Estado sofre para se aproximar de um título de expressão nas artes marciais mistas
De todos os atributos pendurados no perfil dos pernambucanos, a megalomania reina absoluta. Apoiado quase sempre em estatísticas duvidosas e crendices risíveis, o estado inflama entre os conterrâneos a busca pelo status de se definir como o maior. Em qualquer área. A avenida mais extensa do país? O shopping com mais área construída? O centro do futebol no Nordeste? O coro é inequívoco: Pernambuco. A sensação de supremacia por aqui, no entanto, perde força no terreno das artes marciais mistas. Na elite dos ringues, o topo parece um desejo intocável: nenhum dos atletas da terra se aproxima hoje da oportunidade de conquistar o cinturão de uma das sete categorias do UFC, maior torneio de MMA do mundo. Entre colegas de região, por exemplo, a situação é outra: Bahia, Rio Grande do Norte e Paraíba experimentam o prazer de ter lutadores entre as maiores estrelas do torneio.
O retorno para casa do campeão interino dos peso-galo, o potiguar Renan Barão, ilustra a relevância do esporte no estado. Depois de bater o queridinho do UFC Urijah Faber na edição de número 153 – com uma luta impecável do ponto de vista técnico, embora monótona – o nordestino se apossou do cinturão e entrou no círculo restrito dos campeões brasileiros do torneio. Marcou espaço ao lado de Anderson Silva (médios), Junior Cigano dos Santos (pesados) e José Aldo (pena). O título coroou a trajetória de 31 vitórias no MMA – seis seguidas no Ultimate. Ao regressar à terra natal, Barão caiu nas graças dos potiguares e desfilou em carro aberto (foto). Do estado, também saiu Gleison Tibau (25 vitórias e 8 derrotas). Experiente, o lutador de 29 anos coleciona 14 combates no UFC (cinco derrotas) – mas nunca venceu quatro vezes seguidas, sequência capaz de habilitá-lo ao cinturão.
Prova de prestígio, o Rio Grande do Norte realizou evento de artes marciais mistas em Mossoró, interior do estado, na semana passada, e contou com a presença de Rogério Minotouro, lenda do esporte, Rony Jason (Ceará), e Gasparzinho (potiguar), ex-integrantes do TUF Brasil.
O campeão dos pesados, Junior Cigano dos Santos, apesar de nascido em Santa Catarina, considera-se baiano de coração e leva o nome da terra de todos os santos para onde vai. É, aliás, da escola de um mito da Bahia, o pugilista Acelino Popó Freitas, tetracampeão mundial de boxe. Cigano detém as qualidades necessárias para se perpetuar como dono do cinturão da categoria mais valorosa do esporte: é ágil, atributo raro em lutadores de peso elevado, e domina com desenvoltura a nobre arte. Quando Lorenzo Fertita, sócio da Zuffa e um dos donos do Ultimate, veio ao Brasil recentemente, fez questão de passar na Bahia e tirar uma foto com o campeão. Relevância baiana no UFC.
A Paraíba – para citar um lutador como exemplo – é terra natal de Antônio Silva, o Pezão. Entre os feitos do atleta, um encerra qualquer discussão sobre qualidade dentro do octógono: a vitória avassaladora no Strikeforce sobre Fedor Emelianenko, uma das maiores lendas das artes marciais mistas da história. Pezão perdeu a luta mais recente para Cain Velasquez, mas é considerado um atleta casca-grossa e, em caso de vitória, volta a brigar pelo cinturão dos pesados do UFC.
O time pernambucano no Ultimate conta com dois lutadores de destaque. Mas, por enquanto, longe de almejar o título nas categorias pelas quais competem. Rapha Assunção, 30 anos, possui três lutas no maior torneio do mundo. Perdeu uma e venceu as mais recentes. Cria do WEC – torneio incorporado pelo Ultimate -, tem 18 vitórias e quatro derrotas no cartel. Mas ainda precisa engatar uma sequência de sucessos para sonhar em chegar ao topo dos galos. O nocaute sobre Issei Tamura no UFC On Fuel, em julho, é um ponto positivo para lhe abrir as portas a desafios mais consistentes. Ele luta, ainda, para evitar desfecho semelhante ao do irmão, Junior Assunção, cortado do Ultimate em condições misteriosas, após passar pelo torneio duas vezes. O outro membro da família, Freddy, luta pelo Titan Fighting Championship (do Texas, nos EUA) e batalha para ser convocado pelo UFC.
Outro pernambucano no quadro da franquia mais famosa do mundo é Rafaello Tractor. Ele contabiliza duas passagens pelo Ultimate. Na primeira vez, lutou três vezes e venceu apenas uma. No regresso – um ano e quatro duelos depois -, perdeu duas e venceu somente a última, em julho passado. A derrota certamente o afastaria do quadro de funcionários do Ultimate – o patrão Dana White é intolerante a fracassos sucessivos de atletas de expressão mediana. Tractor precisa vencer, primeiro, de olho na permanência na franquia. O cinturão é uma ambição bem distante.
Um novo nome surgiu recentemente no rol de pernambucanos lutadores de MMA. Bráulio Estima, consagrado no jiu-jitsu, ensaia os primeiros passos nas artes marciais mistas. Aos 32 anos, o Carcará detém um currículo recheado de sucessos: é pentacampeão panamericano de jiu-jitsu, tricampeão mundial e tricampeão do ADCC. Ele se prepara para estrear em agosto, no Titan 24 (MMA). Mas, por enquanto, engrossa a lista dos conterrâneos longe de um cinturão de peso no esporte em maior crescimento no mundo.
A pequenez de Pernambuco no panorama internacional das artes marciais mistas é reforçada pela ausência de eventos sistemáticos de grande porte. O Recife Fighting Championship, trampolim de Rafaello e Junior Assunção ao UFC, custa para ser realizado. No fim de 2011, o Night of World Championship, promovido no estado pela primeira vez, contou, no card, com lutadores amadores e sofreu com a troca de atletas em cima da hora. A falta de investimentos maciços e de estrutura apropriada para treinamento agrava o quadro.
O cenário tacanho encolhe o nome do estado mundo afora e distancia os atletas locais da nata das artes marciais mistas. A terra orgulhosa de exagerar as próprias proezas – ou de fabricá-las quando convém – amarga o dissabor da quase invisibilidade perante o mundo no MMA – especialmente no UFC. A inexpressividade atual no esporte destrona a megalomania e torna Pernambuco, rei na arte de se vangloriar, plebeu da própria mediocridade.
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