Quando a vaia reinou em Nova Jerusalém

mar 22, 2016 Comentários desativados em Quando a vaia reinou em Nova Jerusalém por

Festival de Verão

Palco do maior espetáculo da Terra, para seguir o estilo megalomaníaco pernambucano, Nova Jerusalém, no município de Brejo da Madre de Deus, abrigou em 1974 um show musical apresentado como o maior do país ao ar livre, de fazer inveja a um Woodstock. Somente de iluminação, cinco toneladas de equipamento. Uma lanchonete seria capaz de atender 20 mil pessoas. Tratava-se do primeiro Festival de Verão, que reuniria as estrelas baianas Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa, além dos estreantes no estado Luiz Melodia e Jorge Mautner (autor da fresquinha “Maracatu Atômico”, depois regravada com sucesso por Chico Science e Nação Zumbi). A experiência resultou em um encontro histórico e em muita vaia na cidade-teatro.

Gal Dominguinhos

A primeira divulgação do festival no Diario de Pernambuco deu-se pelo colunista Paulo Fernando Craveiro, na edição de 15 de janeiro de 1974, mas o tom não era de elogios aos astros baianos. Segundo ele, Caetano (“com a languidez bissexual que faz questão de exibir no palco”), Gal Costa (“com seu entreabrir de pernas sensual que tem sido a tônica em suas apresentações) e Gilberto Gil (“com sua cansativa didática musical”) estariam no lugar do show de Cristo.

Gilx

No dia 22 de janeiro, o jornal anunciava – também por Paulo Fernando Craveiro – que Caetano não viria mais para Nova Jesusalém. De acordo com o colunista, o cantor teria ficado traumatizado com as vaias que levou no Teatro Castro Alves, em Salvador. Por ordem médica, teria que ficar longe das multidões. No seu lugar, entraria o pernambucano Quinteto Violado.

Luiz Melodia

O show aconteceu no dia 2 de fevereiro, para 12 mil pessoas (os organizadores esperavam 20 mil). Depois de quase uma hora de atraso, os artistas começaram a subir no palco. O Quinteto Violado abriu os shows e passou incólume. Já Luiz Melodia, que foi apresentado ao público por Gal Costa, não teve a mesma sorte.

Gal Costa, de vestido e sandália havaiana, foi até aplaudida, até que resolveu cantar “Índia”, mesmo acompanhada pelo pernambucano Dominguinhos. Gilberto Gil também foi apupado, mas xingou de volta em dialeto africano. Pedras e latas de cerveja foram jogados no palco. Toquinho e Vinícius foram aplaudidos de pé. Gal e Gil retornaram, dividindo a plateia. No fim, a crítica do show publicada no Diario dava a sentença, lamentando a perseguição a Luiz Melodia: “um medíocre festival que deixou satisfeito, apenas, os produtores (Guilherme Araújo e Roberto Santana)…”.

A ideia de transformar Nova Jerusalém em um Woodstock permanente não teve continuidade. No fim de 1974 o local abrigaria outro grande musical, com a presença de Chico Buarque, Elizete Cardoso, MPB-4, Nara Leão e Milton Nascimento. Nas vésperas da realização do evento, que se chamaria “É preciso cantar”, a censura disse não. Com o prejuízo, Nova Jerusalém passaria a ser aberta apenas para a Semana Santa.

Dois anos antes, a cidade-teatro havia sido ocupada por artistas pernambucanos alternativos na Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém, em novembro de 1972. Músicos (Zé Ramalho, Lula Côrtes, Lailson) e bandas (Ave Sangria, Flaviola & o Bando do Sol) se apresentaram em dois dias no melhor estilo paz e amor. O Diario registrou apenas notas sobre o evento.


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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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