Pais que entregam filhos criminosos à polícia fazem a coisa certa. O ato evita novos crimes e permite que o criminoso pague
pelo que fez. Mas…
Vandeck Santiago (texto)
Teresa Maia (foto)
No Rio o coronel da reserva da PM Edivaldo Camelo da Costa denunciou o próprio irmão como ladrão que havia morto homem no metrô. “Alguns parentes me criticaram, questionaram como posso ter entregado meu próprio irmão”, disse Edvaldo. “Tento explicar que o cara não roubou uma galinha. Matou um homem. Ele mostrou que não tem como conviver em sociedade”. No Recife a mãe de um rapaz de 18 anos procurou a polícia para denunciar o próprio filho, que estava com drogas e peças de moto em casa – estas, supostamente roubadas. O rapaz, que tem 18 anos, foi preso. São fatos desses dias, mas que se repetem Brasil afora o ano inteiro: familiares entregando filhos e irmãos à polícia. À frente desses gestos costumam estar as mães; foram elas, por exemplo, que começaram o movimento de devolver produtos saqueados de lojas em Abreu e Lima durante a greve da polícia de Pernambuco em maio passado, lembram? Uma dessas mães disse uma frase que não esqueci: “Filho meu não bota a mão no alheio” – se você entender “mão no alheio” como sinônimo de “crime” verá que a frase é um resumo de todos estes gestos. Um traço comum ao ato de entregar familiares (filhos, principalmente) à polícia é que quem o faz são pessoas pobres. Faça-se uma pesquisa com os últimos casos desse tipo noticiados pela imprensa e você verá que todos envolvem famílias pobres.
Até chegar aí cumpriu-se um ciclo de fracassos – nenhuma instituição conseguiu fazer com que o autor do delito seguisse outro caminho. Na trajetória desses jovens que cometem crimes e são levados pela mãe (ou outros familiares) à polícia há um caminho que passou antes pela escola, conselhos tutelares, psicólogos e até promotores e juízes. Há casos de pais que procuram juiz da Vara da Infância e da Juventude na esperança (a última) de que eles possam “consertar” seus “filhos problemáticos”, antes que eles cometam crimes graves.
Na quase totalidade dos casos, a explicação mais comum para o gesto de entregar o filho ou um parente à polícia é que se agiu por amor. “Antes preso do que morto”, é frase que se repete nos relatos de pais. Mas há também a característica revelada na frase da mãe de Abreu e Lima, que não queria ver o filho “pegando no alheio”: o sentimento de vergonha, a postura de intolerância com a prática de ilegalidade, um código de conduta preestabelecido que não pode ser quebrado e que o “errado” deve ser “punido”.
Independentemente da motivação do gesto, não há dúvidas que os pais ou familiares que agem assim fazem a coisa certa. De um lado conseguem cessar a possibilidade de novos crimes, evitando o sofrimento de outras famílias; e de outro, fazem com que o autor do crime pague pelo que fez. Mas quando para muitos pais a única alternativa que resta para ajudar os filhos é encaminhá-los à cadeia, isso é indicativo de que nesta sociedade há muitas coisas fora do lugar.