Réplica, tréplica e direito de resposta

out 21, 2014 Comentários desativados em Réplica, tréplica e direito de resposta por

Em Foco 2110

O formato dos programas e o discurso padronizado dos principais postulantes a cargos do Executivo muitas vezes empurram o debate para uma certa irrelevância, mas eles continuam como o único programa durante as eleições em que o eleitor pode ver – por um lampejo que seja – o candidato tal como ele é. Tema do Em Foco do Diario desta terça-feira, por Vandeck Santiago.

O valor dos debates

Novos tempos exigem uma formulação específica para esse tipo de programa, evitando o amadorismo que ainda se vê em algumas campanhas estaduais e municipais

Vandeck Santiago

O primeiro debate que assisti foi o de Miguel Arraes (PMDB) contra José Múcio (PFL), nas eleições para governador de Pernambuco em 1986. Quem vê o resultado daquela eleição pode achar que ela foi fácil (568 mil votos de diferença, 53,5% a 34,3%), mas quem a viveu desde o começo sabe que não foi bem assim. No período do debate, por exemplo, estava acirrada. Arraes havia retornado do exílio sete anos antes, elegera-se deputado federal, mas ainda era uma incógnita para muitos jovens. Eu assisti ao debate no meio deles, eram pelo menos uns 40, no campus da UFPE. Muitos indecisos.
José Múcio estava com um paletó escuro, sem gravata, e cabelos alinhados. Arraes com aquele ar grave, calvo, de paletó e gravata. Francisco José – que era o apresentador, na TV Globo – perguntou o que cada um faria, se fosse governador, com um acampamento de camponeses montado diante do Palácio do Campo das Princesas, após ato de protesto. José Múcio respondeu que faria isso e aquilo, conversaria com os manifestantes, respeitaria os direitos de todos etc. e tal. Quando a palavra foi passada para Arraes, ele respondeu de bate-pronto, cortante: “Comigo nem teria acontecido”. Na sala aonde eu estava houve um levante imediato, gritos de aprovação. Arraes afirmou em seguida que se fosse governador teria conversado com os camponeses antes de eles decidirem pelo acampamento e procurado uma solução para suas reivindicações. A resposta fora um golpe de mestre. A de José Múcio estava dentro do script dos novos tempos democráticos que vivíamos – a ditadura fora oficialmente encerrada em 1985. A de Arraes enquadrava-se dentro dos parâmetros da “manutenção da ordem” (porque o acampamento nem teria ocorrido) e mostrava sua relação com o movimento. Estava um passo à frente de José Múcio.
Há muitas explicações para a vitória de Arraes em 1986; para mim, uma das principais delas foi aquele debate e a frase, “Comigo nem teria acontecido”.
De lá para cá, o debate consolidou-se em nossas eleições. Às vezes, candidatos bem à frente dos demais evitaram participar deles (em 2006 Lula optou por não ir; na época se analisou que a ausência dele nos debates o prejudicou, sendo um dos fatores que levaram ao segundo turno). Essa característica, porém, é uma exceção; a regra é que todos participam.
O formato dos programas e o discurso padronizado dos principais candidatos muitas vezes empurram o debate para uma certa irrelevância, mas eles continuam como o único programa durante as eleições em que o eleitor pode ver – por um lampejo que seja – o candidato tal como ele é. Na atual eleição, o debate revestiu-se de uma dimensão que não teve nas últimas disputas presidenciais. Aécio Neves fez sua escalada no primeiro turno nos dois últimos debates, o da TV Record e o da TV Globo. Já neste segundo turno, os debates estão sendo aguardados com expectativa semelhante a das pesquisas. Com o tempo da propaganda eleitoral repartido igualitariamente entre os dois candidatos, e estando ambos numa disputa extremamente acirrada, os debates podem ser o fator decisivo para a definição do voto.
Mesmo que não sejam campeões de audiência (comparados com outros programas), eles atingem um eleitorado impossível de ser alcançado pelos candidatos na campanha normal (sem a desconfiança de que o que está sendo visto ali é “propaganda” feita pela equipe deles). Uma audiência de 10 pontos, por exemplo, corresponde a cerca de 20 milhões de pessoas diretamente. Acrescente-se a tudo isso que estamos agora diante do fenômeno das redes sociais, dotadas da capacidade de reverberar o programa para milhões de outras pessoas, durante dias inteiros.
Hoje os candidatos montam suas equipes de assessores para as diversas mídias e investem prioritariamente nos programas gratuitos de rádio e televisão. Creio que nas próximas eleições terão de incluir um destaque especial para a formulação de estratégias e preparação para os debates (que não consiste apenas em estudar os temas que podem surgir no programa). Sobretudo nas campanhas estaduais e municipais, onde em relação aos debates a preparação muitas vezes é amadora e desprovida de formulação estratégica.

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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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