Os sete erros da Via Mangue

 

Via Mangue - foto Cristiane Silva DP/D.A.Press

Via Mangue – foto Cristiane Silva DP/D.A.Press

Faltando sete meses para a obra da Via Mangue ser finalmente entregue surgem incertezas quanto a sua eficácia na melhoria do sistema viário ligando o Centro do Recife à Zona Sul. Especialistas apontam pelo menos sete erros na concepção do projeto orçado em quase R$ 400 milhões. O maior pecado da via, segundo eles, foi ter se afastado da concepção original do projeto desenhado, inicialmente, na década de 1970 pela Fidem e redesenhado nas décadas de 1980, 1990 e 2000.

O traçado já recebeu o nome de Via Costeira, Linha Verde, Via Metropolitana Sul e por último Via Mangue. Nas três versões anteriores, simuladas no Plano Diretor de Transporte Urbano (PDTU), havia um elemento que foi dispensado no projeto atual: a terceira ponte. Sem ela, o desenho da Via Mangue optou pela meia ponte, que se encontra com a Ponte Paulo Guerra, no Pina, (já saturada).

Ponte Agamenon Magalhães - Foto Nando Chiappetta DP/D.A.Press

Ponte Agamenon Magalhães – Foto Nando Chiappetta DP/D.A.Press

Outro equívoco foi projetar um sistema viário de retorno tendo como base um túnel que só atende em parte o fluxo que vai da Zona Sul para o Centro. Os nós da Via Mangue estão ainda nas suas duas extremidades – chegada e saída – e no trecho lindeiro à costa, que não tem opção da pista local e deve se transformar em mais problema com a mudança da ocupação dos espaços que a própria via deverá proporcionar. O assunto é tão polêmico, que os técnicos ouvidos preferiram não serem identificados.

Com 4,5 quilômetros de extensão, a via expressa compreende o trecho entre a Ponte Paulo Guerra, no Pina, e a Rua Antônio Falcão, em Boa Viagem, margeando a área de mangue. Os problemas no projeto já podem ser vistos nos viadutos construídos sobre a Antônio Falcão. Segundo um técnico do setor, que prefere não ser identificado, a Antônio Falcão funciona como um binário com a Félix de Brito, mas o viaduto construído passa por cima apenas da Antônio Falcão.

Via Mangue - nas imediações da Antônio Falcão - Arthur de Souza/Esp.DP/D.A Press.

Via Mangue – nas imediações da Antônio Falcão – Arthur de Souza/Esp.DP/D.A Press.

“É um descalabro de engenharia a chegada da Via Mangue na Antônio Falcão, e, quando chega na Félix de Brito, o elevado que faz o sentido inverso é curto e não permite uma continuação. Isso vai exigir um semáforo, e quem vier da Imbiribeira vai ficar parado debaixo do viaduto”, alertou o técnico. O erro foi também visto por um especialista que fez parte da gestão passada. “Foi observado que o viaduto estava mais curto, mas foram feitos alguns estudos e a decisão foi de manter o desenho”, revelou a fonte que também prefere não ser revelado.

Tem mais no desenho da Via Mangue, segundo os especialistas deveria haver uma pista local no trecho lindeiro à costa. “Ela é uma via que não deve permitir parada de carga e descarga. Mas como impedir a ocupação do trecho lindeiro? Será o mesmo problema que acontece hoje com a Conde da Vista e a Presidente Kennedy”, apontou o especialista, que também preferiu o anonimato. A via também só possibilita que o ciclista trafegue por ela tendo acesso pelo início ou fim da via.

Túnel da Herculano Bandeira e Avenida Antônio de Goes - Foto Nando Chiappetta DP/D.A.Press

Túnel da Herculano Bandeira e Avenida Antônio de Goes – Foto Nando Chiappetta DP/D.A.Press

A ponte

A Secretaria Municipal de Infraestrutura já admite que alguns erros precisam ser corrigidos. Um dos entraves já identificados foi no ponto de retorno do túnel, construído sob a Avenida Herculano Bandeira, porta de entrada do Pina. O túnel permite mais fluidez na via. Já a Avenida Antônio de Góes, via de saída do Pina, recebe o trânsito da própria Antônio de Góes e do túnel, que já está congestionando antes  de a via expressa ficar pronta.

“Acredito que uma alternativa é fazer o prolongamento do túnel. Não sou a favor do elevado, que será muito desconfortável para quem sai do túnel”, observou o engenheiro César Cavalcanti, coordenador regional da Associação Nacional de Transporte Público (ANTP). O elevado é apontado como alternativa pelo técnico que participou da antiga gestão. “O prolongamento do túnel não era viável na época e não é agora. Tanto pelo custo como pelos transtornos no trânsito. A solução é um elevado longitudinal na Antônio de Góes”.

“Se tivessem feito a terceira ponte não haveria necessidade do túnel e nem mesmo do prolongamento do túnel ou da construção de um elevado. Isso não irá resolver por uma razão muito simples: as duas pontes já estão bastante saturadas”, apontou outro técnico do setor que também não quis ser identificado. Pelo projeto que foi simulado no PDTU de 2008 havia uma terceira ponte nas imediações da Compesa e antes do terreno da antiga Bacardi, onde hoje funciona o shopping RioMar.

No lugar dela foi construída a meia ponte estaiada, que se une à Ponte Paulo Guerra. ‘É uma ponte também pela metade que se liga a outra já saturada e ainda não é estaiada. É apenas uma ponte com os fios de aço suspensos. Para ser estaiada, o vão precisaria ser maior”, criticou um engenheiro em reserva.

A Secretaria de Infraestrutura prefere não adiantar que tipo de solução será dada. “Está sendo feito um estudo, que deve ficar pronto em 60 dias. Mas garanto que não ficará do jeito que está”, revelou o secretário Nilton Mota. Ainda segundo o secretário serão adotadas medidas emergenciais de engenharia de tráfego e algumas obras físicas antes de uma solução definitiva.
Conheça os sete erros da Via Mangue

1- Ausência de uma terceira ponte (prevista no PDTU de 2009)
2- Ponte estaiada (que não é estaiada)
3- Túnel da Herculano Bandeira (pela metade)
4- Viaduto do binário da Antônio Falcão (incompleto)
5- Ausência de uma pista local no trecho lindeiro à costa
6- Acesso para ciclistas apenas no início e no fim da via
7- Não serve como via metropolitana

Saiba Mais

Cronograma das obras
Abril de 2011 – início das obras
Setembro de 2013 era a previsão de conclusão
Abril de 2014 – novo prazo contratual para término das obras
Dezembro de 2013 – foi prazo solicitado pelo prefeito Geraldo Julio já descartado

Os números da Via Mangue
992 famílias que moravam em palafitas foram removidas
3 conjuntos habitacionais foram entregues em novembro de 2011
4,75 km é a extensão da via
60 km/h é a velocidade média prevista para a via
R$ 383 milhões é o custo da obra

Equipamentos
4 elevados vão compor o sistema viário
8 pontes estão incluídas no traçado
2 alças farão a ligação com a Ponte Paulo Guerra e o Temudo
1 túnel na Herculano Bandeira

Fonte: Prefeitura do Recife

13 thoughts on “Os sete erros da Via Mangue

  1. Os sete erros da Via Mangue
    Postado em: outubro 6, 2013 por: Tania —

  2. Adiantaria uma terceira ponte se o entroncamento na área da Compesa também é movimentado e assim implicaria em intervenções criticadas na matéria como implantar sinais para conversões?
    Essa da ponte não ser estaiada já sabia faz tempo visto que ela é curta com uma estrutura alta e desnecessária para fazer de conta que é, mas engraçado é que pessoas da área de engenharia criticaram os viadutos estaiados sugeridos na Agamenon argumentando serem caros e com vão não tão grande. O vão é muito maior na Agamenon que na Paulo Guerra, digo que nem isso tem devido a estrutura inferior de sustentação ser grande deixando espaço menor, mas muito menor que viadutos simples.
    Ainda que o túnel fosse alongado continuaria com problemas se mantida a mão dupla. Embora a retenção atual seja pontual contribuída pelo sinal que dá acesso a Antônio de Góes, há de se observar os veículos que fossem para a pista esquerda da avenida teriam que fazer o contorno de quadra criado com a inversão de sentido de uma rua e implantação de cruzamento que hoje atende aqueles que estão na pista direita e querem ir para a esquerda afim de chegar ao túnel sentido RioMar. Se o túnel por outro lado alongado ou não se torne mão única para a Antônio, quem estiver na pista esquerda da avenida terá problema em ir a Via Mangue, pois após a ponte fecharam com a terceira faixa do Capitão Temudo o acesso ao Cabanga que seria ponto de retorno, então este retorno só na Joana Bezerra perto do Fórum, o que demonstra a ausência de um viaduto ou outro túnel na área do Pina. A impressão é que a Via Mangue não teve um estudo mais apurado da circulação no seu entorno buscando evitar pontos de conflito.
    Essa do viaduto da Félix de Brito não entendi o questionamento, pois antes já havia e há alguns em funcionamento para quem está no canal e quer entrar ou cruzar tal via no sentido Pina. Recordo que o segundo elevado que faz ligação com a Av. Dom João VI antes se limitava a continuação da Antônio Falcão, então ao meu ver se a Via Mangue tem como um dos fundamentos transferir para ela os veículos que vão ou vem de Jaboatão, a Dom João VI é a via indicada. Os viadutos que se comunicam com a Félix de Brito são para aquele entorno mesmo, então de alguma forma teria que ter sinais para os veículos ir sentido Pina ou vir deste para o meio de Boa Viagem.
    Se os viadutos deveriam passar também sobre a Félix de Brito, não iria anular os sinais hoje existentes para quem está na via marginal ao canal e quer entrar nela ou cruzá-la e ainda poderia ser o caso de criar alças para se ter acesso pela Félix aos viadutos como estão fazendo nos elevados que se ligam a Dom João VI na continuação da Antônio.
    A pergunta sobre a limitação dos viadutos que se comunicam pelo canal a Félix de Brito é se havendo retenção no sinal, este chegaria aos elevados prejudicando por exemplo que vem do Pina sentido Dom João.
    Aparentemente por fotos, a Via Mangue terá comunicação com vias locais na altura do Bompreço e Extra da Domingos Ferreira, então não procede a crítica que a ciclovia só seria acessável pelo começo e fim da via. Aliás, vem observando se realmente a ciclovia irá usar a via elevada sobre o manguezal, pois tá mais com cara que irão implantar esta nas vias já existente paralelas a nova via via interligação dos trechos descontinuados.
    Para mim, tirando essas falhas de engenharia, muito comuns aqui, erro é criar a Via Mangue para implantar um simples BRS na Domingos e Conselheiro. BRS não passa de ordenamento de veículos com minimização de conflitos entre coletivos e individuais privilegiando o primeiro, o que pode ser feito sem a criação da Via Mangue, ou irão fazer outra vias, ajustar existentes nos demais corredores que receberão o BRS? Com o valor alto da Via Mangue que paga os dois corredores BRT, a zona sul de Recife com a norte de Jaboatão deveriam receber o BRT, ao menos até o Shopping Guararapes, visto que isso era a intenção inicial.
    Pelo visto, o Governo não tem dinheiro para outro BRT, sugere um VLT sem noção na zona sul com nenhum base para tal, gasta muito na Via Mangue com falhas e atraso, assim é melhor se virar com o BRS que promete ganhos com pouco investimento.
    Vendo solução simples que deve adiar bastante uma futura aplicação de BRT na zona sul, díficil acreditar em modais caros como metrô ou monotrilho na área norte. Se é para fazer qualquer coisa, então deixa como está.

  3. Parabéns! Mais uma obra com o Selo Recife de Qualidade (SRQ (c)): mal planejada, mal executada, com resultado ruim e cara.

  4. concordo com o Félix. mais uma obra visando o uso do Carro. coletivo? é coisa de pobre. vai nascer errada e saturada essa”via mangue”. mas os caras(falo de todos.políticos imprensa e sociedade) não aprendem!

  5. O pior de tudo é que só falam apenas dos impactos negativos da obra em termos de mobilidade, e esqueceram de buscar especialistas para descrever os impactos ambientais que a obra provocou, vem provocando e provocará pós-conclusão. O Parque dos Manguezais, área pela qual a via passará é uma das maiores áreas de mangue em zonas urbanas no mundo, e estão destruindo os últimos resquícios desse ecossistema na nossa cidade. Não somos ingênuos em passar despercebidos o quanto essa via irá atrair para as áreas do entorno (especulação imobiliária, comercial, etc), tudo que declinará possivelmente uma degradação total desse espaço natural, uma pena, os homens só pensam nos danos ambientais depois que os mesmos afligem suas vidas.

  6. Prezada Tânia Passos, não sei se você já teria conhecimento do túnel que o governo de São Paulo irá construir ligando Santos ao Guarujá? É um túnel de grande extensão e que passará por baixo do mar. A tecnologia, inclusive, já seria nacional. Essa introdução se fez necessária para que, mais uma vez, fosse conduzida o questionamento de que por que Recife não adota a construção do metrô subterrâneo. Creio que o solo dessa cidade não seja tão complexo e difícil como o fundo do mar. Lembro ainda que a tecnologia já se encontra em solo nacional. O que eu gostaria de sugerir a você e ao Diário é que fizesse uma série de reportagens consultando grandes especialistas no assuntos para que concluísse de vez acerca da viabilidade ou não do metrô subterrâneo em Recife. Tenho certeza que vocês terão a chance de realizar uma das mais interessantes e brilhantes reportagens já realizadas no jornalismo pernambucano. Pois, com argumentos técnicos se refutaria ou se consolidaria de vez um projeto de mobilidade definitivo para a cidade. Caso o metrô subterrâneo seja viável, dada as características da RMR, imagino que iria haver uma grande revolução não só na mobilidade, ams também no renascimento, surgimento do desenvolvimento econômico em muitos locais dessa região. fica a dica!

    • João,

      como você bem falou, há tecnologia para fazer túnel até no mar, então em solos problemáticos não seria o problema. A questão é o custo para se fazer tal obra, pois quanto mais complicado é terreno, técnicas mais refinadas devem ser usadas e não costumam ser mais em conta.
      Um metrô subterrâneo demanda mais investimento e é uma obra demorada.

  7. ah, sabem por que o viaduto de chegada da Via Mangue em Boa Viagem foi projetado para ser mais curto (sem passar por cima da Félix de Brito)? Procurem saber onde serão construídos os prédios Maria Letícia e Maria Emília, da mesma construtora da Via Mangue.

  8. Tânia, estamos a supostos 48 dias da inauguração da via mangue e não vejo notícia nova nenhuma! É tudo de dezembro de 2013, no máximo início de janeiro. Será que a imprensa pernambucana não se importa com isso? Será que isso não é importante? Porque será que a prefeitura está tão mudinha sobre o assunto, justo em ano eleitoral?