente o sonho de Shogun reaver o título e o prestígio agora combalido no Ultimate.

O lutador precisa recuperar a forma física para reencontrar o caminho das vitórias. Mas o maior adversário está além do ringue e tem uma força constante: é o tempo, impiedoso com atletas de qualquer modalidade esportiva. Quanto mais o brasileiro naufraga nas tentativas de voltar ao topo, mais pena com o avanço da idade e o conseqüente desgaste da forma física. E os fracassos lhe empurram para o fim de uma relação cada vez mais maior pelo surgimento de novos lutadores na escalada rumo ao cinturão. A única saída para o brasileiro é a sina perseguida por todos os lutadores: vencer. E logo. Qualidade, ele tem. A história registra. Mas o passado de glórias precisa encontrar o presente tortuoso. O tempo urge.

A mulher que virou a cabeça do chefão do UFC

Ronda Rousey será a primeira a lutar no UFC já declarada campeã do torneio

O talento de Ronda Rousey é inquestionável: a lutadora só conhece vitórias no MMA (seis como profissional e três como amadora) e ostenta com propriedade o cinturão da extinta categoria do peso-galo do Strikeforce, torneio mantido pela Zuffa, mesma dona do UFC. Os combates dos quais participa acabam de forma fulminante para as adversárias. Especialista na chave de braço, ela costuma finalizar as oponentes antes do minuto inicial do duelo – apenas uma das lutas durou perto de cinco minutos.  Mas o cartel de sucesso é detalhe dispensável frente ao poder de Rousey fora dos ringues. A atleta tem conquistado notabilidade pela capacidade de dobrar – sem qualquer esforço – o chefão da franquia, Dana White.

A loira mais bem-sucedida dos ringues diluiu a convicção do dirigente e o fez abrir as portas do torneio para o MMA feminino. Ou, melhor, para ela: Ronda Rousey se tornou a primeira mulher patrocinada pelo UFC e, agora, terá o direito de estrear no octógono dentro de um card com outros lutadores. Feito inédito na história de quase 20 anos do Ultimate Fighting Championship. A inclusão veio com bônus: o mandachuva do campeonato já concedeu a ela o cinturão do torneio. Em geral, a conquista é consequência de uma luta na categoria recém-criada – como ocorreu, em setembro, entre os moscas, na batalha vencida por Demetrious Johnson. Ronda pulou a etapa.

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A decisão de promover uma luta de mulheres alfineta o bom senso porque contraria até mesmo o meticuloso planejamento empregado pelos controladores do torneio. Antes de criar uma categoria, o UFC relaciona uma série de lutadores para alimentá-la e mantê-la viva por tempo significativo. Exemplo: a relação dos atletas peso-mosca é, hoje, a menor da franquia, com 15 lutadores – mas permite articular combates e atrair futuros atletas. A luta de Ronda será única: ela enfrenta Liz Carmouche (cartel de sete vitórias e duas derrotas) no combate do UFC 157, em fevereiro de 2013, com a promessa de encarar, futuramente, a brasileira Cris Cyborg, punida por doping. E é só. A incerteza prevalece quanto à contratação de mais mulheres pelo Ultimate.

O próprio Dana White encara a luta como uma aposta e se exime de responsabilidade quanto ao futuro do MMA feminino na franquia. O comportamento dele mais parece um presente à lutadora cuja trajetória dentro e fora do ringue  cativou a atenção do dirigente.

Nascida nos Estados Unidos há 25 anos, Ronda fez carreira no judô, modalidade pela qual se tornou campeã nos jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, em 2007. Faturou a medalha de prata no mundial do mesmo ano, e, nas Olimpíadas de Pequim, em 2008, subiu ao lugar mais alto do pódio.

A migração para o MMA se deu em 2010. Contra Miesha Tate, em março de 2012, protagonizou a luta principal de um card do Strikeforce, vencida pela loira no primeiro round. Desde então, ganhou o epíteto de imbatível. A julgar pela atenção conquistada da cúpula do UFC e pela atração exercida sobre fãs do esporte e holofotes da mídia, Ronda tem um futuro de invencibilidades pela frente. No octógono, o retrospecto mostra o quando será difícil demovê-la do papel de campeã. Longe dele, o carisma impõe a admiração com a qual dobrou quem jamais previa a capacidade de o jeitinho feminino conquistar até mesmo o inquebrantável chefão do torneio. Às colegas de profissão, resta o desafio de aproveitar a brecha para garantir a manutenção do espaço aberto por Ronda Rousey.

Dana White: Jon Jones lutará contra vencedor de Shogun x Gustaffson

UFC adota critério duvidoso para escalar desafiante ao cinturão

No Twitter: @tiagobarbosa_

A definição dos combates pelo título do meio-pesado do UFC se tornou motivo de chacota. Uma piada alimentada pela falta de critério do torneio em priorizar os atletas mais técnicos. O primeiro tropeço veio com a escalação de Chael Sonnen como técnico rival do campeão Jon Jones na edição de número 17 do The Ultimate Fighter dos EUA. O lucro guiou a escolha: o falastrão norte-americano nem de longe merecia o posto depois de ter sido surrado na categoria de baixo por Anderson Silva. Deveria entrar na fila, fazer várias lutas antes de pleitear o título. Mas a chance de catapultar a audiência com as peripécias de Sonnen na TV impôs o lutador.

Após a predileção pelo showbiz, o presidente da franquia, Dana White, se equivoca na avaliação técnica ao garantir o vencedor de Shogun x Gustafsson (ver card abaixo) como próximo adversário de Jones. Lyoto Machida e Dan Henderson mereciam a oportunidade antes. Mauricio Shogun Rua é, históricamente, nome notável no universo de atletas de MMA brasileiros. Chegou ao cinturão dos meio-pesado do UFC com méritos – ao bater Machida -, mas perdeu a qualidade no desempenho nas lutas seguintes e afastou-se da forma com a qual se consagrou. A performance apresentada contra Brandon Vera, último duelo, recebeu críticas porque o brasileiro caminhou com sofreguidão no octógono. Ficou notória a falta de ar e de preparo físico do ex-campeão dentro do ringue. O próprio chefão do UFC lamentou após o combate e decidiu preteri-lo (pelo menos, em tese) das disputas seguintes.

O sueco Alexander Gustafsson possui um cartel impressionante: 14 vitórias e uma derrota. No UFC, são sete sucessos e um tropeço (contra Phill Davis). O retrospecto, no entanto, é insuficiente para credenciá-lo ao cinturão – do ponto de vista técnico, por falta de duelos mais difíceis, e financeiro, pelo fato de o atleta ser um nomem apenas comum dentro da comunidade do MMA.

Lyoto Machida, o único lutador a intimidar Jon Jones em pé, e Dan Henderson, com quem o campeão só não lutou por conta de uma lesão do veterano, foram deixados de lado sem justificativa plausível. O brasileiro deveria ser o primeiro na lista para reaver o cinturão em função do desempenho apresentado no combate contra o jovem talento do UFC. E Dan Henderson, em virtude da idade avançada, 41 anos, e dos serviços prestados com louvor ao MMA, merecia uma chance com certa brevidade. Mas eles terão de se enfrentar para – só depois – disputar o humor instável de Dana White na hora de posicioná-lo na chance pelo título da categoria.

O tempo é impiedoso e pode usurpar do UFC a oportunidade de presenciar confrontos ansiosamente esperados pelo público. Se continuar a definir os embates com base em critérios frágeis, o mandachuva do torneio pode exauri-lo na principal virtude: colocar os mais bem qualificados dentro do octógono para premiar os melhores lutadores da atualidade. Vai sobrar o riso.

UFC: Henderson x Diaz
8 de dezembro de 2012, em Seattle (EUA)
CARD PRINCIPAL
Ben Henderson x Nate Diaz
Maurício Shogun x Alexander Gustafsson
BJ Penn x Rory MacDonald
Mike Swick x Matt Brown
CARD PRELIMINAR
Yves Edwards x Jeremy Stephens
Raphael Assunção x Mike Easton
Ramsey Nijem x Joe Proctor
Daron Cruickshank x Henry Martinez
Tim Means x Abel Trujillo
Dennis Siver x Nam Phan
Scott Jorgensen x John Albert

Anderson Silva x George St-Pierre: a final de copa do mundo do UFC

 Superluta pode ser um marco na história moderna do Ultimate

Quando pôs o pé na estrada dos esportes, o UFC controlado por Dana White e os irmãos Fertita topou com dois desafios: derrubar a imagem negativa de barbárie associada ao MMA e emplacar estratégias de marketing capazes de vender a atividade como uma prática socialmente aceita (e lucrativa). O desafio de suavizar as lutas percorreu a adoção de regras rígidas, preocupação com a saúde dos atletas e categorização por peso dos combates. A popularização ganhou corpo, principalmente, com o reality show The Ultimate Fighter e a conseqüente exibição da vida pessoal dos lutadores na TV. Em uma década, o torneio ganhou o mundo e derrubou recordes de audiência.

Mas o sucesso ainda carece de uma catarse. O momento derradeiro para glorificar o Ultimate através de uma marca inédita aos olhos do planeta. O apogeu comparável a uma final de copa do mundo, a um epílogo de jogos olímpicos. A franquia batalha pelos recordes e nutre iniciativas geradoras de atenção. Dana White farejou em Chael Sonnen, por exemplo, mero falastrão fora do octógono, um convite ao público. E deu-lhe privilégios negados a atletas mais tarimbados. A revanche contra Anderson Silva, no meio de 2012, mirou tão somente o lucro. Rendeu audiência, mas nem chegou perto do sonho de estourar limites – recorde obtido com Brock Lesnar VS. Frank Mir, em 2009, com 1,6 milhões de PPV.

A próxima cartada do UFC para chegar ao topo da lista é dar voz aos fãs e promover um dos confrontos mais esperados do torneio: a luta entre Anderson Silva, campeão do médio, e George St-Pierre (GSP), campeão unificado dos meio-médios, cinturão recuperado no sábado passado. Durante anos, os dirigentes evitaram o duelo. Mas tanto o brasileiro como o canadense venceram todos os adversários possíveis e se tornaram os dois maiores detentores de título da franquia. A superluta, com peso combinado, virou imposição do MMA da atualidade.

A previsão de quebra de recorde financeiro e de público frutifica na retaguarda profissional de cada atleta. Os dois têm o nome na relação dos eventos mais vistos na história do UFC – Silva VS. Sonnen é o oitavo da lista, seguido por St-Pierre VS. BJ Penn – e desfrutam de uma legião de patrocínios de fazer inveja – Anderson é apoiado por Burger King, Nike, Nextel, enquanto GSP tem o suporte do Google, da Coca-Cola, Bacardi, entre outros. A máquina publicitária toma mais fôlego quando se alinha ao desempenho atlético e midiático dos dois, considerados extremamente técnicos dentro do octógono e exemplos de caráter fora dele.

O presidente do UFC, Dana White, compreende o potencial do combate. E, por isso, cogita um evento de proporções épicas, realizado em um estádio de futebol com capacidade para mais de cem mil pessoas no Brasil ou em Dallas, nos EUA, já em maio de 2013. O maior número de espectadores presentes a uma edição do Ultimate, até agora, corresponde à metade da projeção: foi na edição 129, em Toronto no Canadá, em 2011, com 55 mil pagantes – e a luta principal envolvia GSP e Jake Shields. A possibilidade de duplicar o público em um combate com os principais campeões da franquia, em meio à locomotiva de marketing movida a anúncios e interesse dos fãs, tornaria o combate o mais significativo da história do MMA. Antes, no entanto, é preciso convencer os protagonistas. E a tarefa é cumprida com paciência.

Anderson Silva sempre se mostrou contrário à ideia. …Continue lendo…