01.03

 

Campanha da Fraternidade deste ano começa hoje e sai em defesa dos biomas brasileiros e da vida.

Luce Pereira (texto)
Jarbas (arte)

Imagino que todo mundo quisesse cantar com força, hoje, enxergando o futuro como a quinta estrofe da Marcha da Quarta-feira de Cinzas, clássico de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes, embora o bom senso e a História mandem que ninguém sinta saudade do tempo em que foi feita, quase 1964: “A tristeza que a gente tem/ qualquer dia vai se acabar/ todos vão sorrir/ voltou a esperança/ é o povo que dança/ contente da vida/ feliz a cantar/ Porque são tantas coisas azuis/ e há tão grandes promessas de luz/tanto amor para amar que a gente nem sabe. Quem não gostaria? No entanto, tem a vida real para dar conta e voltar a ela significa abrir espaço para a velha pergunta, que chega já sem o menor vestígio de samba – como será o amanhã? Nem um pouco fácil, obviamente, com a política brasileira continuando a produzir fatos e medidas desastrosos, que atentam contra qualquer perspectiva razoável de tranquilidade. E a médio prazo, no mínimo. Mas “a vida é uma ordem”, como escreveu Carlos Drummond, e segue exigindo de todos dose extra de coragem e mobilização suficiente para enfrentar aquilo que a torna ainda mais difícil, como os desmandos praticados contra a natureza. São frequentes e bárbaros, razão pela qual a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) optou por defendê-la através da Campanha da Fraternidade 2017.
Ela começa exatamente na quarta que os foliões chamam de “ingrata” e a Igreja, de ponto de partida para uma reflexão destinada a durar o ano inteiro e não apenas até a Páscoa. Com o tema Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida, e o lema Cultivar e guardar a criação, a campanha quer despertar em governantes e governados a necessidade de manter o meio ambiente longe dos ataques a que é frequentemente submetido e que colocam em risco a sobrevivência do homem e do planeta. Escolha apropriada, embora o que não falte, no Brasil, sejam causas exigindo das maiores instituições nacionais, como a própria Igreja, intervenções urgentes.
Para se ter apenas vaga ideia da preocupação com o nível de prejuízo causado à natureza, a partir da vertiginosa escalada da industrialização em nível global, a Declaração da Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente (Estocolmo), já enfatizava, em 1972: “Chegamos a um ponto na História em que devemos moldar nossas ações em todo o mundo, com maior atenção para as consequências ambientais. Através da ignorância ou da indiferença podemos causar danos maciços e irreversíveis ao meio ambiente, do qual nossa vida e bem-estar dependem. Por outro lado, através do maior conhecimento e de ações mais sábias, podemos conquistar uma vida melhor para nós e para a posteridade, com um meio ambiente em sintonia com as necessidades e esperanças humanas… “Defender e melhorar o meio ambiente para as atuais e futuras gerações se tornou uma meta fundamental para a humanidade.”
O planeta, naturalmente, fez vistas grossas ao apelo lançado há 45 anos e de lá para cá os recursos naturais têm diminuído de forma drástica, a ponto de as questões que dizem respeito à preservação deles passarem a ser discutidas sistematicamente por governos, instituições e entidades de todo o mundo. O que não significa, no entanto, que é chegada a hora de colher os frutos do entendimento. Ele simplesmente não existe, pois países e povos não conseguem chegar à fórmula capaz de estabelecer uma convivência pacífica entre meio ambiente e economia. Mas esta é uma luta de todos e sem o menor sinal de trégua. Por isso, a Igreja insiste e apela através da letra do hino da campanha: “Se contemplarmos essa “mãe” com reverência, não com olhares de ganância ou ambição, o consumismo, o desperdício, a indiferença se tornam luta, compromisso e proteção”. Não são apenas versos, afinal. É uma questão de sobrevivência, apesar de, hoje, o folião estar naturalmente inclinado a olhar mais para a própria, depois de tantos dias de excessos.