Um novo olhar para o transporte integrado fora dos terminais

 

Terminal da Macaxeira - Foto - Hélder Tavares DP/D.A.PressA estudante Thâmara Morais, 23 anos, nasceu no mesmo ano em que foram inaugurados os dois primeiros terminais integrados do Recife: PE-15 e Macaxeira. Sete anos anos antes dela nascer, o modelo do sistema integrado já havia sido idealizado.

A estudante Thâmara Morais faz duas integrações  por dia Foto - Alcione Ferreira DP/D.A.Press

A estudante Thâmara Morais faz duas integrações por dia Foto – Alcione Ferreira DP/D.A.Press

É graças a esse sistema de integração que Thâmara e um universo de quase um milhão de usuários paga apenas uma passagem por dia para se deslocar para qualquer município da Região Metropolitana do Recife. O modelo do SEI, uma criação genuinamente pernambucana, se tornou referência no país. Trinta anos depois, no entanto, especialistas discutem a necessidade de modernizar o sistema com integrações fora dos muros dos terminais.

Para chegar de sua casa na Várzea para a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde está concluindo o curso de Serviço Social, Thâmara faz duas integrações. Ao entrar no sistema pelo metrô, na estação Ipiranga, ela paga a tarifa de R$ 1,60. Na estação Barro, ela pega o ônibus até o terminal da Macaxeira e de lá a linha Barro/Macaxeira Várzea. “Às vezes demora mais de uma hora por causa do trânsito. Mas prefiro do que pagar duas passagens”, explicou.

Terminal Pelópidas Silveira, na PE-15, inaugurado em 2009 Foto Bernardo Dantas DP/D.A.Press

Terminal Pelópidas Silveira, na PE-15, inaugurado em 2009 Foto Bernardo Dantas DP/D.A.Press

A premissa básica do SEI de inclusão social permitindo uma única tarifa para o sistema é sua maior conquista. Mas outro fator começa a pesar e é determinante para atrair novos usuários: o tempo. Para o professor de engenharia da UFPE, Maurício Andrade, o SEI está falhando nesse quesito. “As pessoas estão perdendo muito tempo nas integrações e há um nível muito alto de desconforto”, afirmou.

A doméstica Maria do Carmo Queiroz, 51 anos, pega três ônibus por dia. Ela reconhece a vantagem de pagar só uma passagem, mas gostaria de encurtar as viagens. “Se pudesse ser pelo menos dois ônibus para chegar onde trabalho, seria melhor. Perco quase duas horas por dia para ir e voltar”, criticou.

O professor Maurício Andrade defende a criação de linhas diretas dentro do SEI com o objetivo de reduzir as integrações. “Para um determinado público, o tempo é mais relevante .Talvez esteja na hora de criar alternativas de linhas diretas, mesmo que o preço seja maior. A pesquisa de origem e destino que será feita poderá identificar se há demanda para esse tipo de serviço”, apontou.

Também defensor de modernizar o sistema, o diretor de planejamento do Grande Recife, Maurício Pina, sugere a integração fora dos terminais. “A essência do SEI deve ser mantida, mas devemos aproveitar o potencial tecnológico existente hoje e que não havia naquela época para que as integrações também possam ser feitas fora dos terminais”, afirmou.

 

Avenida Conde da Boa Vista funciona como um terminal de integração com passagem

Avenida Conde da Boa Vista funciona como um terminal de integração com passagem

Especialista em mobilidade o engenheiro Germano Travasso, que é um dos pais do modelo do SEI, explica que o sistema já previa a integração temporal. “o SEI previa integrações entre linhas convencionais. Para tal, era necessário consolidar primeiro a macro estrutura do sistema, os Corredores Estruturais, e só então promover integrações temporais entre as linhas remanescentes. Seria inadequado promover integrações generalizadas com a rede atual de linhas, cheia de irracionalidades. Caso venha a ser feito, aumentará as ineficiências e, consequentemente o valor das tarifas pagas pelos usuários”, afirmou.

Uma das estações do BRT em Obras - Foto - Nando Chiappetta

Uma das estações do BRT em Obras – Foto – Nando Chiappetta

Trinta anos e não ficou pronto

Os técnicos que idealizaram o SEI há 30 anos imaginaram uma metrópole cortada por sete radiais (vias verticalizadas) cruzando com quatro perimetrais (vias horizontais) e nas interseções os terminais integrados. Na década de 1990, foram construídos os sete primeiros terminais de integração dos 25 previstos. Na década seguinte, outros seis foram entregues, totalizando 13 em 20 anos.

Nos últimos dez anos, sete outros equipamentos foram inaugurados e outros cinco ainda estão em obras com previsão para este ano, depois de vários adiamentos. “Não se pode negar os investimentos que foram feitos nestes últimos anos para o transporte público depois de um longo período de abandono”, apontou Maurício Pina.

Mas há outras intervenções que também foram esquecidas. Das quatro perimetrais previstas até hoje há apenas a primeira. As perimetrais 2,3 estão com os projetos na prefeitura do Recife e a 4ª perimetral  localizada na BR-101 está com o estado. A obra chegou a ser licitada, mas  as obras não foram iniciadas.

5 thoughts on “Um novo olhar para o transporte integrado fora dos terminais

  1. “As pessoas estão perdendo muito tempo nas integrações e há um nível muito alto de desconforto”.

  2. O povão sofre, sofre e sofre neste sistema cheio de problemas.

  3. Rapaz, o SEI precisa melhorar e muito. Falta planejamento, obras sempre atrasam e o Grande Recife Consórcio junto com as empresas de ônibus não pensam nos usuários. E a licitação das linhas? A licitação das linhas parece que ficou no esquecimento.

  4. Acho a lógica do SEI boa e concordo que tecnologias com a integração temporal são válidas. É notório que o SEI para funcionar melhor precisa de uma maior racionalização do sistema como um todo.
    Uma noção clara disso é termos no centro da capital uma grande quantidade de linhas que estão fora desse sistema quando no centro deveria ter apenas linhas troncos e circulares.
    A oferta pelo SEI de linhas diretas é válida e acho conveniente cobrar um pouco mais por evitar mais conexões, mas por outro fica meio incoerente a depender do trajeto pode poder alcançar distâncias bem maiores via conexões com valor inicial inferior.
    Outra coisa que acho estranho nesse negócio de linha direta é por exemplo a linha PE-15/Boa Viagem ter um longo percurso e manter tarifa anel A, enquanto em Paulista, linhas alimentadoras do Pelópidas utilizam anel B cujo trajeto é inferior, e a interterminal Pelópidas/Joana Bezerra com trajeto longo tem anel A. Parece mais racional a cobrança feita na área sul pelo TI Cabo do que pelo TI Pelópidas.
    Sobre a estudante no TI Barro ir para a UFPE, deve haver erro de interpretação no trajeto citado, pois a linha Barro/Macaxeira (Várzea) passa pela UFPE antes de ir para a Macaxeira, inclusive também passa antes pelo UFRPE, então não faz sentido ela ir para a Macaxeira e deste TI pegar um ônibus para o campus da UFPE.
    Até no Barro, ela pegando a Barro/Macaxeira BR 101 parador, a depender do local que estuda, dá para ir a pé descendo numa das paradas das avenidas, pistas locais da BR próximas a UFPE. Na Macaxeira, para ir a UFPE, a oferta é a própria Barro/Macaxeira (Várzea), Tancredo Neves/Macaxeira, e a Barro/Macaxeira BR 101 parador, só que as duas do Barro antes de ir para a Macaxeira, foi dito, passam antes pela UFPE.