Quando a modernidade desfigurou o Recife Antigo

fev 16, 2017 Sem comentários por
Foto 1: Alexandre Berzin/Museu da Cidade do Recife Foto 2: Paulo Goethe/DP

Foto 1: Alexandre Berzin/Museu da Cidade do Recife
Foto 2: Paulo Goethe/DP

A reforma da zona portuária do Bairro do Recife, iniciada na década de 1910 com o objetivo de “afrancesar” a área onde a cidade começou, consistia na abertura de grandes avenidas e na derrubada de prédios do período colonial para o surgimento de edifícios do mesmo nível dos existentes em Paris, respeitando a simetria da arquitetura neoclássica. As décadas se passaram e, já nos anos 1930, quem acessava o que depois ficou conhecido como “Recife Antigo” pela Ponte Maurício de Nassau visualizava logo dois exemplos do estilo no início da Avenida Marquês de Olinda: do lado direito, o edifício Chantecler. Do esquerdo, o que ficou conhecido como Moulin Rouge.

Em 1945, o fotógrafo Alexandre Berzin – nascido na cidade de Riga, capital da Letônia, em 1903, falecido no Recife em 1979, com seu acervo doado para o Museu da Cidade e Fundação Joaquim Nabuco – fez um registro histórico dos dois edifícios responsáveis por muitos encontros e desencontros de recifenses e visitantes ocasionais. O Chantecler, com seu famoso Gambrinus, um misto de restaurante e boate, não frequentava tanto as páginas do Diario de Pernambuco quanto o cabaré do Moulin Rouge, mas os registros eram quase sempre policiais.

Além das brigas envolvendo nativos, os estrangeiros – principalmente marinheiros – também eram responsáveis por confusões homéricas, com quebra-quebra generalizado e prisões em sequência. As mulheres que trabalhavam no local sonhavam em um amor que as levasse para a Europa. Os japoneses não tinham vez. Passaram a ter a entrada proibida no recinto por causa dos maus bofes.

O Bairro do Recife concentrava a vida noturna da cidade, mas começou a entrar em decadência já no final da década de 1960. Em crônica publicada no Diario em 13 de agosto de 1969, o jornalista Selênio Homem destacava que o Moulin Rouge era palco de strip tease não mais de coristas, mas de travestis.

Inaugurados na segunda metade da década de 1920 para uso misto – habitação e comércio – os edifícios tiveram fins diferentes. No dia 1 de abril de 1973, o Moulin Rouge saía de cena para ganhar um novo nome: Maurício de Nassau. Sua fachada deu lugar a uma “sofisticada arquitetura moderna” para a época. Agora como sede do Banco Internacional, era um dos primeiros exemplos no Recife do uso do curtain-wall (fachada-cortina) toda colocada sobre montantes em balanço. Permanece desta forma até hoje, um elemento estranho em um bairro voltado para o clássico.

O Chantecler tentou manter a pose, mas foi sendo esvaziado e, sem manutenção, acabou fechado. A obra da restauração da coberta e das fachadas começou em 2003, mas acabou suspensa. Retomada em 2010, foi finalmente concluída dois anos depois, mas continua fechado e com tapumes.

O Bairro do Recife foi deixando de ser o paraíso dos boêmios e o lar das prostitutas. Com a redução do movimento no porto, as cenas de amor livre em plena rua passaram a ser condenadas. No dia 15 de abril de 1973, o Diario criticou os atos que envergonhavas as funcionárias de bancos e das lojas que funcionavam na área durante o dia. “Que conceito farão da terceira capital do Brasil os forasteiros e muito em especial os turistas que aqui chegam e logo ao desembarcar no cais do porto defrontam-se com estes espetáculos?”.

Almanaque, Destaque_capa

Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
Sem respostas para “Quando a modernidade desfigurou o Recife Antigo”

Deixe uma resposta