O alemão que revelou a escravidão no Recife

maio 12, 2016 Comentários desativados em O alemão que revelou a escravidão no Recife por
Os fotógrafos Alberto Henschel (à direita) e Constantino Barza, em 1870

Os fotógrafos Alberto Henschel (à direita) e Constantino Barza, em 1870

No dia 27 de maio de 1866, aos 39 anos de idade, desembarcou no Porto do Recife o alemão Alberto Henschel, passageiro do patacho hamburguês Catherine Jane. Em 18 de junho, anúncio no Diario de Pernambuco comunicou que ele primeiro se instalou no ateliê de Júlio dos Santos Pereira, na Rua do Imperador, número 38.

No dia 2 de outubro, o jornal já registrava o novo endereço do seu próprio estúdio, o Fotografia Alemã, no sobrado número 2 do Largo da Matriz de Santo Antônio. Era um anúncio circulado, para dar maior destaque. Logo abaixo dele, o alerta de um escravo fugido. Francisco, 30 anos de idade, estava desaparecido desde 29 de setembro. Quem o pegar, seria recompensado.

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Alberto Henschel era apresentado desta forma à sociedade recifense, cosmopolita e escravocrata. E não fecharia os olhos para esta realidade. Empresário de sucesso no ramo recente da fotografia, com estúdios também em Salvador e São Paulo, Alberto Henschel não se limitou apenas fazer retratos da nobreza, dos comerciantes e de quem possuía dinheiro para ser imortalizado em uma chapa.

Ele também registrou os negros, livres ou escravos, em um período ainda anterior à Lei Áurea. Na coleção das imagens feitas em estúdio, no Recife, em Salvador e no Rio de Janeiro, vê-se pessoas com sua dignidade preservada, no mesmo padrão dos cartes-de-visite da elite branca, apesar de suas roupas simples. O olhar diz tudo.

As imagens da galeria abaixo integram a coleção Brasiliana Fotográfica, disponibilizadas graças a um convênio do Leibniz – Institut für Länderkunde (da cidade alemã de Leipzig) com o Instituto Moreira Salles. As 24 chapas em albumina/prata retratando os negros recifenses têm o tamanho original de 9 cm por 5,6 cm.

Produzidas no ano de 1869, mostram pessoas que ainda esperariam quase 20 anos até que a escravidão fosse oficialmente extinta no Brasil. Não há indicações de nomes e funções (a não ser o “matuto”, que deveria ser um vaqueiro), mas os negros e negras, além de cafuzas e até um albino, são testemunhas de um tempo ainda presente entre nós.

Já em 1877, o estúdio do fotógrafo transferiu-se para o número 52 da Rua Nova (então Rua do Barão da Vitória). Alberto Henschel mudou-se depois para Corte, no Rio de Janeiro, fazendo fotos da família real e paisagens da capital e arredores. São dele algumas das imagens mais conhecidas da princesa Isabel, que no dia 13 de maio de 1888 assinou a Lei Áurea, documento que se tornou o primeiro “pôster” do Diario de Pernambuco e que tem as digitais de muitos pernambucanos, do Conselheiro João Alfredo a Joaquim Nabuco, passando por José Mariano e toda uma rede que difundiu os ideiais abolicionistas.

Por uma questão de destino, dos negros anônimos a uma princesa, o alemão deixou para a história um registro diferente da escravidão. O olhar de um estrangeiro que se tornou um brasileiro. Faleceu em 30 de junho de 1882 e foi enterrado no setor judaico do Cemitério de São Francisco Xavier, no Rio de Janeiro.

 

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Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
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