O Natal de dona Maria

dez 25, 2017 Sem comentários por

25.12

As lições de fraternidade que inspiraram a vida de uma cuidadora de quitinete do Edifício Califórnia.

Urariano Mota (texto)
Jarbas (arte)

Se fosse escrita por mãos mais hábeis, o caso de dona Maria em sua festa de Natal bem poderia inaugurar uma lição de humanidade. Poderia até virar um filme de Almodóvar. Quando me contaram o que houve na sua festa, dona Maria era então uma das mais antigas moradoras do edifício Califórnia. Quem a visse, me garantiram, seria incapaz de não cair sob o seu fascínio, mas um fascínio distante, diverso dos tempos em que ela era prostituta. Teúda e manteúda, os homens a quem se entregou não a deixaram na miséria ao fim. Dona de quitinete no Califórnia, ela vivia da pensão de quem a manteve nos dias de esplendor.
Dizemos que dona Maria preservava um fascínio diferente porque na sua queda, quando mergulhou na solidão, ela continuou a fascinar todos os sexos, independentemente de sexo e de sexos. Me ocorre “Blue gardenia”, com Nat King Cole:
Blue Gardenia
Now blue I’m alone with you
And I am oh so blue
She has tossed us aside
And like you, gardenia
Once I was near her heart
After the teardrops start
Where are teardrops to hide
I lived for an hour
What more can I tell
Love bloomed like a flower
Then the petals fell
Blue gardenia
Mas o melhor vem agora: dona Maria era cuidada, lavada e medicada por um casal de homens, José e Jeová, a quem chamarei assim em respeito à liturgia do nome da única mulher a quem se devotam. Eles possuíam os ofícios de advogado e de enfermeiro. Jeová cuidava dos papéis, documentos e males gerais da vida exterior, pública, de dona Maria. José, da vida mais privada, pois lhe dava remédios, arrumava, lavava e espanava os móveis, com uma paciência infinda em tratar da erisipela, que teimava em marcar a mulher, a “ex-prostituta”, como corria na boca das mais virtuosas famílias do Califórnia. “Ex” pelo que era, pela idade em que se encontrava. Prostituta pelo que foi, pelo que jamais deixaria de ser, mesmo na sua idade.
– Eles vivem à custa do dinheiro dela? – perguntaram ao narrador da história.
– Não, eles têm seu próprio apartamento. Os meninos…
– Os meninos?
– Sim, o casal gay. A gente chama “os meninos”… Eles se interessaram por ela de graça. Tomam conta dela como se fosse a própria mãe.
– O que eles fazem?
– Ah, o enfermeiro leva ela na cadeira de rodas, passeia com ela na praia, arruma a casa, cozinha, dá banho nela….
O morador do Califórnia, que contava o caso, olhou de lado, como se procurasse algo mais concreto para além da mesa do bar, em outro lugar, que expressasse um sentimento. Algo como por que dividir a humanidade? Por que não ver nesse carinho a expressão de uma esperança? Por que não ver nisso algo tão simples quanto um afeto sem adjetivo, afeto, simplesmente? E sem erguer a voz, como se as palavras fossem levadas pelo vento e não se pudessem mais ouvir, ele falou:
– Eu achei lindo…. O Natal de dona Maria foi lindo.
Então por impulso, entre um trago e outro de cerveja, ele contou a todos e a quase ninguém que os meninos fizeram uma decoração linda, que um convidado trouxe um violão e tocou para dona Maria coisas lindas, boleros lindos, valsas lindas, e que vieram pessoas de várias procedências, estilos e tempos, todos lindos. Quem veio? perguntaram.
– Travestis, um casal, senhoras idosas também, aquelas amigas do tempo de dona Maria, da batalha. Senhores sozinhos, das antigas. Teve bolo, presentes, doces. Tudo a que dona Maria teve direito.
– Você levou algum presente pra ela?
– Claro. Quando os meninos puseram o cartãozinho do convite debaixo da minha porta, eu me disse, “eu não posso faltar”. Procurei e levei pra ela um buquê de flores. Ela se emocionou tanto … ela agarrou as flores contra o peito, lindo.
Então lhe perguntam que flores, e antes que ele respondesse me ocorreu a possibilidade de que ele tivesse dado de presente rosas vermelhas. Ou, quem sabe, gardênias, blue gardênias, para a senhora cujo amor florescera um dia. Não, não foram nem eram gardênias. Dona Maria estreitou contra o peito flores do campo. Belas, verdadeiras, simples flores do campo, como o afeto que ganhou no fim, que não merece qualquer qualificação. Um animal diria que, cobrindo o peito assim, dona Maria ocultava dos convidados os seios fenecidos. Mas dona Maria era as próprias flores do campo. A fraternidade em torno, tudo nela, ficou lindo.

Destaque_capa, Em Foco

Sobre o autor

Paulo Goethe, no Diario de 1990 a 1997 e desde 2001
Sem respostas para “O Natal de dona Maria”

Deixe uma resposta