“O tempo que eu perco na escola, deixo de atender clientes na boca”

Marcelo, 16 anos, trafica e assalta para sustentar a família. Foto: Teresa Maia/DP

O encontro com as drogas aconteceu nas escadarias do bairro recifense onde Marcelo mora desde o nascimento. Tinha 14 anos quando começou a observar com mais curiosidade colegas e vizinhos fumando maconha. Via também o movimento de dinheiro, a facilidade de circulação das valiosas notas entre vendedores e compradores do entorpecente. Não demorou para decidir entrar naquele mundo. Hoje tem 16 anos. É traficante de drogas e assaltante de casas lotéricas e mercadinhos. Só não assalta “pai de família”. Porque esse trabalha para sustentar a casa. Não merece ser roubado, justifica.

O levantamento da área a ser assaltada pode durar meses. É preciso saber se há policiais fazendo a segurança dos estabelecimentos. O embate, nesses casos, é mais perigoso. E pode ser evitado. “A gente passa uns meses fitando pra depois ir lá buscar a boa. Nos assaltos, uso armamento para intimidar as vítimas. Tem que usar arma pra não dar errrado. O cara sem arma é um homem sem ataque”, diz.

A arma usada pelo adolescente tem dono. É alugada nas comunidades próximas por valores que variam entre R$ 500 e R$ 800. O preço cobrado vai depender do local a ser assaltado. Na “bolsa de valores” do crime, uma investida na lotérica, por exemplo, vale mais que no mercadinho. “A gente só não pode perder a arma. Se perder, vai ter que pagar”.

Na rotina de Marcelo, assalto é como uma atividade secundária. Chega para somar quando o tráfico de drogas está ruim. “No tráfico a gente pega até R$ 3 mil por dia, mas tem que tirar o dinheiro do dono. Aí a gente ganha R$ 100 por cada bolsa que vende”. O dinheiro, conta o adolescente, é gasto com a mãe e dois irmãos mais jovens que ele. Não há outra renda em casa. O tráfico é o patrão de Marcelo. O sustento da família.

As bocas de fumo têm regras. E Marcelo sabe cada uma delas. O movimento precisa ser rápido. Dinheiro, só trocado. Moedas não são aceitas. “As moedas pesam muito e não dá para demorar dando troco. Por isso o dinheiro tem que vir certo”. O boom do movimento na boca acontece das 18h às 20h. É quando aparecem mais viciados. “Quando a maconha é de boa qualidade, um vai comunicando ao outro. Aí chove gente pra comprar. Cada ‘dola’ custa R$ 10”.

Marcelo tem 1,90 m e uma fala tranquila. Diz pensar em mudar de vida. Sair do tráfico e dos assaltos. Voltar para a escola. Arrumar um emprego. “Mas não tenho nenhuma ajuda. Um emprego é melhor do que viver como eu tô agora. No crime a gente corre risco de ser pego pela polícia, de ser baleado. Mas tem que batalhar do jeito da gente, do jeito que vem dinheiro mais fácil.”

No Brasil, 2.802.258 crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estão fora da escola, assim como Marcelo. O dado é da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2015. Segundo o estudo, a exclusão escolar atinge sobretudo meninos e meninas das camadas mais vulneráveis da população. Do total de crianças e adolescentes fora da escola, 53% vivem em casas com renda per capita de até meio salário mínimo.

Um levantamento chamado Educar ou punir? A realidade da internação de adolescentes em unidades socioeducativas de Pernambuco reforça a informação. Cerca de 95% dos adolescentes infratores encaminhados para as unidades socioeducativas no estado não têm acesso à educação nem antes nem após serem inseridos no sistema, apresentando algum índice de atraso escolar. Para Marcelo, por exemplo, estudar é prejuízo. “O tempo que eu perco na escola, deixo de atender clientes na boca”, compara.

*Marcelo é apenas um dos personagens do especial Exército Juvenil feito por mim e Marcionila Teixeira com fotos e vídeos de Teresa Maia. Confira o trabalho no endereço: bit.ly/ExercitoJuvenil

Reportagem especial: a face invisível dos recrutados para o crime

A Superedição deste fim de semana do Diario de Pernambuco traz uma reportagem especial de cinco páginas sobre o recrutamento de crianças e adolescentes para o mundo do crime. O material foi produzido pela repórter especial Marcionila Teixeira e por mim. As fotos e o vídeo com vários depoimentos é de autoria da editora de fotografia, Teresa Maia. Confira os bastidores do especial que pode ser lido na versão impressa deste fim de semana ou através do hotsite que será lançado nesta segunda-feira.

 

Caso Mirella: audiência de instrução marcada para esta quarta-feira

Está marcada para esta quarta-feira (21) a primeira audiência de instrução e julgamento do comerciante Edvan Luiz da Silva, 32 anos. Ele é acusado de assassinar a vizinha, a fisioterapeuta Tássia Mirella de Sena Araújo. A audiência acontecerá na 3ª Vara do Tribunal de Júri da Capital, no Fórum Thomaz de Aquino. Além do crime de Mirella, Edvan passou a ser suspeito da morte de uma mulher assassinada no ano de 2013, no bairro do Cabanga. Ele e outros dois homens são investigados pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil de Pernambuco.

Edvan segue preso pela morte de Mirella. Foto: Marlon Diego/Esp.DP

Crime
A fisioterapeuta Tássia Mirella de Sena Araújo, 28 anos, foi encontrada morta na manhã do dia 5 de abril, na sala do flat onde morava, no 12º andar do edifício Golden Shopping Home Service, na Rua Ribeiro de Brito, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife. Vizinhos disseram que, por volta das 7h, ouviram gritos e acionaram o funcionário do prédio, que chamou a polícia.

Mirella tinha 28 anos e foi morta dentro de casa. Foto: Reprodução/Facebook

O corpo da vítima foi encontrado na sala do imóvel sem roupas e com ferimento à faca no pescoço, além de cortes nas mãos. O apartamento 1206 estava revirado, e os peritos encontraram manchas de sangue na porta do 1208, onde Edvan Luiz morava com a esposa. Os policiais bateram, mas como o morador não respondia, a porta foi aberta com ajuda de um chaveiro.

Em depoimento à polícia após ser detido, Edvan entrou em contradição. Dias depois, exames de DNA confirmaram a presença de fios de cabelo dele nas mãos de Mirella. Pele do réu foi localizada sob as unhas da vítima. O exame também apontou a presença de sangue de Mirella no apartamento de Edvan.

Um sistema que mata e não recupera: o desabafo de um conselheiro tutelar

Trabalhar com adolescentes em conflito com a lei não é tarefa fácil. Nunca foi. Mas existem pessoas que o fazem de coração e por acreditarem que esses meninos e meninas ainda possam ser recuperados e não entrem para o mundo do crime, onde se mata cada vez mais cedo. O blog recebeu esse texto escrito por um conselheiro tutelar e compartilha com vocês a visão dele e de muitos profissionais que estão todos dias na luta por um futuro melhor.

Mortes e rebeliões em unidades da Funase são uma constante. Foto: Bernardo Dantas/DP/D.A Press

Leia o texto na íntegra:

Desde a década de 20 do século passado, a história vem nos contando uma necessidade onde adolescentes e crianças eram presas por cometer furtos e demais atos, porém, desde a criação do Código de Menores até o ano de 1990, essas crianças e adolescentes eram apreendidos, mas não se fazia nenhum trabalho que visasse a recuperação, com apoio às famílias e ajuda das mais diversas formas para que os mesmos voltassem para suas famílias e continuassem se desenvolvendo.

Com o surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, no ano de 1990, dois anos após a Constituição de 1988, se teve um novo olhar, porque ficou explicitado que a Criança e Adolescente passa a ser Sujeito de Direito, e que os que cometem Ato Infracional com idade superior a 12 anos podem ser apreendidos no Sistema Sócio Educativo, que teria como finalidade o trabalho de estratégias para recuperação desse adolescente para que ele não volte a cometer tais delitos. Na contramão, temos uma prática que não recupera nossos adolescentes, são espaços superlotados, as unidades não seguem os parâmetros do SINASE e nem a estrutura social do país. Nem os estados e nem os municípios querem resolver usando os instrumentos teorizados e preconizados em instrumentos legais. Nosso país é extremamente desigual.

As famílias hoje têm problemas sérios e não conseguem conceber uma educação familiar. Temos hoje uma realidade de muitas famílias desestruturadas, um mercado de consumo que empurra o adolescente para o mundo do crime, em especial o tráfico que proporciona a compra de bens e ostentação, lembrando que muitas famílias não têm renda e por vezes esse adolescente que passa a traficar passa a ser o arrimo de família. Temos uma estrutura que empurra a sociedade para o crime e as mídias mostram que temos um sistema onde quem rouba milhões da Saúde e da Educação cumpre seus crimes ficando presos em casa.

Os estados, por sua vez, não cumprem o que deveriam cumprir no apoio às famílias. Nem nas políticas de inclusão desses adolescentes em políticas como “Jovem Aprendiz” e demais estratégias que venham a dar suporte para que o adolescente não volte a delinquir. Mas o que observamos nas unidades é que são presídios para adolescentes, lembrando que a função dos presídios é também trabalhar para a recuperação do detento dando todo o apoio para sua reinserção.

Nossos municípios, por sua vez, faz um “faz de conta” em relação ao acompanhamento das medidas de Liberdade Assistida, as equipes dos CREAS são reduzidas com profissionais que recebem pouco e que geralmente trabalham dois dias por semana em cada cidade para sobreviver. Vale ressaltar também a falta de estrutura nos CREAS municipais. E que muitos não são efetivos. Temos hoje uma sociedade a qual o filósofo francês Michel Foucault ressalta com a ideia de um estado que promove o “fazer viver, deixar morrer”, faz com que todos vivam “sobrevivam” e o deixar morrer vem da ideia de seres descartáveis que não têm como serem reutilizados.

As mortes que acontecem dentro dessas unidades nos últimos dois anos são praticamente mensais, cada mês 2 (dois) ou 3 (três), são mortos dentro desses “mini presídios” que não recuperam. E o que dizer às mães e aos familiares desses adolescentes mortos dentro de um lugar que deveria servir para recuperar vidas e não para tirar vidas. Independentemente do que cada um fez, ninguém e nem o Estado tem o direito de tirar a vida de ninguém. A vida foi dada por Deus e ele é que pode tirar.

Por Fernando Bezerra Mariano
Conselheiro Tutelar Cruz de Rebouças – Igarassu-PE

Acusado de matar modelo Danielle Fasanaro será julgado em junho

O Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) marcou para o próximo dia 6 de junho o júri popular do homem acusado de assassinar a modelo Danielle Solino Fasanaro, aos 35 anos. No dia 19 de junho de 2013, uma multidão acompanhou o desfecho do crime que marcou o bairro de Casa Caiada, em Olinda, e a memória dos amigos e familiares das vítimas. O tatuador Emerson Du Vernay Brandão, segundo a polícia, inconformado com o final do relacionamento, matou a ex-companheira.

O crime aconteceu no Edifício Estrela do Mar, onde Danielle morava com o filho, que na época tinha oito anos. Armado com uma pistola, Emerson matou Danielle Solino e fez o menino de refém. “Depois de quase quatro anos de luto na luta, consegui que o caso de Dani fosse para o júri popular. Assim, convido a todos para juntos virmos de pertinho a justiça finalmente sendo feita. Espero que ele seja condenado à pena máxima”, escreveu a irmã da vítima, Michelle Fasanaro, em sua rede social. O suspeito do crime segue detido no Presídio de Igarassu.

Família de Danielle Fasanaro, morta em 2013, ainda espera por justiça

Perto de completar quatro anos do crime, familiares da modelo Danielle Solino Fasanaro, morta aos 35 anos, ainda esperam por justiça. Até hoje, o suspeito pelo assassinato não foi julgado. No dia 19 de junho de 2013, uma multidão acompanhou aflita e assustada o desfecho de um crime que marcou o bairro de Casa Caiada, em Olinda, e a memória dos amigos e familiares das vítimas. Naquela manhã, o tatuador Emerson Du Vernay Brandão, então com 30 anos, segundo a polícia, inconformado com o final do relacionamento de quatro anos, decidiu matar a ex-companheira.

Michelle luta até hoje para ver Emerson condenado. Foto: Roberto Ramos/DP

Michelle luta até hoje para ver Emerson condenado. Foto: Roberto Ramos/DP

O cenário do crime foi o Edifício Estrela do Mar, onde a mulher morava com o filho, que na época tinha oito anos. Armado com uma pistola, Emerson matou Danielle Solino e fez o menino de refém. Familiares de Danielle seguem à espera do julgamento de Emerson. Temem que ele consiga deixar a prisão. “Não é possível que o culpado pela morte da minha irmã não vá a júri popular. Não vou desistir até que ele seja condenado pelo que fez”, disse Michelle Fasanaro. O suspeito do crime segue detido no Presídio de Igarassu.

Leia mais sobre o caso em:

O endereço da tragédia

O medo mais perto do que nunca

As ocorrências criminosas registradas contra bancos e instituições financeiras no interior do estado e até em municípios do Grande Recife já eram uma dor de cabeça para as autoridades de segurança pública. Agora, o problema ganhou proporções ainda maiores. Depois do ataque violento às duas agências bancárias localizadas na Praia de Porto de Galinhas, o principal ponto turístico do estado, o crime organizado chegou com força ao Recife.

Moradores da Zona Oeste da capital pernambucana acordaram apavorados nesta madrugada com barulhos de tiros e explosões. Mais de 20 homens, fortemente armados, invadiram a sede da empresa de transporte de valores Brinks, na Avenida Recife, e levaram cerca de R$ 60 milhões em espécie.

De acordo com a polícia, a quadrilha interestadual que agiu no Recife deixou um rastro seis veículos incendiados e outros quatro abandonados, além de diversas armas de grosso calibre. Num carro deixado nas imediações da Avenida Recife foram encontrados uma metralhadora AK 47 e uma pistolsa .50.

Às margens da BR-408, dentro do terreno da sede do clube campeste do Círculo Militar, que pertence ao Exército, nas imediações da Arena de Pernambuco, quatro carros foram abandonados, sendo dois caminhões, um veículo Sedan e uma Caminhonete. De acordo com a polícia, o local era de fácil acesso.

SDS falou sobre assalto à Brinks e segurança no carnaval. Foto: Wagner Oliveira/DP

SDS falou sobre assalto à Brinks e segurança no carnaval. Foto: Wagner Oliveira/DP

Em entrevista coletiva no final da manhã desta terça-feira, o secretário de Defesa Social, Angelo Gioia, disse que não restam dúvidas de que os criminosos são de outros estados e que seria uma questão de tempo prendê-los. O secretário destacou ainda que embora com armas muito menos potentes que os criminsosos, os militares responderam aos ataques dos criminosos. “Vamos vencer essa batalha. Nossos policiais são corajosos. No entanto, é preciso rever a questão do funcionamento e segurança dessas empresas de transporte de valores”, comentou Angelo Gioia.

Nessa história toda, uma coisa é certa: a população está em pânico. Muita gente até está pensando em nem botar o pé para fora de casa nos dias de carnaval. Apesar de tudo, o governo do estado tenta tranquilizar os pernambucanos. “Esse fato ocorrido hoje é grave, mas não vai alterar em nada o nosso planejamento do carnaval. Nosso efetivo está compromissado em oferecer segurança à população”, declarou o titular da SDS.

Leia mais sobre a violência em:

Ações ousadas contra bancos cada vez mais perto da capital

Estado condenado a indenizar mulher presa injustamente

Nove anos após dar entrada no pedido de indenização por ter sido presa injustamente sob a acusação de fazer parte de uma quadrilha de sequestradores, a comerciante Lúcia Silvania Bezerra, 38 anos, conseguiu sua primeira vitória na Justiça. O juiz Edvaldo José Palmeira, da 5ª Vara da Fazenda Pública do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) condenou o estado a pagar indenizações por danos morais à comerciante e ao seu filho, que na época era uma criança. Lúcia foi presa diante do menino e ficou longe dele por um ano, um mês e 17 dias, tempo em que ficou reclusa na Colônia Penal Feminina do Recife, no bairro do Engenho do Meio.

Foto: Cecilia de Sa Pereira/Aqui PE/D.A Press

Colônia Penal fica no Instituto Bom Pastor. Foto: Cecília de Sá Pereira/Aqui PE/D.A Press

O valor determinado pela Justiça foi de R$ 200 mil para mãe e filho. O advogado Afonso Bragança, no entanto, já adiantou que vai recorrer da decisão. O pedido feito pela vítima foi no valor de R$ 3 milhões para ela e o filho. O caso de Lúcia foi relatado pelo Diario de Pernambuco no mês passado, numa reportagem que trouxe à tona casos de injustiça ocorridos em Pernambuco. Lúcia foi presa em casa, aos 27 anos, no dia 30 de agosto do ano de 2005, sob a acusação de ter participado de um sequestro. Mesmo sem nunca ter mantido nenhum contato com os criminosos, foi indiciada pela Polícia Civil e presa. Lúcia teve o telefone celular roubado num assalto a ônibus. Ela prestou queixa do roubo mas não conseguiu bloquear a linha telefônica, que passou a ser usada pelos sequestradores para acertar o pagamento do resgate da vítima.

“Fiquei feliz com a condenação do estado, mas achei que o valor determinado foi muito baixo. É claro que nada nem dinheiro nenhum vai pagar o que eu passei. Eu fui enterrada viva naquele lugar. É uma pena o valor não ter sido o esperado. Agora vou ter que esperar mais alguns anos para saber qual o valor certo para receber. Mas saber que o estado foi condenado pelo erro já foi uma vitória”, declarou Lúcia Silvania. A sentança do juiz Edvaldo José Palmeira foi dada na última sexta-feira. Apesar da defesa ter entrado com pedidos de indenização por danos morais e materiais para mãe e filho, o magistrado condenou o estado ao pagamento apenas dos danos morais para os dois. A sentença ressalta que R$ 150 mil devem ser pagos referentes ao prejuízo de Lúcia Silvania e R$ 50 mil relativos ao filho dela.

Para o advogado, o valor determinado pela Justiça não está nem perto do esperado. “Apesar da decisão reconhecer o erro e a obrigação do estado em indenizar a minha cliente, entendemos que o valor arbitrado não é justo. Vamos recorrer dessa decisão para aumentar o valor da condenação. Além disso, o juiz só condenou o estado por danos morais. Vamos pedir que também ocorra a condenação por danos materiais. Lúcia ficou à disposição do estado por mais de um ano durante 24 horas por dia. Nesse período ela não teve condições de trabalhar, ficou doente e estava pagando por um crime que nunca cometeu. A prisão dela foi um grande erro”, ressaltou Bragança.

Depois do período atrás das grades, a polícia reconheceu o erro e pediu a soltura de Lúcia. No dia em que deixou a Colônia Penal, a primeira coisa que comerciante fez foi tomar um banho de mar. “Fui para a Praia de Boa Viagem e entrei no mar à noite”, recordou. A Procuradoria Geral do Estado informou que o estado ainda não foi intimado da decisão da condenação no processo de Lúcia Silvania.

Leia mais sobre o assunto em:

Injustiça: um mal comum na Justiça

Relembre cinco casos de injustiça ocorridos em Pernambuco

Prazo menor para julgamento de crime praticado por e contra policial

Da Agência Câmara

A Câmara dos Deputados analisa proposta que diminui prazos para processo e julgamento de crime praticado por e contra policial (PL 4836/16). Pelo texto, apresentado pelo deputado Alberto Fraga (DEM-DF), o processo e julgamento de crimes dolosos (com intenção) praticados por policiais, no exercício da função ou em razão dela, obedecerão ao rito de réu preso, ainda que este esteja solto.

Foto: Teresa MaiaDP/D.A Press

Acusados de crimes de homicídio vão a júri popular. Foto: Teresa MaiaDP/D.A Press

Fraga argumenta que ao estabelecer prazos processuais de réu preso, a proposta agilizará o processo, evitando o sentimento de impunidade das corporações policiais. Os prazos processuais são menores no caso de o réu estar preso. Por exemplo, o Código de Processo Penal (Decreto-Lei 3.689/41) prevê prazo de cinco dias para oferecimento da denúncia estando o réu preso, contados da data em que o órgão do Ministério Público recebe os autos do inquérito policial, e de 15 dias se o réu estiver solto ou afiançado.

“Daremos uma rápida resposta à sociedade com relação à responsabilidade penal dos criminosos travestidos de policiais”, afirma. “O policial, como o cidadão que é, deve acreditar na eficácia da Justiça. Esta é a única forma de afastar o sentimento de impunidade”, acrescenta o parlamentar.

No caso de crimes cometidos contra policiais, Fraga observa que eles têm sido fonte de violência, uma vez que o policial não acredita na Justiça, principalmente quando é vítima de crimes menores como o desacato. “Urge resgatarmos a autoridade natural do policial, bem como sua autoestima”, diz ainda o deputado.

Códigos
Ainda segundo o projeto, os processos para promoção da responsabilidade penal de policiais terão prioridade sobre os demais processos, exceto o habeas corpus e o mandado de segurança. As regras valerão para os casos enquadrados no Código de Processo Penal e no Código de Processo Penal Militar (Decreto-Lei 1.002/69). No caso do Código de Processo Penal Militar, os procedimentos serão aplicados aos militares dos estados e do Distrito Federal se o crime for cometido contra civis.

Onda de crimes em Aldeia deixa moradores assustados

Um local que já foi considerado um dos mais tranquilos do Grande Recife para moradia voltou a ser palco da violência. Dezoito dias depois que moradores de Aldeia, em Camaragibe, realizaram um protesto pacífico para cobrar mais segurança para a localidade, mais um crime foi registrado. Dessa vez, por volta das 5h de ontem. O estudante de direito João Lucas Ochoa de Siqueira, 22 anos, foi baleado no rosto depois que teve seu carro roubado no Km 3,5 da Estrada de Aldeia. João foi abordado por três homens numa caminhonete Strada. Eles anunciaram o assalto e um deles atirou no vidro do carro do universitário.

Estudante fico caído no chão após ter sido baleado. Fotos: João Velozo Esp./DP

Estudante fico caído no chão após ter sido baleado. Fotos: João Velozo Esp./DP

O disparo atingiu o rosto de João, que foi socorrido e levado para a Unidade de Pronto Atendimento e depois para o Hospital Português. O carro dele, um Voyage, foi encontrado no Córrego do Jenipapo, no Recife. Peritos papiloscopistas realizaram a perícia no veículo ontem à tarde e recolheram alguns objetos encontrados no automóvel. A Polícia Militar de Pernambuco (PMPE) afirmou que todos os esforço estão sendo feitos para tentar conter a criminalidade no local. O caso ocorrido com João Lucas deixou assustados moradores que já pensam em criar mecanismos próprios para garantir a segurança das suas famílias.

O pai da vítima, o médico neurocirurgião e advogado Gláucio Veras, disse que o filho voltava para casa quando sofreu o assalto e que ele, mesmo sem ter reagido, foi baleado e deixado caído no chão. João foi submetido a uma cirurgia e está na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ainda segundo o pai, a bala atingiu a face e saiu pelo pescoço. “Meu filho disse que não reagiu. Já tinha havido um tiroteio em outro local e eles (suspeitos) chegaram, tomaram o carro, atiraram e jogaram meu filho no chão. Em plena luz do dia, com gente, ônibus, carro, tudo passando. Não é a primeira vez que isso acontece e providência que é bom, é zero”, desabafou o médico que mora em Aldeia com a família há 22 anos.

O carro da vítima foi periciado ontem na sede do DHPP, no Cordeiro

O carro da vítima foi periciado ontem na sede do DHPP, no Cordeiro

Gláucio Veras reclamou ainda do socorro prestado ao filho. “Um caso de trauma não deveria ter sido levado para a UPA. Eu e minha mulher, que é enfermeira, chegamos na UPA e encontramos o médico pedindo pelo amor de Deus por uma senha para a ambulância levar meu filho. Arranjamos uma ambulância sem soro e dois colegas da UPA vieram. Outra ambulância do 192 precisou ir na frente abrindo caminho porque a ambulância que meu filho estava não tinha sirene. Tenho 64 anos, trabalho em hospitais há muitos anos, e nunca vi um negócio desse”, reclamou o pai.

O crime deixou assustados moradores da Estrada de Aldeia, que relatam não aguentar mais a violência que invadiu a localidade. No último dia 2, o idoso Nilton José Dias, 62, foi morto ao tentar reagir a um assalto em uma farmácia no Km 10. Dois homens entraram armados mandando todos se deitarem no chão. A vítima teria tirado uma faca da bolsa para se defender quando um dos assaltantes disparou contra ele. O suspeito do crime foi preso no dia 13, na Ilha de Itamaracá.

Tânia Andrade relata o aumento nos casos de assalto em Aldeia

Tânia Andrade relata o aumento nos casos de assalto em Aldeia

“Moro em Aldeia há 45 anos e antigamente não era violento assim. Não vou dizer que acontecem assaltos todos os dias, mas eles são cada vez mais frequentes. O caso desse rapaz mesmo aconteceu muito perto da minha casa e ninguém ouviu nada. Quando eu saí com os cachorros para passear eram 6h30 e tudo já havia acontecido. Só vi o sangue no chão e um carro abandonado”, contou Tânia Andrade, 56 anos. Ainda segundo a moradora de Aldeia, na última quarta-feira duas pessoas foram assaltadas ao lado de sua casa por homens que estavam em uma motocicleta.

A Polícia Militar informou, através de assessoria de imprensa, que o policiamento na Estrada de Aldeia e adjacências é feito pelo 20º Batalhão como o apoio de outros quatro batalhões e duas Companhias Independentes. “Estamos realizando abordagens nas rotas de fuga, vamos ampliar o programa de Olho na Rua, que tem ligação direta com alguns condomínios e estamos colocando em prática ações de combate à criminalidade. Reconhecemos as ocorrências de assaltos na área, mas estamos trabalhando para inibir os crimes. No mês passado, quatro homens que praticavam assaltos na região utilizando motos foram presos por policiais militares”, destacou o major Júlio Aragão, da comunicação da PMPE.