Atlas da Violência aponta redução de homicídios em 10 anos no estado

Do Diario de Pernambuco, por Larissa Rodrigues

Pernambuco foi o único estado do Nordeste e um dos cinco do país a diminuir o número de homicídios entre 2004 e 2014. A redução foi de 20,6% no estado. Em 2004, 4.173 pessoas foram assassinadas, contra 3.315 em 2014. No mesmo período, todos os outros estados da região apresentaram crescimento de mais de 100%. Os números são do Atlas da violência 2016, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Vizinhos e policiais envolvidos na ocorrência ficaram chocados com a violência

Para continuar a reduzir o número de mortes, estado precisa de mais policiamento. Foto: Arquivo/DP

O documento foi divulgado ontem.  Entre 2004 e 2014, o número de homicídios no Brasil cresceu 21,9%. Em 2004, foram 48.909 mortes. Já em 2014, foram 59.627. Um em cada dez do homicídios no mundo em 2014 ocorreram no país, o que tornou o Brasil campeão naquele ano.

No período de dez anos, o número de assassinatos em Pernambuco atingiu o ponto máximo em 2007, com 4.561 assassinatos. Naquele ano, foi lançado o Pacto pela Vida. A partir de 2008, a curva de homicídios começou a cair, culminando em 2013, ano com menos homicídios em Pernambuco, 3.121.

Especialistas avaliam que a redução se deveu às ações do Pacto pela Vida (PPV), mas ressaltam o desafio do estado de voltar a fazer a política de segurança funcionar, já que o volume de assassinatos passou a subir novamente em 2015 (3.891 assassinatos, segundo a SDS). O pernambucano José Maria Nóbrega Júnior é professor de Ciência Política da Universidade Federal de Campina Grande (PB) e coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da UFCG. Na opinião dele, o Pacto pela Vida foi bem-sucedido, mas carece de continuidade das políticas. Ele destacou também que o governo permanece transparente na divulgação de dados.

Já o pesquisador Julio Jacobo, coordenador de estudos da Violência da Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais, acredita que o estado deve investir mais em educação. “As principais vítimas são jovens entre 15 a 30 anos, negros e moradores das periferias urbanas, sem ocupação. Foram abandonados pelo sistema. Reagem como podem. A qualidade do ensino que já era ruim há 14 anos estagnou, ou seja, o maior instrumento de incorporação social, a educação, não está funcionando”, enfatizou.

Por meio da assessoria, o governo enfatizou que o Pacto ainda é um dos melhores modelos existentes no país de combate à violência. De acordo com a gestão, as medidas devem se concentrar no uso da inteligência policial, contratação de mais policiais e reforço das políticas de prevenção, com investimentos em educação, desenvolvimento social e combate às drogas.

O secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, informou que só irá se pronunciar depois de ter acesso ao Atlas. Segundo a pasta, os dados ainda estão sendo analisados pela Gerência de Estatística da secretaria.

A taxa de homicídios tem diminuído nas grandes cidades e aumentado no interior, sobretudo no Nordeste. Das 20 microrregiões mais violentas, 16 estão na região, que também possui sete entre as 20 mais pacíficas. Dentre as 20 microrregiões que apresentaram maior crescimento nas taxas de homicídios, 14 estão no Nordeste. (Com Agência Brasil)

Saiba Mais

59.627homicídios foram registrados no Brasil em 2014

29,1 foi a taxa de homicídios por 100 mil habitantes em 2014

21,9% foi o aumento nos homicídios, em números absolutos, no país, em comparação a 2004

10% foi o aumento aumento na taxa de homicídios por 100 mil habitantes

18,2% foi o aumento da taxa de assassinatos de indivíduos afrodescendentes

10% dos homicídios do mundo foram praticados no Brasil em 2014, o que coloca o país entre os 12 países com maior taxa de homicídios por 100 mil habitantes

76% dos homicídios ocorridos no país em 2014 foram em decorrência do uso das armas de fogo, totalizando 44.861 mortes

11,6% foi o crescimento da taxa de homicídios de mulheres

Cinco únicos estados com redução nos homicídios de 2004 a 2014 (números absolutos)

São Paulo: -46,0%
Rio de Janeiro: -28,7%
Pernambuco: -20,6%
Espírito Santo: -1,3%
Rondônia: -0,7%

Cinco estados com maior aumento nos homicídios

Rio Grande do Norte: 360,8%
Maranhão: 244,3%
Ceará: 193,1%
Bahia: 154,1%
Sergipe: 136,2%

Desempenho de Pernambuco (2004-2014)

3º estado com melhor desempenho no país, com 20,6% de queda nos homicídios em números absolutos e 27,3% na taxa de homicídios por 100 mil habitantes

1º do Nordeste em ambos os indicadores. Único do Nordeste a obter redução de índices neste período

Variação da taxa de homicídio de 2004 a 2014

50% a 0%
Pernambuco, Rondônia, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Distrito Federal, Rio e Espírito Santo

0% a 50%
Amapá, Mato Grosso, Minas, Santa Catarina e Rio Grande do Sul

50% a 100%
Acre, Amazonas, Roraima, Pará, Goiás, Tocantins, Piauí e Alagoas

100% a 300%
Maranhão, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Sergipe e Bahia

Índice de assassinato de jovens negros preocupa autoridades brasileiras

A violência contra a juventude negra foi debatida pela Comissão de Direitos Humanos do Senado, nessa quinta-feira. De acordo com o estudo A Cor dos Homicídios no Brasil, feito pelo coordenador da área de estudos da violência da Faculdade Latino-Americana (RJ), Júlio Jacobo Waiselfisz, de 2001 a 2010, enquanto a morte de jovens brancos no país caia 27,1%, a de negros crescia 35,9%.

Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press

Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press

Com base em dados do Sistema de Informações de Mortalidade, do Ministério da Saúde, a pesquisa revela que no Brasil as maiores vítimas de violência são jovens negros, com baixa escolaridade. O racismo é a maior motivação para os crimes. Alagoas, Espírito Santo, Paraíba, Pará, Distrito Federal e Pernambuco são as unidades da Federação que mais registram casos de homicídios contra negros.

Outro dado da pesquisa mostra que em 2010 quase 35 mil negros foram assassinados no país. “Os números deveriam ser preocupantes para um país que aparenta não ter enfrentamentos étnicos, religiosos, de fronteiras, raciais ou políticos. Representam um volume de mortes violentas bem superior ao de muitas regiões do mundo, que atravessaram conflitos armados internos ou externos” avalia o pesquisador.

“É uma situação alarmante que coloca o Brasil entre piores lugares do mundo em relação a homicídio – sétimo lugar – mas em relação a morte de jovens negros, nós somos um dos primeiros países. O governo reconhece que é um problema histórico que afeta especificamente a juventude negra”, disse Fernanda Papa, da Secretaria Nacional da Juventude da Presidência da República.

Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press

Foto: Alcione Ferreira/DP/D.A Press

Segundo Fernanda, a criação do Plano Juventude Viva, no ano passado, foi uma primeira resposta do governo federal ao problema. Em diferentes programas, a estratégia tem cerca de 40 ações em conjunto com estados e municípios com objetivo de colocar a juventude negra na pauta das políticas públicas.

Representantes de vários movimentos sociais cobraram uma ação mais forte nas áreas de educação e segurança para frear a violência contra jovens negros. “O racismo é um problema que vai além dos livros. Falta um grande pacto social para que as políticas públicas toquem as pessoas de uma maneira geral. Não adianta só chegar a verba, tem que chegar o verbo para que haja uma transformação”, disse o rapper e escritor Gog.

Da Agência Brasil