Dezessete pessoas são mortas por dia em Pernambuco desde fevereiro

Dezessete. Esse é o número de pessoas assassinadas por dia, em média, em nosso estado. Um número que assusta e revolta. Nos quatro primeiros meses deste ano, segundo a Secretaria de Defesa Social (SDS), 2.037 pessoas foram mortas em Pernambuco. No mesmo período de 2016, um total de 1.410 crimes foram notificados. Somente em abril deste ano, 514 homicídios aconteceram no estado. Isso indica que, em média, 17 crimes contra a vida são registrados por dia. O mesmo aconteceu nos meses de fevereiro e março, quando 496 e 549 assassinatos, respectivamente, foram computados pela polícia.

Em quatro meses, 2.037 pessoas foram mortas. Foto: Julio Jacobina/DP/Arquivo

Caso a média mensal de mortes não tenha uma redução significativa, o ano de 2017 pode terminar com mais de seis mil assassinatos, número nunca registrado no estado. Apesar disso, o governo do estado diz que houve redução na violência. Isso ocorre somente quando comparados os números de abril com os de março. A SDS também passou a informar as motivações das mortes. Das 514 do mês passado, o governo afirma que 298 estavam ligadas a atividades criminosas, como tráfico de drogas e grupos de extermínio. Mas também cabe à SDS resolver esses problemas, que são feridas antigas na gestão pública. Enquanto isso, esperamos por dias melhores. Dias de paz.

Moradores do bairro da Iputinga estão reféns do medo

Moradores do barro da Iputinga, Zona Oeste do Recife, já não sabem mais a quem pedir ajuda diante dos inúmeros casos de assaltos ocorridos na localidade. As investidas criminosas acontecem a qualquer hora do dia ou da noite. E sem exagero. Os ladrões estão acordando cedo para tomar bolsas e celulares de trabalhadores e estudantes que saem de casa por volta das 6h. “Já ouvi os gritos de uma mulher bem cedinho dizendo que tinha roubado a bolsa dela aqui na rua”, disse uma moradora da Rua Doutor Gastão da Silveira.

Moradores estão assustados em andar nas ruas do bairro. Fotos: Divulgação

Moradores estão assustados em andar nas ruas do bairro. Fotos: Divulgação

Segundo moradores e comerciantes do local, os criminosos costumam agir de bicicletas ou de motocicletas. Viatura da Polícia Militar, dizem os denunciantes, é artigo raro no bairro. Grupos inteiros de estudantes já foram vítimas de assaltos. “Na semana passada dois rapazes em duas bicicletas assaltaram quatro meninas que voltavam da escola. Um deles mostrou um revólver para elas e levou os telefones celular. Isso aconteceu perto das 13h”, detalhou uma comerciante.

Crimes acontecem em várias ruas e a qualquer hora do dia ou da noite

Crimes acontecem em várias ruas e a qualquer hora do dia ou da noite

Diante do medo de sair de casa e de tanta orações que já fizeram pedindo proteção, os moradores da Iputinga pedem que polícia faça agora sua parte providenciando o reforço no policiamento na área. Um dos pontos onde também acontecem muitos assaltos é a Rua São Mateus, onde estão diversos estabelecimentos comerciais. A denúncia está feita, falta agora a ação da Polícia Militar de Pernambuco.

Crimes praticados por armas brancas geram alerta no estado

Das 1.033 pessoas assassinadas em Pernambuco do início deste ano até o dia 29 de março, 153 foram mortas por arma branca. Isso representa cerca de 15% dos Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) registrados pela Secretaria de Defesa Social (SDS) no período. O uso de facas e facões em ações criminosas têm deixado a população assustada e a polícia surpresa. E esse tipo de instrumento não tem sido utilizado apenas para o cometimento de crimes nas ruas.

Um total de 4.198 armas brancas foram apreendidas durante o ano de 2015 nas unidades prisionais do estado. O arsenal foi destruído em janeiro passado, no Quartel da Polícia Militar, no Derby. Especialistas acreditam que a fiscalização e as apreensões de armas de fogo podem estar impulsionando o uso das armas brancas.

Foto: Joao Velozo/ Esp. DP

Um total de 4.198 armas brancas foram apreendidas somente nos presídios do estado no ano passado. Foto: Joao Velozo/ Esp. DP

No último domingo, o cabeleireiro Severino Bezerra de Santana, 58 anos, foi assassinado dentro de casa com oito facadas. Segundo a polícia, o autor do crime foi um homem de 24 anos com o qual a vítima mantinha um relacionamento amoroso há cerca de quatro meses. “O suspeito foi trazido à delegacia depois que vizinhos da vítima indicaram o local onde ele estava escondido. Aqui ele confessou o crime, contou que usou uma faca para matar a vítima e disse que depois que saísse da delegacia iria fugir. Como já havia passado o período do flagrante, pedimos a prisão preventiva dele e o encaminhamos para o Cotel”, afirmou a delegada Beatriz Leite, da 13ª Delegacia de Homicídios de Prazeres, acrescentando que tem registrado muitos de crimes cometidos com armas brancas em sua delegacia.

O desempregado Natanael Francisco dos Santos Filho, 24, disse à polícia que matou Severino após uma discussão iniciada depois dele voltar de festa. “Ele conta que a vítima também estava com uma faca e que houve agressão mútua, mas o autuado não tinha ferimentos aparentes”, completou a delegada.

Na opinião do professor adjunto de sociologia da Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Violência, Criminalidade e Políticas Públicas de Segurança (PPGS/UFPE), Gilson Antunes, a redução da quantidade de armas de fogo em circulação pode justificar o aumento das ocorrências criminosas com as armas brancas. “Pernambuco é um dos estados que mais está recolhendo armas de fogo, além disso são feitas apreensões. Talvez  isso esteja fazendo as pessoas recorrerem às armas brancas”, opinou Antunes. Segundo a SDS, 5.917 armas de fogo ilegais foram retiradas das ruas em todo o estado.

Os números da SDS mostram que no mês de janeiro deste ano, das 356 pessoas assassinadas em Pernambuco 52 foram vítimas de arma branca. Em fevereiro, 48 mortes por faca foram registradas de um total de 307 homicídios. Já no mês de março, até o dia 29, dos 370 assassinatos, 53 morreram vítimas de facadas. Crimes de latrocínio e assaltos têm sido praticados com facas a qualquer hora do dia. No sábado passado, a violonista servo-americana Vera Stefanovic, 31, que integra a equipe de músicos do cruzeiro MSC Poesia, assaltada por dois homens depois de sair do Porto do Recife. Ela reagiu ao ataque e levou algumas facadas na cabeça. A turista levou 12 pontos na cabeça.

No final do mês de fevereiro, o músico e técnico de som Jéfferson Borges Martins, 51, mais conhecido como Nego Bando, foi morto a facadas durante um assalto no Bairro Novo, em Olinda. Eles foi abordados por dois suspeitos, um deles aparentando ser adolescente. Em dezembro do ano passado, a estudante Beatriz Angélica Mota, 7, foi assassinada a facadas dentro do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, no Centro da cidade. Até o momento, ninguém foi preso pelo crime que teve grande repercussão no estado. O retrato falado de um homem suspeito do crime foi confecionado pela Polícia Civil e está espalhado em vários pontos de Pernambuco e até mesmo na Bahia.

“Sexo frágil” com força total na criminalidade

 

Do Diario de Pernambuco

Por Anamaria Nascimento com fotos de Annaclarice Almeida

 (ANNACLARICE ALMEIDA/DP/D.A PRESS)

Rosimere (*), 37 anos, é alta e está sempre bem vestida. Gosta de usar joia de ouro e manter o cabelo arrumado. Está presa há dois anos e oito meses na Colônia Penal Feminina do Recife, mas não perde a feminilidade. Já matou sete pessoas, comandava o tráfico de uma comunidade carente do Recife e foi detida por chefiar um grupo de extermínio. “Só ando armada e no salto. Nenhum homem mexe comigo. Nós, mulheres, temos muito mais disposição e atitude para o crime”, revela. A frieza de Rosimere se assemelha aos detalhes confessados por Elize Matsunaga, 30 anos, que matou e esquartejou o marido, o empresário Marcos Kitano Matsunaga, 42, herdeiro da Yoki Alimentos, em São Paulo, em um crime que chocou o país.

Ao lado de Rosimere, durante entrevista para o Diario, estava Raika (*), 38 anos, também na antiga Bom Pastor. Filha de portugueses e de classe média alta, liderava uma quadrilha de assalto a bancos e arrombamento de cofres. Tem orgulho da posição que passou a ocupar após 20 anos de “trabalho” no grupo. “Consegui chegar onde estou porque é característica da mulher saber articular, planejar”, enfatiza.

Raika e Rosimere não estão sozinhas. De acordo com tese defendida na UFPE, a presença de mulheres em posição de liderança no mundo do crime é crescente. Na pesquisa, a psicóloga e professora da instituição Luciana Ribeiro descreve o perfil das criminosas, apontando que as conquistas femininas também podem ser percebidas em grupos de extermínio, nas bocas e fumo e nas quadrilhas de assalto a banco. Segundo a pesquisadora, elas querem mostrar que podem tanto quanto o homem. “A grande mudança é que, antes, elas ingressavam no crime por causa dos namorados ou maridos bandidos. A configuração atual é outra. Elas são chefes de quadrilha e agem por conta própria”.

 (ANNACLARICE ALMEIDA/DP/D.A PRESS)

O estudo aponta que as mulheres criminosas planejam mais os atos ilícitos e avaliam os ganhos e dificuldades da investida. “Foi possível perceber que, entre as mulheres mais velhas, havia uma grande habilidade e experiência nas práticas. Por outro lado, há uma baixa aceitação desse tipo de conduta nos espaços sociais onde elas convivem, por isso, muitas mantêm segredos”, pontua Luciana Ribeiro. Ainda de acordo com a pesquisadora, outra característica marcante entre as encarceradas é usar a fragilidade como forma de manipulação. “Nunca confessei um crime. Tento seduzir dizendo que não sei de nada”, diz Rosimere. “Mandamos. Mas na hora do interrogatório, negamos tudo”, completa Raika. Dados do Ministério da Justiça mostram que histórias como as de Rosimere e Raika não são pontuais e nem estão restritas ao estado. Entre 2005 e 2011, o número de mulheres encarceradas no país – por infrações que vão de furto e roubo simples a extorsão mediante sequestro – saltou de 2.006 para 6.072, um crescimento de mais de 200%. No estado, há  1.750 mulheres presas. (*) nomes fictícios

OBS: Veja matéria completa na edição do Diario de Pernambuco desta terça-feira.