Ah, UFC, poderia ser um mais difícil…

jonesxx

A língua pode até queimar – como é tendência natural em quem se atreve a antever os fatos. Mas é difícil pensar em derrota do campeão dos meio-pesados do UFC, Jon Jones, na luta recém-arranjada para ele contra o sueco Alexander Gustaffson. O duelo soa como arremedo diante da falta de adversários capazes de roubar-lhe o cinturão. E nunca é demais frisar: é mais um banho de água gelada em quem sonha um dia ver o maior combate de MMA da atualidade entre o jovem talento do Ultimate e o brasileiro Anderson Silva.

O adversário tem um histórico recente de sucessos. Mas as aparências podem enganar. Gustaffson só enfrentou dois lutadores entre os dez da lista dos mais fortes do ranking do UFC: Maurício Shogun Rua (7ª posição) e Phill Davis (8ª). Suou para ganhar do já combalido lutador brasileiro, hoje uma sombra do ex-campeão e guerreiro de antigamente. Perdeu do segundo lá atrás, antes de emplacar uma sequência de seis vitórias consecutivas. É uma performance duvidosa para encarar o maior lutador da atualidade depois do Aranha.

A definição da luta parece arranjo para movimentar o campeão Jon Jones. Verdade seja colocada: faltaram adversários disponíveis e qualificados – sobretudo depois da esquiva de Anderson Silva de uma possível superluta. Lyoto Machida, até hoje um dos lutadores mais perigosos frente ao campeão, ao lado de Vitor Belfort, vai encarar Phill Davis no próximo UFC no Rio de Janeiro. Está, portanto, fora da disputa (e até merece uma explicação mais robusta a falta de uma revanche entre ele e o campeão). Daniel Cormier recusou baixar de peso. Nem se cogitou o gordinho Roy Nelson. Shogun é carta fora do baralho depois de exibir performances fracas. Belfort até merecia uma chance, mas acabou ignorado.

O duelo está agendado para setembro, no Canadá, pelo UFC 165. E cai como uma luva para a pretensão de Jon Jones de segurar o título até embarcar rumo à categoria de cima, a dos pesos-pesados. Se depender do repertório de Gustaffson, até mesmo apontado por alguns como lutador com potencial, Jones segue imbatível. Isso se a língua não me trair…

A Vitor Belfort, apenas o caminho do cinturão

belfortluke12

Ele pode desconversar. Fingir falta de interesse. Jogar a decisão para as mãos do chefe Dana White. Mas é impossível virar os olhos para a necessidade de colocar o Fenômeno novamente no topo da lista para disputar um cinturão do UFC. Vitor Belfort esmagou qualquer receio de vê-lo perto do fim da carreira com o chute rodado e a saraivada de socos desferidos contra Luke Rockhold. O desempenho irretocável contra o desafiante – com nocaute ainda no primeiro round – evidenciou a boa forma do atleta e pressionou o Ultimate a fazer justiça com o lutador.

A luta contra Anderson Silva ou Jon Jones (um peso acima) é inevitável. A categoria dos médios está repleta de atletas destroçados pelo Aranha ou pelo próprio Belfort. Depois do falastrão Sonnen fazer as malas para o meio-pesado, o rol dos médios ficou com o ranking liderado por Anderson Silva seguido por Chris Weidman, Belfort, Yushin Okami, Michael Bisping e Luke Rockhold nas seis primeiras posições.

Sejamos honestos: se o Aranha vencer Weidman – uma luta cujo equilíbrio técnico é contestável, pois Chris pouco fez para merecer o duelo -, quem frearia a necessidade de vê-lo enfrentar Belfort? Bisping já mostrou ser um desqualificado na busca pelo cinturão. Okami é fraco para se atrever a alcançá-lo (perdeu para Anderson) e Rockhold… bem, Rockhold não vai levantar nem tão cedo. Ou seja, O Fenômeno e o Aranha deveriam reeditar um dos combates do século (no UFC 126, em 2011, deu o campeão com nocaute avassalador).

Há, no entanto, duas ressalvas contra o combate. A primeira atende pelo nome de superluta. O dirigente Dana White articula colocar Anderson Silva contra George St-Pierre (campeão do meio-médio) e Jon Jones (do meio-pesado). Seria um tira-teima exigido pelos fãs para saber quem é o melhor lutador da atualidade – diante da possibilidade de o Aranha brasileiro se aposentar. Outro obstáculo contra uma nova luta do século seria a própria vontade de Belfort de enfrentar novamente Jones. No primeiro duelo, perdeu depois de quase quebrar o braço do campeão.

O UFC pode até adiar uma luta entre Belfort e Anderson. E talvez eles nem queiram ficar frente a frente no octógono outra vez. Mas, a partir de agora, será difícil definir combates para o Fenômeno sem considerar a hipótese de cinturão – embora a humildade do lutador até suavize o desempenho dele na edição realizada em Santa Catarina. O ex-campeão Vitor Belfort merece, de novo, um lugar entre os melhores.

Lyoto Machida: o dragão precisa cuspir fogo novamente

O dragão brasileiro precisa cuspir mais fogo. A baforada anda fraca, tosca, insuficiente para amedrontar os adversários. O desempenho apresentado pelo carateca Lyoto Machida frente a Dan Henderson, no UFC 157, serviu apenas para credenciá-lo à disputa do cinturão. Mas preocupou pelo rendimento longe do ideal para quem sonha em ser o melhor da categoria. Principalmente quando o posto de número um é ocupado pelo imbatível Jon Jones.

O atleta do Pará é conhecido pela esquiva e estratégia do contra-ataque. Estuda os adversários e só arrisca com a certeza de atingi-los. É uma tática eficiente: rendeu-lhe um cinturão nos meio-pesados e só três derrotas na carreira de dezenove vitórias. Mas é pouco para o espetáculo do MMA e um risco quando a luta desemboca na decisão dos juízes.

Diante de Dan Henderson, o brasileiro economizou na agressividade, guardou os golpes e venceu pela margem mínima de diferença na avaliação dos árbitros. Passou maus momentos de costas para o chão e enfrentou sufoco em socos desferidos pelo oponente. Uma sequência bem encaixada do veterano mudaria o desfecho do combate e ameaçaria até mesmo a permanência de Machida no UFC – porque o chefão Dana White é intolerante com duelos sem a garra, trocação ou o jogo de solo inerentes aos confrontos mais empolgantes.

Lyoto já demonstrou destreza e agilidade em outras lutas. Derrubou Randy Couture com um chute cinematográfico, nocateou Rashad Evans com inteligência e até ameaçou o reinado de Jones. Mas no duelo com Henderson travou. Escondeu o ímpeto e exagerou no estudo do adversário. A concentração era visível, mas a gana pela vitória sumiu.

O maior desafio de Machida é interno. A luta é na cabeça. O ex-campeão carece de se portar com mais garra no octógono. Arriscar. Atacar. Sacar do repertório a variedade de golpes com os quais chegou ao topo da categoria e obteve prestígio na comunidade do MMA. A reconquista do cinturão é uma tarefa para quem cede à agressividade, derrama sangue nos olhos, investe na ousadia. A chance ressurgiu: contra Jon Jones, Lyoto precisa mostrar mais. Ao dragão, cabe voltar a cuspir fogo.

 

O dragão:

Idade: 34 anos
Cartel: 19 vitórias e 3 derrotas
À frente: Jon Jones ou Chael Sonnen

Uma foto que revela o futuro de Anderson Silva

Campeão dos médios do UFC indicou possíveis adversários pelo caminho

A sabedoria informal é útil para farejar indícios de realidade onde se amontoam apenas aparências. E a cartilha do senso comum é prática quando extrai de um ato involuntário a vontade de revelar pensamentos. Ensinamento popular define pura e simplesmente: toda brincadeira tem um fundo de verdade.

A postagem de uma foto do brasileiro Anderson Silva no Instagram deu margem indispensável a interpretações sobre a próxima luta do atleta. A imagem, mesmo publicada a serviço da interatividade, restringiu o universo de futuros adversários do campeão do peso médio do UFC. O Aranha atiçou os fãs ao perguntá-los com qual oponente deveria dividir o octógono. Na múltipla escolha, recortou: Vitor Belfort, George St-Pierre e Chris Weidman.

A provocação escancara: o Aranha foge de uma luta com Jon Jones, campeão do meio-pesado, aceita revanche contra Vitor Belfort, detonado por ele com apenas um chute, reforça a possibilidade de um duelo de peso acertado com George St-Pierre e, pela primeira vez, inclui o lutador Chris Weidman entre os desafiantes.

Anderson Silva nunca escondeu o desgosto de enfrentar Jones, revelação mais talentosa do Ultimate nos anos recentes. Pressionado por Dana White, o mandachuva da franquia, apelou até para a amizade recém-contraída com o lutador mais novo. Quando o UFC 151 naufragou por falta de adversários aptos a disputar o cinturão de Jon, o brasileiro impôs uma condição: lutaria com qualquer um para salvar o card. Menos, claro, o rei do meio-pesado. Virou o rosto para o confronto mais esperado pelos fãs. Golpe do medo.

A superluta com George St-Pierre, preterida anos antes, virou atalho para fugir de Jones. O desafio com o campeão de uma categoria mais leve motivou o Aranha. Mas a recusa, disfarçada sob o ódio ferino de GSP em relação a outro lutador da franquia, serviu de escudo ao campeão do meio-médio para se esquivar do combate. O canadense pediu para bater em Nick Diaz, ex-candidato ao título, punido por derrotas dentro do octógono e indisciplina fora dele. O medo virou de lado. E o encontro com Silva caiu nas mãos do tempo.

O círculo apertou Belfort e Weidman. O brasileiro já experimentou o gosto – amargo – de topar com Silva. Despencou em um chute memorável. Mais experiente, calejado e empolgado depois de ferir até mesmo Jon Jones, é cotado para a revanche. Vitor mira mais em cima. Quer outra chance, sim. Mas contra o campeão do meio-pesado. A escolha o beneficia: Belfort fatura junto ao público, ávido por desafios épicos, esquiva-se da responsabilidade de vencer – o adversário é favorito – e escapa de apanhar de novo de Anderson. Vira presa longe do alcance da teia do Aranha.

Os percalços do destino armam um cenário difícil de ser redesenhado: jovem de 28 nos e invicto após nove combates, Chris Weidman resta como única opção imediata para o Aranha sair do descanso. O norte-americano é barulhento e clama aos chefes para lutar pelo título. A escalada até as bordas do topo lhe permitiu derrubar Demiam Maia e Mark Munhoz. Mas Anderson ainda o vê com desdém. O bolso impõe um freio: Chris é atleta pífio para atrair anunciantes. E longe de ser ameaça ao cinturão do brasileiro.

O tempo, no entanto, encurta o período de decisão do campeão dos médios. Os 37 anos exigem pressa. Longe do octógono desde outubro, ele precisa acelerar o passo para dar conta das dez lutas acertadas com o UFC. Na luta da maturidade contra a liberdade de escolha, o eleito deve vir de uma disputa (inesperada, até agora) de Weidman e Belfort. Depois, a hipótese mais provável é Anderson encarar o canadense GSP, já sem adversários na categoria. Jon Jones vira sonho de consumo para fechar a carreira.

A foto postada no Instagram sentencia o destino do maior lutador da atualidade. O ditado do povo credencia a conjectura em torno do combate seguinte do Aranha. É inescapável: onde há fumaça, há fogo.

Um palco para Vitor Belfort brilhar

Brasileiro tem a chance de voltar à fila pelo cinturão diante de Bisping

A doutrina UFC serve recompensa a quem lhe devota atenção. Os pedidos atendidos dos dirigentes se convertem em vantagens, dinheiro e participação garantida em eventos futuros promovidos pela franquia. É um método eficaz para premiar a proatividade e o respeito dedicados ao esporte. E socorrer o torneio metido em apuros quando o inesperado atravessa o caminho dos campeonatos.

O brasileiro Vitor Belfort, lenda viva do MMA desde os tempos da extinta liga japonesa Pride, colhe neste sábado a predisposição de ajudar semeada no ano passado. O atleta faz a luta principal do UFC São Paulo, no retorno do evento à capital paulista depois de quase uma década e meia. Enfrenta Michael Bisping como favorito para triunfar e retomar a cobiça pelo cinturão do peso-médio, hoje colado à cintura de Anderson Silva. Apoiado maciçamente pela torcida, escalado contra um lutador falastrão, embalado em resultados bem-sucedidos, Belfort encontra no Brasil o palco perfeito para brilhar.

É o troco recebido por salvar o UFC do fiasco após o cancelamento da edição de número 151. A lesão de Dan Henderson o impediu de enfrentar Jon Jones. Chamado às pressas, Chael Sonnen foi recusado pelo campeão. Lyoto Machida, Maurício Shogun Rua e Anderson Silva rejeitaram o combate. Belfort se voluntariou. Ignorou previsões, desfez da diferença de peso, atropelou a pecha de amarelão. O sacrifício vingou. Abatido no octógono, o brasileiro quase inflingiu derrota a Jones. Perdeu. Mas ganhou respeito.

A próxima missão ressoa tranqulidade. O inglês Michael Bisping arrota prepotência para combater pelo cinturão. Mas perdeu, diante de Chael Sonnen, o combate decisivo para levá-lo ao título. Depois, venceu de forma pouco convincente a luta contra Brian Stann. Ao lado de Chris Weidman, até aparece na lista de possíveis candidatos à hegemonia dos médios. Mas a realidade é implacável: Bisping é fraco para derrotar Belfort e Anderson Silva.

A vitória no sábado devolve a Vitor a chance de reivindicar uma revanche contra o Aranha. Se as superlutas frente a George St-Pierre e Jon Jones tardarem, embora a pressão seja constante, Anderson deve mirar atletas da própria categoria. E Belfort surge na dianteira de nomes como Hector Lombard, Weidman e Bisping. A conjuntura favorece o brasileiro. Se o destino falhar em pregar uma peça no favorito, a recompensa se impõe: o UFC São Paulo é uma noite para Belfort brilhar.

CARD PRINCIPAL
Peso-médio (até 84,4kg): Vitor Belfort (84kg) x (84,4kg) Michael Bisping
Peso-médio (até 84,4kg): Daniel Sarafian (84,4kg) x (84,4kg) CB Dollaway
Peso-pesado (até 120,7kg): Gabriel Napão (115,7kg) x (117kg) Ben Rothwell
Peso-leve (até 70,8kg): Thiago Tavares(70,3kg) x (70,3kg)Khabib Nurmagomedov
CARD PRELIMINAR
Peso-pena (até 66,2kg): Godofredo Pepey (65,8kg) x (66,2kg)Miltinho Vieira
Peso-médio (até 84,4kg): Ronny Markes (84,4kg) x (84kg) Andrew Craig
Peso-pena (até 66,2kg): Diego Nunes (65,8kg) x (65,8kg) Nik Lentz
Peso-leve (até 70,8kg): Edson Barboza (69,8kg) x (69,8kg) Lucas “Mineiro” Martins
Peso-galo (até 61,7kg): Iuri Marajó (61,2kg) x (61,7kg) Pedro Nobre
Peso-meio-pesado (até 93,4kg): Ildemar Marajó (91,2kg) x (93,4kg)Wagner Caldeirão
Peso-leve (até 70,8kg): C.J. Keith (71,2kg) x (70,1kg) Francisco Massaranduba

Ronda vale mais que Dan Henderson e Lyoto Machida?

A admiração do chefão do UFC, Dana White, pela primeira e única campeã do torneio sem jamais colocar o pé no octógono, Ronda Rousey, perdeu as estribeiras. Ou melhor: fez o dirigente subestimar o cacife de dois dos principais atletas do MMA da atualidade. A luta da atleta contra Liz Carmouche, estreia das artes marciais mistas femininas no Ultimate, sobrepujou o peso do confronto entre os dois lutadores, ex-campeões cujos combates são sempre dignos da elite do esporte.

A predileção por Ronda é mais um agrado concedido por Dana à atleta. Ele já contratou a lutadora contra prognósticos próprios de nunca abrir as portas do torneio para o MMA delas. Depois, concedeu-lhe o título de campeã sem colocá-la para lutar. Ronda desfrutava do status no Strikeforce, franquia administrada pelos donos do Ultimate, onde mereceu o cinturão do peso-galo.

A mulher que virou a cabeça do chefão do UFC

A manobra de complacência da vez é situá-la no combate principal da edição 157, em 23 de fevereiro de 2013. Pode parecer simples. Não é. A luta mais importante da noite dá nome ao evento e serve de referência histórica. Concentra as apostas e é o objeto de barganha do UFC para barganhar cotas de televisão e anunciantes – e vendê-las, claro. A escolha por Ronda é um recado da disposição de investir nela. Sem, necessariamente, apostar na categoria: o Ultimate sequer possui de quantidade suficiente de lutadora para dar conta da manutenção de um torneio feminino.

É válido frisar: Dan Henderson e Lyoto possuem histórico suficiente para credenciá-los ao combate da noite. Hendo brilhou no Pride, no Strikeforce e chegou a vencer a lenda Fedor Emelianenko. O carateca brasileiro já ergueu o cinturão dos meio-pesados do UFC, derrotou Randy Couture e foi o homem mais agressivo contra Jon Jones, atual campeão, em pé. A luta deles só fica aquém da disputa do cinturão porque Dana White derrapou na inteligência e escalou o vencedor de Shogun x Gustafsson para o desafio.

A história das mulheres deve e merece ser construída com prestígio. Mas nunca à custa da escuridão na qual são atirados os atletas com os quais o UFC edificou a própria trajetória. É questão de coerência com o passado. De nada vale apagá-lo.

Card do UFC 157 (até o momento)
23 de fevereiro de 2013, em Anaheim (EUA)
Ronda Rousey x Liz Carmouche
Dan Henderson x Lyoto Machida
Urijah Faber x Ivan Menjivar
Brendan Shaub x Lavar Johnson
Neil Magny x Jon Manley*
Court McGee x Josh Neer

O nocaute que ensinou ao boxe e ao MMA: a vida não para

O tombo do boxeador Manny Pacquiao depois de ser golpeado a um segundo do fim do sexto round de um eletrizante duelo contra Juan Manuel Marquéz, no sábado, jogou na lona a alma de quem nutre paixão por esportes. Deu um baque na expectativa de vê-lo em ação contra a outra lenda viva do boxe Floyd Mayweather, duelo entravado por anos pela burocracia fora do ringue. A superluta ansiada pelos fãs soava como redenção da nobre arte na era da explosão de popularidade do MMA. Mas a queda do filipino em Las Vegas desmoronou a esperança: aos 33 anos, açoitado por duas derrotas após se manter invicto por sete anos e quinze duelos, o pugilista deve optar pelo resguardo. O corpo e a técnica definham. O ocaso de Pacquiao é a rasteira do tempo na incompetência dos dirigentes e a aula do destino para o boxe e o co-irmão MMA: a vida não espera as artimanhas para colocar os melhores frente a frente.

O encontro entre Pacquiao e Floyd se impunha como tira-teima pelo título de melhor da atualidade. Eleito o lutador da década, escolhido três vezes como boxeador do ano, e com apenas três derrotas até então no currículo, o filipino gozava de prestígio absoluto aos trinta e poucos anos de vida. O oponente, nunca derrotado como profissional, colecionava cinco títulos em categorias distintas. O mundo pedia o encontro. Mas divergências no valor de pagamento das bolsas atrasaram e, agora, praticamente impediram o combate. Pacquiao deve se entregar à carreira política nas Filipinas. E o boxe vai lamentar sempre a luta nunca vista.

O desencontro soa como alerta ao quiprocó do UFC para agendar lutas de Anderson Silva com Jon Jones e George St-Pierre. O brasileiro, melhor do MMA hoje, tem 37 anos e, apesar da tentativa de se manter ativo por mais dez combates, se aproxima do fim da carreira e da forma física excepcional. Vive o ápice da trajetória de sucesso. O confronto com as outras duas estrelas da franquia exige pressa sob o risco de entrar para o arquivo das frustrações esportivas. O tempo é inimigo mordaz do Ultimate a exemplo do desgaste provocado sobre outras modalidades, como futebol, vôlei, basquete. O atleta tem prazo de validade. Paciência também.

A inércia de agendar os combates – sempre adiados por empresários e os próprios lutadores – retarda a possibilidade de torná-los factíveis. A marcha da lentidão é carregada de obstáculos. O canadense St-Pierre pede valores astronômicos para encarar Silva. O Aranha se mostrou favorável, mas quer receber alto também. Jon Jones refuga o brasileiro e corre para o peso-pesado. Na dispersão diária das declarações, o esporte padece.

O presidente da franquia, Dana White, tem a missão de fazer os duelos acontecerem. Deve mirar o exemplo negativo do boxe para quem o confronto Floyd e Pacquiao será uma recordação natimorta. Os mais críticos podem até apedrejá-lo por querer deslocar Anderson de categoria e dar vazão ao showbusiness. Mas o momento é outro. O Aranha superou toda sorte de adversários. Chegou ao esplendor da carreira e nada mais precisa provar. Defendeu o cinturão com propriedade. Agora, é preciso vôo mais ousado. Dentro da regra do esporte, com peso combinado.

Se demorar para agir, Dana vai acumular o segundo revés de leniência diante dos fãs. O primeiro atende pelo nome de Fedor Emelianenko, um dos maiores de todos os tempos, esquecido pelo UFC por divergências empresariais. Até hoje ele é lembrado por quem aprecia as artes marciais mistas e queria tê-lo visto no Ultimate. A vida é insensível aos caprichos da burocracia. Ela não para. Foram-se Pacquiao e Floyd. Vão-se Anderson Silva, St-Pierre e Jon Jones?

E agora, Shogun, o sonho acabou?

Derrota diante de Gustafsson afasta o lutador do cinturão da categoria

A mão perdeu a força de outrora. Fere sem tanta gravidade, machuca menos, leva com mais dificuldade ao chão. A mobilidade minguou. O corpo arfa, as pernas demoram, o organismo cambaleia. Só a resistência dá provas de vida. Mas falta fôlego ao desempenho de dias gloriosos dentro do ringue. Aos 31 anos, o curitibano e ex-campeão do UFC e do Pride (extinto torneio de MMA do Japão) Maurício Shogun Rua sofre com o peso do tempo. A performance arrebatadora de anos atrás, quando desfigurava os adversários com golpes infalíveis, parece ter ruído. E o atleta virou uma sombra do lutador temido do passado.

O fracasso mais recente se deu na luta contra Alexander Gustafsson, revelação sueca do MMA, no UFC On Fox 5. O confronto decidiria o próximo adversário de Jon Jones, detentor do cinturão. Era uma aposta velada de Dana White, presidente da franquia, para dar a Shogun a chance de revanche contra quem lhe tirou o título dos meio-pesados. Mas o tropeço do brasileiro, com uma atuação sofrível e indigna dos melhores dias dele nas artes marciais mistas, deu a vitória ao oponente e obrigou o chefe do UFC a rebolar para inventar nova luta ao sueco antes de importunar o atual campeão.

Dana dizimou a expectativa de Gustafsson e convocou o nome de Lyoto Machida para definir o desafiante à hegemonia da categoria – mesmo a contragosto de Dan Henderson, contra quem o carateca está escalado para lutar. É o imbróglio fabricado na esteira da decisão precipitada do dirigente de colocar o duelo Shogun x Gustafsson como ponte para o combate e, sobretudo, da queda inesperada do brasileiro diante do sueco.

A derrota do sábado é a terceira de Maurício nas últimas cinco lutas. Perdeu para Jon Jones por nocaute, Dan Henderson em uma luta épica e Gustafsson. E venceu Brandon Vera e Forrest Griffin. Mas nem as melhores performances têm sido convincentes. Shogun evidenciou cansaço incômodo na luta contra Vera e poderia ter perdido. Diante de Griffin, conseguiu vitória mais expressiva, com nocaute no primeiro round.

Dentro do octógono, no entanto, ele apresenta lentidão, cambaleia, hesita em momentos cruciais. Exibição distinta da observada na trajetória do atleta. Shogun se notabilizou pelo apuro atlético no Pride – quando perdeu apenas uma vez – e até aparentou engrenar no UFC quando venceu Mark Coleman, Chuck Lidell e Machida, na disputa pelo cinturão. Desde então, oscila entre maus e bons momentos, sem conseguir vencer duas vezes consecutivas.

A gangorra no UFC o afasta do retorno ao posto de melhor lutador do mundo na categoria. A derrota para Gustafsson praticamente o elimina da chance de enfrentar Jon Jones, já um adversário difícil de ser batido por lutadores de expressão. A lista de desafiantes é extensa com Chael Sonnen (injustamente escalado), Lyoto Machida, Dan Henderson e o próprio sueco. Some-se à dificuldade a possibilidade de o jovem campeão subir de categoria, ao fim de 2013, como anunciou, ou fazer uma superluta contra Anderson Silva em peso combinado – todas as hipóteses adiam infinitamente o sonho de Shogun reaver o título e o prestígio agora combalido no Ultimate.

O lutador precisa recuperar a forma física para reencontrar o caminho das vitórias. Mas o maior adversário está além do ringue e tem uma força constante: é o tempo, impiedoso com atletas de qualquer modalidade esportiva. Quanto mais o brasileiro naufraga nas tentativas de voltar ao topo, mais pena com o avanço da idade e o conseqüente desgaste da forma física. E os fracassos lhe empurram para o fim de uma relação cada vez mais maior pelo surgimento de novos lutadores na escalada rumo ao cinturão. A única saída para o brasileiro é a sina perseguida por todos os lutadores: vencer. E logo. Qualidade, ele tem. A história registra. Mas o passado de glórias precisa encontrar o presente tortuoso. O tempo urge.

Dana White: Jon Jones lutará contra vencedor de Shogun x Gustaffson

UFC adota critério duvidoso para escalar desafiante ao cinturão

No Twitter: @tiagobarbosa_

A definição dos combates pelo título do meio-pesado do UFC se tornou motivo de chacota. Uma piada alimentada pela falta de critério do torneio em priorizar os atletas mais técnicos. O primeiro tropeço veio com a escalação de Chael Sonnen como técnico rival do campeão Jon Jones na edição de número 17 do The Ultimate Fighter dos EUA. O lucro guiou a escolha: o falastrão norte-americano nem de longe merecia o posto depois de ter sido surrado na categoria de baixo por Anderson Silva. Deveria entrar na fila, fazer várias lutas antes de pleitear o título. Mas a chance de catapultar a audiência com as peripécias de Sonnen na TV impôs o lutador.

Após a predileção pelo showbiz, o presidente da franquia, Dana White, se equivoca na avaliação técnica ao garantir o vencedor de Shogun x Gustafsson (ver card abaixo) como próximo adversário de Jones. Lyoto Machida e Dan Henderson mereciam a oportunidade antes. Mauricio Shogun Rua é, históricamente, nome notável no universo de atletas de MMA brasileiros. Chegou ao cinturão dos meio-pesado do UFC com méritos – ao bater Machida -, mas perdeu a qualidade no desempenho nas lutas seguintes e afastou-se da forma com a qual se consagrou. A performance apresentada contra Brandon Vera, último duelo, recebeu críticas porque o brasileiro caminhou com sofreguidão no octógono. Ficou notória a falta de ar e de preparo físico do ex-campeão dentro do ringue. O próprio chefão do UFC lamentou após o combate e decidiu preteri-lo (pelo menos, em tese) das disputas seguintes.

O sueco Alexander Gustafsson possui um cartel impressionante: 14 vitórias e uma derrota. No UFC, são sete sucessos e um tropeço (contra Phill Davis). O retrospecto, no entanto, é insuficiente para credenciá-lo ao cinturão – do ponto de vista técnico, por falta de duelos mais difíceis, e financeiro, pelo fato de o atleta ser um nomem apenas comum dentro da comunidade do MMA.

Lyoto Machida, o único lutador a intimidar Jon Jones em pé, e Dan Henderson, com quem o campeão só não lutou por conta de uma lesão do veterano, foram deixados de lado sem justificativa plausível. O brasileiro deveria ser o primeiro na lista para reaver o cinturão em função do desempenho apresentado no combate contra o jovem talento do UFC. E Dan Henderson, em virtude da idade avançada, 41 anos, e dos serviços prestados com louvor ao MMA, merecia uma chance com certa brevidade. Mas eles terão de se enfrentar para – só depois – disputar o humor instável de Dana White na hora de posicioná-lo na chance pelo título da categoria.

O tempo é impiedoso e pode usurpar do UFC a oportunidade de presenciar confrontos ansiosamente esperados pelo público. Se continuar a definir os embates com base em critérios frágeis, o mandachuva do torneio pode exauri-lo na principal virtude: colocar os mais bem qualificados dentro do octógono para premiar os melhores lutadores da atualidade. Vai sobrar o riso.

UFC: Henderson x Diaz
8 de dezembro de 2012, em Seattle (EUA)
CARD PRINCIPAL
Ben Henderson x Nate Diaz
Maurício Shogun x Alexander Gustafsson
BJ Penn x Rory MacDonald
Mike Swick x Matt Brown
CARD PRELIMINAR
Yves Edwards x Jeremy Stephens
Raphael Assunção x Mike Easton
Ramsey Nijem x Joe Proctor
Daron Cruickshank x Henry Martinez
Tim Means x Abel Trujillo
Dennis Siver x Nam Phan
Scott Jorgensen x John Albert

Anderson Silva x George St-Pierre: a final de copa do mundo do UFC

 Superluta pode ser um marco na história moderna do Ultimate

Quando pôs o pé na estrada dos esportes, o UFC controlado por Dana White e os irmãos Fertita topou com dois desafios: derrubar a imagem negativa de barbárie associada ao MMA e emplacar estratégias de marketing capazes de vender a atividade como uma prática socialmente aceita (e lucrativa). O desafio de suavizar as lutas percorreu a adoção de regras rígidas, preocupação com a saúde dos atletas e categorização por peso dos combates. A popularização ganhou corpo, principalmente, com o reality show The Ultimate Fighter e a conseqüente exibição da vida pessoal dos lutadores na TV. Em uma década, o torneio ganhou o mundo e derrubou recordes de audiência.

Mas o sucesso ainda carece de uma catarse. O momento derradeiro para glorificar o Ultimate através de uma marca inédita aos olhos do planeta. O apogeu comparável a uma final de copa do mundo, a um epílogo de jogos olímpicos. A franquia batalha pelos recordes e nutre iniciativas geradoras de atenção. Dana White farejou em Chael Sonnen, por exemplo, mero falastrão fora do octógono, um convite ao público. E deu-lhe privilégios negados a atletas mais tarimbados. A revanche contra Anderson Silva, no meio de 2012, mirou tão somente o lucro. Rendeu audiência, mas nem chegou perto do sonho de estourar limites – recorde obtido com Brock Lesnar VS. Frank Mir, em 2009, com 1,6 milhões de PPV.

A próxima cartada do UFC para chegar ao topo da lista é dar voz aos fãs e promover um dos confrontos mais esperados do torneio: a luta entre Anderson Silva, campeão do médio, e George St-Pierre (GSP), campeão unificado dos meio-médios, cinturão recuperado no sábado passado. Durante anos, os dirigentes evitaram o duelo. Mas tanto o brasileiro como o canadense venceram todos os adversários possíveis e se tornaram os dois maiores detentores de título da franquia. A superluta, com peso combinado, virou imposição do MMA da atualidade.

A previsão de quebra de recorde financeiro e de público frutifica na retaguarda profissional de cada atleta. Os dois têm o nome na relação dos eventos mais vistos na história do UFC – Silva VS. Sonnen é o oitavo da lista, seguido por St-Pierre VS. BJ Penn – e desfrutam de uma legião de patrocínios de fazer inveja – Anderson é apoiado por Burger King, Nike, Nextel, enquanto GSP tem o suporte do Google, da Coca-Cola, Bacardi, entre outros. A máquina publicitária toma mais fôlego quando se alinha ao desempenho atlético e midiático dos dois, considerados extremamente técnicos dentro do octógono e exemplos de caráter fora dele.

O presidente do UFC, Dana White, compreende o potencial do combate. E, por isso, cogita um evento de proporções épicas, realizado em um estádio de futebol com capacidade para mais de cem mil pessoas no Brasil ou em Dallas, nos EUA, já em maio de 2013. O maior número de espectadores presentes a uma edição do Ultimate, até agora, corresponde à metade da projeção: foi na edição 129, em Toronto no Canadá, em 2011, com 55 mil pagantes – e a luta principal envolvia GSP e Jake Shields. A possibilidade de duplicar o público em um combate com os principais campeões da franquia, em meio à locomotiva de marketing movida a anúncios e interesse dos fãs, tornaria o combate o mais significativo da história do MMA. Antes, no entanto, é preciso convencer os protagonistas. E a tarefa é cumprida com paciência.

Anderson Silva sempre se mostrou contrário à ideia. …Continue lendo…