Uma foto que revela o futuro de Anderson Silva

Campeão dos médios do UFC indicou possíveis adversários pelo caminho

A sabedoria informal é útil para farejar indícios de realidade onde se amontoam apenas aparências. E a cartilha do senso comum é prática quando extrai de um ato involuntário a vontade de revelar pensamentos. Ensinamento popular define pura e simplesmente: toda brincadeira tem um fundo de verdade.

A postagem de uma foto do brasileiro Anderson Silva no Instagram deu margem indispensável a interpretações sobre a próxima luta do atleta. A imagem, mesmo publicada a serviço da interatividade, restringiu o universo de futuros adversários do campeão do peso médio do UFC. O Aranha atiçou os fãs ao perguntá-los com qual oponente deveria dividir o octógono. Na múltipla escolha, recortou: Vitor Belfort, George St-Pierre e Chris Weidman.

A provocação escancara: o Aranha foge de uma luta com Jon Jones, campeão do meio-pesado, aceita revanche contra Vitor Belfort, detonado por ele com apenas um chute, reforça a possibilidade de um duelo de peso acertado com George St-Pierre e, pela primeira vez, inclui o lutador Chris Weidman entre os desafiantes.

Anderson Silva nunca escondeu o desgosto de enfrentar Jones, revelação mais talentosa do Ultimate nos anos recentes. Pressionado por Dana White, o mandachuva da franquia, apelou até para a amizade recém-contraída com o lutador mais novo. Quando o UFC 151 naufragou por falta de adversários aptos a disputar o cinturão de Jon, o brasileiro impôs uma condição: lutaria com qualquer um para salvar o card. Menos, claro, o rei do meio-pesado. Virou o rosto para o confronto mais esperado pelos fãs. Golpe do medo.

A superluta com George St-Pierre, preterida anos antes, virou atalho para fugir de Jones. O desafio com o campeão de uma categoria mais leve motivou o Aranha. Mas a recusa, disfarçada sob o ódio ferino de GSP em relação a outro lutador da franquia, serviu de escudo ao campeão do meio-médio para se esquivar do combate. O canadense pediu para bater em Nick Diaz, ex-candidato ao título, punido por derrotas dentro do octógono e indisciplina fora dele. O medo virou de lado. E o encontro com Silva caiu nas mãos do tempo.

O círculo apertou Belfort e Weidman. O brasileiro já experimentou o gosto – amargo – de topar com Silva. Despencou em um chute memorável. Mais experiente, calejado e empolgado depois de ferir até mesmo Jon Jones, é cotado para a revanche. Vitor mira mais em cima. Quer outra chance, sim. Mas contra o campeão do meio-pesado. A escolha o beneficia: Belfort fatura junto ao público, ávido por desafios épicos, esquiva-se da responsabilidade de vencer – o adversário é favorito – e escapa de apanhar de novo de Anderson. Vira presa longe do alcance da teia do Aranha.

Os percalços do destino armam um cenário difícil de ser redesenhado: jovem de 28 nos e invicto após nove combates, Chris Weidman resta como única opção imediata para o Aranha sair do descanso. O norte-americano é barulhento e clama aos chefes para lutar pelo título. A escalada até as bordas do topo lhe permitiu derrubar Demiam Maia e Mark Munhoz. Mas Anderson ainda o vê com desdém. O bolso impõe um freio: Chris é atleta pífio para atrair anunciantes. E longe de ser ameaça ao cinturão do brasileiro.

O tempo, no entanto, encurta o período de decisão do campeão dos médios. Os 37 anos exigem pressa. Longe do octógono desde outubro, ele precisa acelerar o passo para dar conta das dez lutas acertadas com o UFC. Na luta da maturidade contra a liberdade de escolha, o eleito deve vir de uma disputa (inesperada, até agora) de Weidman e Belfort. Depois, a hipótese mais provável é Anderson encarar o canadense GSP, já sem adversários na categoria. Jon Jones vira sonho de consumo para fechar a carreira.

A foto postada no Instagram sentencia o destino do maior lutador da atualidade. O ditado do povo credencia a conjectura em torno do combate seguinte do Aranha. É inescapável: onde há fumaça, há fogo.

O que será de Nick Diaz?

O combate entre George St-Pierre e Nick Diaz é um capítulo à parte do UFC. Desvia de acertos em função de ranking (qualquer um), foge a brigas por cinturão, escapa de confronto entre melhores. O duelo é um acerto particular. Às cegas da lógica. A encruzilhada entre pessoal e profissional. Vem de um pedido concedido sem bravatas pelo Ultimate a GSP, campeão do meio-médio, um dos melhores do MMA atual.

Pierre estava entalado com Diaz por conta das asneiras disparadas pelo bad boy do torneio meses atrás. Ambos deveriam se encontrar dentro do octógono no UFC 137. Mas Nick seguiu a coerência dos atos impensados: faltou à coletiva de imprensa e terminou punido. O duelo seguinte atrasou por conta de lesão de GSP.

A raiva nunca morreu. Hibernou para acordar meses depois. Às vésperas de despejá-la, no UFC 158, em março, George topou com Nick na entrevista a jornalistas, ontem. Os dois trocaram elogios. Mas a cordialidade, no MMA, é a ante-sala da fúria desmedida. Quando subir no octógono, St-Pierre terá as ferramentas para destroçar Diaz. Tem habilidade, agilidade, repertório e físico para fazer de Nick uma vaga lembrança de magrelo metido a lutador. Só o espírito do improvável salva o bad boy.

 Antes mesmo de a luta virar história, a dúvida inquietante a respeito do combate é: o que será de Nick Diaz quando a derrota se somar a uma trajetória marcada por indisciplina, abuso de maconha e palavreado calado por insucessos?

GSP se curva à facilidade e o MMA sofre…

Campeão prefere enfrentar o bad boy Nick Diaz a lutar contra o Aranha

E George St-Pierre se curvou. Preferiu o caminho mais fácil. Embora menos digno para a trajetória dele enquanto campeão do meio-médio do UFC. Aceitou lutar contra o bad boy da franquia, Nick Diaz – e a pecha de playboy do mal é o único atrativo dele na fase atual do showbiz do MMA – em detrimento de um possível combate contra Anderson Silva, melhor do momento nas artes marciais mistas. Entre arriscar levar uma surra do Aranha e sanar uma rixa antiga com um lutador cheio de empáfia e maus modos, a exemplo da suspensão por uso repetido de maconha, o canadense tascou a chance de sair por cima.

Os dois lutadores sobem no octógono em 18 de março de 2013. Antes, não dá. Há um detalhe nada desprezível pelo caminho: Nick Diaz aguarda o fim da suspensão de um ano por ter consumido maconha no período do duelo contra Carlos Condit, na disputa pelo cinturão interino da categoria. Combate do qual saiu derrotado depois de encher o peito se declarar o melhor antes de ser submetido ao infalível teste do esporte: simplesmente entrar, competir e ganhar.

LEIA: A vida não para, MMA…

O falatório também dominou o primeiro encontro dos dois lutadores no ringue – frustrado porque Nick faltou à coletiva de imprensa sobre o torneio. Enfurecido, Dana White, o flexível presidente da franquia, colocou o atleta para fazer a luta secundária da noite e chegou a ameaçá-lo. Mas, ciente do potencial de lucro dos lutadores com a língua solta, amansou. E Nick ganha nova oportunidade de disputar o título da categoria. De quebra, também resolve uma pendência extra-octógono com St-Pierre. Nos meses recentes, os dois trocaram farpas pela mídia – fenômeno raro para o campeão, sempre tido como um gentleman pela conduta social – e se juraram mutuamente.

A St-Pierre, um fôlego para dissipar a atenção em torno da superluta contra Anderson Silva. Confronto do qual ele foge e se esconde atrás de argumentos financeiros. Levar o próximo desafio até março implicaria, logicamente, adiar um possível combate contra o Aranha para, no mínimo, o meio de 2013 – respeitado o prazo de descanso e recuperação pós-duelo. E tempo, como todos sabem, é um inimigo mordaz do brasileiro, já com 37 anos e perto de pendurar as luvas – embora insista junto ao UFC em estender o contrato por mais confrontos.

Cada vez mais envolvido com a possibilidade de faturar, o UFC nem hesitou em definir o duelo principal da edição de número 158. O canadense George St-Pierre, campeão com mais defesas de títulos depois de Anderson Silva, colocará o cinturão em jogo contra o garotinho problema do torneio, o imprevisível Nick Diaz. A escolha vai valer a noite: os dois chegarão ao confronto com fumaça no nariz. Mas, lá no fundo, fica a sensação de mais uma oportunidade perdida. Bom mesmo seria ver GSP em pé de igualdade contra o Aranha brasileiro. O MMA se curvaria.

O nocaute que ensinou ao boxe e ao MMA: a vida não para

O tombo do boxeador Manny Pacquiao depois de ser golpeado a um segundo do fim do sexto round de um eletrizante duelo contra Juan Manuel Marquéz, no sábado, jogou na lona a alma de quem nutre paixão por esportes. Deu um baque na expectativa de vê-lo em ação contra a outra lenda viva do boxe Floyd Mayweather, duelo entravado por anos pela burocracia fora do ringue. A superluta ansiada pelos fãs soava como redenção da nobre arte na era da explosão de popularidade do MMA. Mas a queda do filipino em Las Vegas desmoronou a esperança: aos 33 anos, açoitado por duas derrotas após se manter invicto por sete anos e quinze duelos, o pugilista deve optar pelo resguardo. O corpo e a técnica definham. O ocaso de Pacquiao é a rasteira do tempo na incompetência dos dirigentes e a aula do destino para o boxe e o co-irmão MMA: a vida não espera as artimanhas para colocar os melhores frente a frente.

O encontro entre Pacquiao e Floyd se impunha como tira-teima pelo título de melhor da atualidade. Eleito o lutador da década, escolhido três vezes como boxeador do ano, e com apenas três derrotas até então no currículo, o filipino gozava de prestígio absoluto aos trinta e poucos anos de vida. O oponente, nunca derrotado como profissional, colecionava cinco títulos em categorias distintas. O mundo pedia o encontro. Mas divergências no valor de pagamento das bolsas atrasaram e, agora, praticamente impediram o combate. Pacquiao deve se entregar à carreira política nas Filipinas. E o boxe vai lamentar sempre a luta nunca vista.

O desencontro soa como alerta ao quiprocó do UFC para agendar lutas de Anderson Silva com Jon Jones e George St-Pierre. O brasileiro, melhor do MMA hoje, tem 37 anos e, apesar da tentativa de se manter ativo por mais dez combates, se aproxima do fim da carreira e da forma física excepcional. Vive o ápice da trajetória de sucesso. O confronto com as outras duas estrelas da franquia exige pressa sob o risco de entrar para o arquivo das frustrações esportivas. O tempo é inimigo mordaz do Ultimate a exemplo do desgaste provocado sobre outras modalidades, como futebol, vôlei, basquete. O atleta tem prazo de validade. Paciência também.

A inércia de agendar os combates – sempre adiados por empresários e os próprios lutadores – retarda a possibilidade de torná-los factíveis. A marcha da lentidão é carregada de obstáculos. O canadense St-Pierre pede valores astronômicos para encarar Silva. O Aranha se mostrou favorável, mas quer receber alto também. Jon Jones refuga o brasileiro e corre para o peso-pesado. Na dispersão diária das declarações, o esporte padece.

O presidente da franquia, Dana White, tem a missão de fazer os duelos acontecerem. Deve mirar o exemplo negativo do boxe para quem o confronto Floyd e Pacquiao será uma recordação natimorta. Os mais críticos podem até apedrejá-lo por querer deslocar Anderson de categoria e dar vazão ao showbusiness. Mas o momento é outro. O Aranha superou toda sorte de adversários. Chegou ao esplendor da carreira e nada mais precisa provar. Defendeu o cinturão com propriedade. Agora, é preciso vôo mais ousado. Dentro da regra do esporte, com peso combinado.

Se demorar para agir, Dana vai acumular o segundo revés de leniência diante dos fãs. O primeiro atende pelo nome de Fedor Emelianenko, um dos maiores de todos os tempos, esquecido pelo UFC por divergências empresariais. Até hoje ele é lembrado por quem aprecia as artes marciais mistas e queria tê-lo visto no Ultimate. A vida é insensível aos caprichos da burocracia. Ela não para. Foram-se Pacquiao e Floyd. Vão-se Anderson Silva, St-Pierre e Jon Jones?

Jean-Claude Van Damme homenageia George St-Pierre em vídeo

Ícone dos filmes de artes marciais, o ator Jean-Claude Van Damme é personagem recorrente nas rodas de MMA. Assim como o colega de profissão Steven Seagal, ele participa dos treinamentos dos atletas e, claro, amplia o status de celebridade já obtido pela atuação no cinema e na televisão. Depois da vitória de George St-Pierre contra Carlos Condit – símbolo da unificação do cinturão dos meio-médios do UFC após afastamento de quase 18 meses em função de lesão -, a estrela do cinema parabenizou o colega e postou vídeo no YouTube com mix de imagens nas quais os dois treinam juntos.

O material mistura, ainda, atuação de ambos no campo onde se consagraram: Van Damme como Frank Dux no clássico “O último Dragão Branco”, filme no qual derrota série de adversários para vingar o mestre e o amigo, e GSP no octógono, com o desempenho de sucesso na conquista e manutenção do título da categoria. Confira acima.

O UFC vai barrar os aventureiros?

Agora é Nick Diaz que quer fazer superluta contra Anderson Silva

O silêncio do UFC antes de definir o próximo adversário do imbatível Anderson Silva virou espécie de concessão para aventureiros se lançarem no caminho do Aranha. E eles começam a dar as caras. Nick Diaz, atleta punido duas vezes pela comissão atlética por uso de maconha, derrotado por Carlos Condit na luta criada para aquecer o combate com o campeão George St-Pierre, desfruta os 15 minutos de fama ao ver o nome atirado no noticiário pelo treinador Cesar Gracie.

O que o credencia a uma superluta contra o campeão dos médios, o maior da atualidade nas artes marciais mistas? Nada. Apenas uma retaguarda técnica de influência na comunidade do MMA e um barulho em torno da fama de “bad boy” da franquia – mais pela forma de agir verificada fora do octógono. Nick reza pela cartilha de comportamento escrita por Chael Sonnen: faz questão de alimentar a os gestos destemperados – já foi fotografado com o dedo médio em riste, faltou a coletiva de imprensa marcada pelo UFC, recebeu punição por indisciplina – e falar muito antes dos combates. Mas é só.

Quando finalmente passou perto de tentar o cinturão contra St-Pierre, correu da entrevista, enfureceu Dana White e acabou rebaixado no card. Em seguida, disparou farpas contra o campeão o canadense do meio-médio. Testado antes contra Carlos Condit, mostrou um desempenho pífio e perdeu o cinturão interino. Pior: flagrado no antidoping pela segunda vez por uso de maconha, foi para a geladeira, de onde só sai depois de fevereiro do próximo ano. Aos 29 anos, o atleta acumula 26 vitórias na carreira e apenas oito derrotas. Mas, no UFC, o resultado é sete triunfos e cinco tropeços. O sucesso obtido no Strikeforce é o único cartão de visita apresentável ao combate. Ainda assim, é pouco para fazer frente ao Aranha.

O colega de bravatas Chael Sonnen chegou mais longe com as provocações longe do ringue. Conseguiu lutar contra Anderson Silva por duas vezes – e perder ambas – e, agora, vai disputar o cinturão dos meio-pesados contra Jon Jones. Ele rende dinheiro e atrai patrocínio. É o único trunfo. Diaz nem isso conseguiu. Antes de vislumbrar uma superluta, ele precisa deixar de ser um meio atleta. Corrigir a postura extra ringue e subir a escada dos adversários para topar com os maiores. O UFC precisa bradar contra os aventureiros.

No Twitter, @tiagobarbosa_

George St-Pierre leva nocaute verbal de lutadora


No Twitter: @tiagobarbosa_

No octógono, George St-Pierre brilhou. Retornou de lesão após dezoito meses e conseguiu recuperar o cinturão dos meio-médios do Ultimate Fighting Championship. O desempenho atlético exibido na edição de número 154, realizada no sábado passado, calou críticos e machucou Carlos Condit, adversário da vez. O triunfo cobrou um preço: o canadense sentiu na pele a força das pancadas que, desde o afastamento médico, estava desacostumado a receber. O rosto inchado e roxo na coletiva de imprensa, somado à compressa de gelo para diminuir a dor, denunciou o sofrimento.

Mas o golpe mais duro sofrido pelo campeão veio de fora do ringue. Da boca de uma das melhores lutadoras de MMA do mundo. E nocauteou o moral do lutador – pelo menos diante da opinião pública. Miesha Tate, uma das duas atletas contratadas pelo UFC para integrar o ainda embrionário quadro feminino da franquia, tachou o ídolo canadense de ignorante. GSP havia se manifestado de forma preconceituosa a respeito das lutas de mulheres nas artes marciais mistas – justamente um dos filões do esporte recém descobertos pelos dirigentes do torneio após anos de desdém do chefão Dana White. A reação bateu forte no ouvido de George e serviu de muleta para quem defende a inclusão delas no maior evento de MMA do planeta. Veja o que cada um disse:

A declaração de George St-Pierre:

“Eu tenho no meu coração, sabe, talvez pela forma como cresci, uma mentalidade diferente. Sou da velha escola. Eu fiquei mal assistindo mulheres lutando. Eu realmente nunca vi de fato uma mulher lutando, mas até acho legal”

A resposta de Miesha Tate

“Se ele nunca assistiu a nós lutarmos, então ele não pode dizer como realmente se sente sobre isso porque é ignorante. Ser antiquado é bom, mas nós, mulheres dos dias modernos, não estamos pedindo a sua proteção, estamos pedindo a sua aceitação e estamos lutando por igualdade. Se todos se sentiram sobre MMA o que GSP acha sobre o MMA feminino, então ele não teria um emprego. Espero que Georges St-Pierre possa abrir sua mente um pouco e realmente assistir às lutas de algumas mulheres. Estamos chegando ao UFC por uma razão e seria bom ter um apoio total de meu lutador favorito de todos os tempos. Não vai demorar muito para ele perceber que não somos essas criaturas frágeis quando entrar no cage, somos guerreiras e tão merecedoras de respeito quanto os homens”

Anderson Silva x George St-Pierre: a final de copa do mundo do UFC

 Superluta pode ser um marco na história moderna do Ultimate

Quando pôs o pé na estrada dos esportes, o UFC controlado por Dana White e os irmãos Fertita topou com dois desafios: derrubar a imagem negativa de barbárie associada ao MMA e emplacar estratégias de marketing capazes de vender a atividade como uma prática socialmente aceita (e lucrativa). O desafio de suavizar as lutas percorreu a adoção de regras rígidas, preocupação com a saúde dos atletas e categorização por peso dos combates. A popularização ganhou corpo, principalmente, com o reality show The Ultimate Fighter e a conseqüente exibição da vida pessoal dos lutadores na TV. Em uma década, o torneio ganhou o mundo e derrubou recordes de audiência.

Mas o sucesso ainda carece de uma catarse. O momento derradeiro para glorificar o Ultimate através de uma marca inédita aos olhos do planeta. O apogeu comparável a uma final de copa do mundo, a um epílogo de jogos olímpicos. A franquia batalha pelos recordes e nutre iniciativas geradoras de atenção. Dana White farejou em Chael Sonnen, por exemplo, mero falastrão fora do octógono, um convite ao público. E deu-lhe privilégios negados a atletas mais tarimbados. A revanche contra Anderson Silva, no meio de 2012, mirou tão somente o lucro. Rendeu audiência, mas nem chegou perto do sonho de estourar limites – recorde obtido com Brock Lesnar VS. Frank Mir, em 2009, com 1,6 milhões de PPV.

A próxima cartada do UFC para chegar ao topo da lista é dar voz aos fãs e promover um dos confrontos mais esperados do torneio: a luta entre Anderson Silva, campeão do médio, e George St-Pierre (GSP), campeão unificado dos meio-médios, cinturão recuperado no sábado passado. Durante anos, os dirigentes evitaram o duelo. Mas tanto o brasileiro como o canadense venceram todos os adversários possíveis e se tornaram os dois maiores detentores de título da franquia. A superluta, com peso combinado, virou imposição do MMA da atualidade.

A previsão de quebra de recorde financeiro e de público frutifica na retaguarda profissional de cada atleta. Os dois têm o nome na relação dos eventos mais vistos na história do UFC – Silva VS. Sonnen é o oitavo da lista, seguido por St-Pierre VS. BJ Penn – e desfrutam de uma legião de patrocínios de fazer inveja – Anderson é apoiado por Burger King, Nike, Nextel, enquanto GSP tem o suporte do Google, da Coca-Cola, Bacardi, entre outros. A máquina publicitária toma mais fôlego quando se alinha ao desempenho atlético e midiático dos dois, considerados extremamente técnicos dentro do octógono e exemplos de caráter fora dele.

O presidente do UFC, Dana White, compreende o potencial do combate. E, por isso, cogita um evento de proporções épicas, realizado em um estádio de futebol com capacidade para mais de cem mil pessoas no Brasil ou em Dallas, nos EUA, já em maio de 2013. O maior número de espectadores presentes a uma edição do Ultimate, até agora, corresponde à metade da projeção: foi na edição 129, em Toronto no Canadá, em 2011, com 55 mil pagantes – e a luta principal envolvia GSP e Jake Shields. A possibilidade de duplicar o público em um combate com os principais campeões da franquia, em meio à locomotiva de marketing movida a anúncios e interesse dos fãs, tornaria o combate o mais significativo da história do MMA. Antes, no entanto, é preciso convencer os protagonistas. E a tarefa é cumprida com paciência.

Anderson Silva sempre se mostrou contrário à ideia. …Continue lendo…

UFC 154: a volta triunfal de George St-Pierre

Texto: UFC

Além de um time de canadenses no card, Georges St-Pierre era garantia de casa cheia no Bell Centre, em Montreal, palco do UFC 154, neste sábado. Mais que isso, se vencesse Carlos Condit na luta principal, GSP estaria na linha para enfrentar Anderson Silva numa superluta histórica. E foi exatamente o que aconteceu, para a alegria dos fãs e delírio geral.

Sem lutar desde abril de 2011, por conta de lesões no joelho, GSP veio com tudo contra Carlos Condit, então detentor do cinturão interino da categoria meio-médio. Disposto a definir antes do gongo final, o que não acontece desde janeiro de 2009, St-Pierre pôs seu jogo em prática, aplicando quedas e agredindo com um ground-and-pound efetivo. Condit já começou a sangrar desde o primeiro assalto, mas não desistiu. Na terceira etapa, conseguiu um knockdown no atleta da casa com um belo chute. GSP se recuperou, e continuou castigando no chão, com socos e cotoveladas. Não veio a finalização ou nocaute, meta do canadense, mas foi uma luta incrível, entre as melhores do ano. Por decisão unânime, o cinturão se manteve com Georges, que chega à décima vitória seguida no UFC.

Dois brasileiros estiveram em ação no Octógono. Com o cancelamento da luta entre Nick Ring e Costa Philippou, Rafael dos Anjos ganhou a oportunidade de enfrentar Mark Bocek no card principal, e o tupiniquim fez valer o show. Desde os primeiros instantes partiu para cima com bons socos, chutes e joelhadas voadoras. Bocek procurava quedar, mas era anulado por Rafael, que seguia as instruções dos treinadores Roberto Gordo e Rafael Cordeiro. Nos momentos no solo, o brazuka também foi superior, tendo arriscado algumas finalizações. Dos Anjos dominou os três rounds, o que valeu, com segurança, a decisão unânime a seu favor. É a terceira vitória seguida do peso leve brasileiro, atualmente radicado na Califórnia.

Em busca da segunda vitória no UFC, depois do triunfo sobre Anistávio Gasparzinho, Rodrigo Damm tinha pela frente um especialista na trocação, mas também faixa-preta de jiu-jitsu, Antonio Carvalho, o Pato. O brasileiro tem entre as habilidades a qualidade no jogo agarrado, tendo sido campeão em torneios de jiu-jitsu e campeão brasileiro de wrestling. No entanto, Damm buscou o combate em pé, na trocção. Não foi mal, tendo conectado bons socos, enquanto Pato usava os chutes para castigar a perna esquerda de Rodrigo. No corner, nada menos que Anderson Silva, ao lado do treinador Josuel Distak, avisavam sobre o perigo dos chutes. Após três rounds parelhos, talvez tenham sido eles o diferencial na interpretação dos jurados, que deram o triunfo a favor de Antonio Pato em decisão dividida. O lutador português, radicado no Canadá, chegou à segunda vitória em três lutas pelo UFC.

Na segunda luta principal da noite, Johnny Hendricks precisou de apenas 46 segundos para conectar um duro soco e acabar com as chances de Martin Kampmann. Já no card preliminar, um dos desafios mais aguardados foi vencido por Patrick Cote, outro ídolo local. Cote foi nocauteado, mas seu oponente, Alessio Sakara, aplicou golpes na nuca e acabou desclassificado. Também mandaram bem Cyrille Diabate, que saiu das características (muay thai) e finalizou Chad Griggs com um mata-leão, enquanto Ivan Menjivar aplicou um belo armlock contra Azamat Gashimov.

Confira todos os resultados:

UFC 154 Montreal, Canadá Sábado, 17 de novembro de 2012
Georges St-Pierre venceu Carlos Condit por decisão unânime
Johnny Hendricks venceu Martin Kampmann por KO aos 46s do R1
Francis Carmont venceu Tom Lawlor por decisão dividida
Rafael dos Anjos venceu Mark Bocek por decisão unânime
Pablo Garza venceu Mark Hominick por decisão unânime
Patrick Côté venceu Alessio Sakara por desclassificação aos 1min26s do R1
Cyrille Diabaté finalizou Chad Griggs com um mata-leão aos 2min44s do R1
John Makdessi venceu Sam Stout por decisão unânime
Antonio Carvalho venceu Rodrigo Damm por decisão dividida
Matthew Riddle venceu John Maguire por decisão unânime
Ivan Menjivar finalizou Azamat Gashimov com um armlock aos 2min44s do R1
Darren Elkins venceu Steven Siler por decisão unânime

A pressão sobre George St-Pierre às vésperas do UFC 154


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Enquanto padeceu longe do octógono para se recuperar de uma cirurgia no joelho, o canadense George St-Pierre assistiu a uma paulatina mudança de paradigma no Ultimate Fighting Championship: os dirigentes do torneio derreteram a indiferença em relação aos fãs do esporte e deram sinais cada vez mais significativos de querer armar superlutas entre ícones de categorias diferentes da franquia – em especial, contra Anderson Silva, campeão dos médios e maior lutador de MMA da atualidade.

A possibilidade remota meses atrás de subir ao ringue para enfrentar o brasileiro tornou-se alvo de clamor imediato. Ao lado de Jon Jones, campeão do meio-pesado, St-Pierre virou um dos atletas mais cogitados para dissipar a aura mítica de invencibilidade criada em torno do Aranha. A expectativa contraída involuntariamente pressiona o próximo desafio do canadense, contra o campeão do meio-médio, Carlos Condit. George adentra o octógono do UFC 154, no próximo dia 17, com a múltipla missão de recuperar o título, espantar sequelas da cirurgia e se apresentar como o mesmo atleta mordaz sobre o qual o mundo deposita esperanças de fazer frente a adversários como Anderson.

A cautela é, até agora, o escudo empunhado pelo canadense para se defender da pressão. GSP, detentor de números invejáveis de venda no pay-per-view, atribui as especulações ao potencial financeiro da luta. E prefere concentrar esforços no combate contra Condit. Sem sobressaltos, um passo de cada vez: “Falam comigo sobre a luta seguinte, mas ainda não estou lá. Condit é um cara perigoso”, ele disfarça, com a tática freqüentemente utilizada por treinadores de futebol para quem ninguém merece descrédito.

O canadense admite a hipótese de enfrentar o brasileiro. Mas pede um tempo para analisar os desdobramentos do duelo. O campeão Anderson Silva já demonstrou interesse em lutar contra a lenda viva do MMA canadense. Preferiu enfrentá-lo a ter de topar, agora, com o norte-americano Jon Jones, uma estrela em ascensão nas artes marciais mistas em plena forma física e atlética. A decisão da superluta entre os veteranos é um passo calculado nos bastidores pelo UFC. Na linha de frente, George St-Pierre dá passadas largas na precaução: a estrada da vez é o duelo contra Condit. O resto é um caminho a ser trilhado.

O campeão:

George St-Pierre, 31 anos

Lutas: 24

Vitórias: 22

Derrotas: 2

Invicto há nove lutas no UFC