Aproveitando o tema do último post, trago para vocês um texto nosso, publicado na revista “A Semana”, sobre decisão de compra de um carro. O texto foi motivado pelo seguinte questionamento.
“Caro Rodrigo, preciso da sua ajuda para tomar uma decisão sobre a compra de um carro. Acabo de receber uma “grana” extra que pode ser usada como a entrada do financiamento de um carro, mas tenho dúvida se é melhor comprar financiado agora, ou esperar mais alguns meses e tentar comprar à vista.” Rafael (Recife-PE)
Caro Rafael, a decisão de compra de um carro é uma decisão como qualquer outra: além dos fatores objetivos que a cercam, existem fatores subjetivos – difíceis de mensurar – que atrapalham a tomada de decisão. Por isso, vale a pena aprender a sistematizá-la.
Primeiramente, defina seu problema: qual o objetivo da sua decisão? Pelo que percebi, você não tem dúvidas quanto ao modelo e ao ano do carro. Suas dúvidas recaem sobre quando comprar – que está diretamente ligada a quando poder usufruir do carro – e sobre como pagar.
Em seguida, relacione as alternativas: a princípio, suas opções são (1) dar uma entrada e financiar e (2) poupar para pagar à vista mais a frente. Fiz questão de sublinhar a expressão “a princípio”, por dois motivos. Primeiro porque identificar as alternativas significa identificar TODAS as alternativas, inclusive nem comprar o carro. Por exemplo, verifique se é possível poupar para apenas dar uma entrada maior, ao invés de poupar para comprar à vista. Segundo porque identificar as alternativas exige mais precisão. É preciso ter com exatidão (ou com o mínimo de incerteza) as seguintes informações: quanto exatamente você tem para dar de entrada? Quanto ficará faltando? Qual o custo efetivo do financiamento? Quantas prestações? Pré-fixadas ou pós-fixadas? Se pré-fixadas, de que valor? Se pós-fixadas, como será calculada correção? E ainda: quanto é “esperar mais alguns meses”? Quando é “esperar mais alguns meses e comprar à vista”? 10 meses? 12 meses? Quanto você consegue poupar mensalmente até lá? Em que tipo de aplicação? Observe que o tempo de espera depende de quanto você consegue poupar e a que rentabilidade.
O passo seguinte é entender sua realidade atual e compará-la com a realidade com um carro na garagem: quanto custa mensalmente andar de ônibus? Quanto custará mensalmente ter um carro? Quanto gastarei de combustível? Quanto gastarei de manutenção? Quanto gastarei com seguro? Quanto custarão todas as taxas? Quanto de depreciação? Quanto gastarei com as prestações do financiamento? Quanto precisarei poupar mensalmente para acumular uma entrada maior ou o valor total do carro? Essa etapa é essencial como planejamento dos gastos (na verdade serão saídas de caixa) adicionais.
O último passo antes da tomada de decisão propriamente dita é definir os critérios de decisão: pergunte-se se ter o carro é essencial. Em caso positivo, pergunte-se se ter o carro agora é essencial. Avalie se é possível esperar aqueles 10 ou 12 meses. Avalie se é possível esperar um pouco menos – digamos 6 meses – para dar uma entrada maior, sem, contudo, quitar o carro à vista. Essas avaliações são os fatores subjetivos da decisão. Aqui, o problema realmente se torna problemático. Rs.
Taí! Você tem todos os ingredientes para tomar a decisão. Decida.
(1) O carro não é essencial à não compre. Guarde sua “grana” extra para outros fins.
(2) O carro é essencial, mas eu não conseguirei arcar com os gastos adicionais (seguros, taxas, manutenção, gasolina, financiamento/poupança) à não compre. Guarde sua “grana” extra para outros fins. Comece a priorizar seus gastos. Corte aos poucos aqueles gastos prescindíveis. Quem sabe, mais adiante, os gastos adicionais caibam no seu orçamento.
(3) O carro é essencial, os gastos adicionais cabem no meu orçamento, mas eu preciso do carro agora à use a “grana” extra como entrada e financie o restante. Obviamente, busque as menores taxas e avalie a possibilidade orçamentária de parcelar no menor número de prestações.
(4) O carro é essencial, os gastos adicionais cabem no meu orçamento, e eu não preciso do carro agora. Posso esperar um pouco à invista sua “grana” extra. Como ela já tem uma finalidade, não arrisque. Procure aplicações que mantenham o poder de compra (caderneta de poupança, CDB, renda fixa). Poupe mensalmente no mesmo tipo de aplicação. Quando chegar o momento da compra, siga as instruções do item (3). Tenho certeza que você conseguirá quitar o financiamento em um prazo menor que o daquele item, mesmo tendo começado depois.
(5) O carro é essencial, os gastos adicionais cabem no meu orçamento, e eu não preciso do carro agora. Posso esperar até acumular o valor para quitação à vista à siga as instruções do item (4) em relação à aplicação de seu dinheiro. Aposto que você acumulará o valor do carro antes do prazo final do financiamento daquele item.