Policiais civis absolvidos da morte de agente federal

A Justiça Federal de Pernambuco (JFPE) absolveu os dois policiais civis envolvidos no episódio que resultou na morte de um agente da Polícia Federal, em janeiro de 2011, durante um tiroteio na BR-232, no Curado. O policial federal Jorge Washignton Cavalcanti de Albuquerque, 57 anos, foi morto com um tiro no peito. O caso teve grande repercussão na época e causou mal-estar entre a PCPE e a PF.

Reconstituição do tiroteio esclareceu as dúvidas do Ministério Público Federal

Reconstituição do tiroteio foi feita em junho de 2012. Foto: Wagner Oliveira/DP/D.A Press

Os policiais civis e federais estavam em operações distintas para prender o mesmo traficante, mas nenhuma das esquipes tinha conhecimento da investigação da outra. Durante a abordagem ao suspeito, os agentes da civil (Denarc) e os federais se encontraram descaracterizados, o que culminou numa intensa troca de tiros. Na ocasião, outros dois policiais federais foram baleados.

A investigão conduzida pela Polícia Federal concluiu que os policiais civis Fabiano Ponciano da Silva e Leandro Barbosa de Souza foram responsáveis pela morte do agente federal. A dupla chegou a ser denunciada pelo Ministério Público Federal (MPF) por homicídio culposo. Em sentença publicada no dia 13 deste mês, a Justiça Federal julgou improcedente o pedido deduzido na denúncia do MPF e absolver os dois acusados.

Leia mais sobre o caso em:

MPF denuncia policiais civis envolvidos no tiroteio com a PF

Delegacias do estado agonizam

Levantamento feito pelo Sindicato dos Policiais Civis de Pernambuco (Sinpol-PE) em 172 delegacias de Pernambuco entre os dias 14 de abril e 16 de maio deste ano revelou que as unidades policiais do interior do estado estão agonizando. O relatório foi produzido a partir de 11 dias de visitas na Região Metropolitana do Recife (RMR), Zona da Mata, Agreste e no Sertão e teve como objetivo denunciar as condições precárias dos prédios.

Fotos: Sinpol/Divulgação

Um dossiê com as conclusões da inspeção foi preparado pela diretoria do Sinpol e encaminhado ao secretário de Defesa Social, Alessandro Carvalho, e ao chefe da Polícia Civil, Osvaldo Morais, para que os reparos sejam feitos com urgência.

A situação das delegacias pernambucanas tem sido alvo de preocupação não só do Sinpol. Em março do ano passado, a pesquisa Perfil das Instituições de Segurança Pública feita pelo Ministério da Justiça mostrou que Pernambuco tinha uma delegacia para cada 41.232 habitantes. E mais: apenas 10% das delegacias existentes no estado eram especializadas.

A publicação apresentada com base nos dados colhidos no ano de 2011 apontou que Pernambuco, juntamente com Ceará, Rio de Janeiro e Distrito Federal, tinha a menor quantidade de delegacias em relação à população estadual.

Sobre as vistorias realizadas às unidades policiais recentemente, o presidente do Sinpol, Cláudio Marinho, informa que algumas estão em situação de interdição. “Em alguns prédios, é humanamente impossível trabalhar. Algumas cidades têm delegacias que estão sob risco de serem atingidas por deslizamentos de barreiras. Precisam de reformas urgentes”, apontou Marinho.

O diretor do Sinpol Marcos Pereira informou que depois do último levantamento feito pelo sindicato em 2012 algumas delegacias foram reformadas. “No entanto, muitas outras cidades estão em situação lastimável. Os funcionários estão fazendo cotas para cobrir as despesas com a limpeza das unidades”, completou Pereira.

Por meio de nota, a assessoria de imprensa da PCPE afirmou que desde o lançamento do Pacto pela Vida, em 2007, a Polícia Civil promoveu, até o momento, “grandes reformas em 81 unidades policiais através de um novo projeto arquitetônico. Mais de R$ 10 milhões foram investidos em obras de recuperação e construção de delegacias e outras unidades do interior passam por pequenas reformas frequentemente”.

A nota diz ainda que a partir do projeto arquitetônico idealizado para as delegacias que receberam reformas, duas delas, como a da Várzea e a de Tejipió receberam, no ano de 2011, o prêmio de qualidade em atendimento e instalações do Instituto Altus Global Alliance – ONG Internacional. A PCPE informou ainda que a Divisão de Projetos continua desenvolvendo projetos de reformas e construções para outras delegacias na capital e interior do estado.

Polícia Militar poderá ser responsável por fiscalização ambiental

A Câmara dos Deputados analisa o Projeto de Lei 7422/14, do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que inclui a Polícia Militar entre os órgãos competentes para fiscalizar atividades que degradam o meio ambiente. Pelo texto, os policiais militares também poderão lavrar auto de infração ambiental e instaurar processo administrativo para esses crimes.

Atualmente, a Lei 6.938/81, que institui a Política Nacional do Meio Ambiente, determina que somente os órgãos ou entidades estaduais integrantes do Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama) podem realizar atividades de controle e fiscalização de atividades potencialmente degradantes do meio ambiente.

A Lei dos Crimes Ambientais (9.605/98) também autoriza apenas funcionários de órgãos ambientais integrantes do Sisnama, designados para as atividades de fiscalização, a lavrar auto de infração ambiental e instaurar processo administrativo.

De acordo com Bolsonaro, no entanto, a polícia militar já realiza essas tarefas, por força de normas locais. “Em razão da inexistência de previsão expressa nas leis ambientais, não há padronização das ações vinculadas às polícias militares”, afirma.

Da Agência Câmara

O desabafo da família de uma vítima da impunidade

Há 11 anos, os familiares de Lara de Menezes Albert esperam por justiça. A garota foi atingida por um tiro quando estava dentro de casa, no bairro de Boa de Viagem.

Leia o e-mail enviado na íntegra à redação:

Hoje, dia 24 de junho, completou-se onze anos da tragédia da qual nossa família foi vítima. Lara de Menezes Albert, à época com 07 anos de idade, foi subitamente atingida na cabeça por um disparo de arma de fogo, enquanto assistia à televisão na sala do seu apartamento. Naquela fatídica noite, os fogos juninos, ao contrário de simbolizarem a alegria e felicidade típica da época, marcaram a dúvida acerca da sua sobrevivência, o que, por intervenção divina, acabou por acontecer.

Lara tinha sete anos quando foi baleada. Fotos: Teresa Maia/DP/D.A Press

Lara tinha sete anos quando foi baleada. Fotos: Teresa Maia/DP/D.A Press

A investigação policial atribuiu a responsabilidade pelo disparo a Tibério Gentil Figueiredo de Lima e que, por ironia, era um tenente da policia militar de Pernambuco, pago pelo Estado para promover a segurança da população. O que torna o caso ainda mais grave é constatar que o autor do tiro, que quase ceifou a vida de uma inocente, apesar de ter sido condenado em todas as instâncias no Tribunal de Justiça de Pernambuco, nunca cumpriu sequer um dia da pena, favorecido pelo instituto da prescrição. Do mesmo modo, o processo administrativo, instaurado na Corregedoria da Polícia Militar – PE, também prescreveu, razão pela qual o atual capitão continua exercendo sua profissão sem maiores obstáculos.

Marca de tiro ficou na parede da sala

Marca de tiro ficou na parede da sala

Inegável: ainda que o instituto da prescrição seja capaz de fazer a Justiça “esquecer”, pela passagem do tempo, determinados fatos, ele não é aplicável às memórias do coração. Por isso, nas noites de São João, para nossa família, as fogueiras queimando reacendem o sentimento de revolta, ao lembrar-nos que os estrondos ouvidos naquela noite, infelizmente, não eram de simples fogos de artifício.

Todavia, hoje a nossa intenção não se resume apenas a reprisar os momentos de desespero vividos pela nossa família. A nossa grande missão, neste momento, é continuar denunciando esse caso, que engrossa as estatísticas da impunidade, contribuindo para disseminar a violência. É comum ver nos jornais diários notícias divulgando casos de famílias destruídas pela ação irresponsável de quem acionou uma arma e disparou uma “bala perdida” no corpo de um inocente.

Por outro lado, há motivos para comemorar. Depois de um período de dificuldades, Lara se encontra em processo de recuperação, desenvolvendo gradualmente as atividades normais de uma jovem com sua idade.
Nós, família de Lara, agradecemos a todos os amigos, aos parentes e aos profissionais de diferentes áreas que nos ajudaram e continuam ajudando nessa árdua caminhada, que ainda não terminou.

Por fim, acreditamos na existência de instâncias superiores, não terrenas, para as quais, assim como o coração, a prescrição é inaplicável e a justiça, por consequência, inexorável. Diante delas, as instâncias componentes da justiça mundana não são senão meras tentativas vãs de restabelecer o equilíbrio das coisas, imperfeitas por natureza.

Que Deus ilumine a vida de todos vocês!

Lara e Família.

Tentativa de homicídio que resultar em lesão leve pode ter pena amenizada

A Câmara dos Deputados analisa proposta que deixa de considerar como crime hediondo o homicídio qualificado tentado, desde que resulte em lesão leve à vítima. A medida está prevista no Projeto de Lei 6145/13, do deputado Enio Bacci (PDT-RS).

O texto, que altera a Lei de Crimes Hediondos (8.072/90), entretanto, mantém a tipificação como hediondo para o homicídio qualificado na forma tentada se o ato resultar em lesão grave ou gravíssima. “Não seria razoável a aplicação da pena máxima para o homicídio tentado que resulta em lesão leve e nos mesmos parâmetros para quem pratica homicídio consumado qualificado ou tentado com resultado de lesão grave ou gravíssima”, argumenta o autor.

Os crimes hediondos são atos passíveis de punição que recebem tratamento mais severo pela Justiça, entre os quais os crimes de tortura, tráfico de entorpecentes e terrorismo.

Da Agência Câmara

O outro lado do Pacto pela Vida

Não é de hoje que o blog vem recebendo e-mails e ligações com reclamações de servidores das polícias Civil e Militar sobre a falta de reconhecimento por parte do governo do estado para com os servidores. As queixas vão desde a falta de equipamentos de segurança aos baixos salários pagos aos policiais.

Em visita ao Complexo Policial de Prazeres, em Jaboatão, conversei com o delegado Ramon Teixeira, que atualmente responde pela 12ª Delegacia de Homicídios. Numa conversa em sua sala, Ramon traduziu através de uma entrevista o sentimento que afirma ser de todos os servidores da segurança pública estadual.

Antes de assumir o posto atual, o delegado trabalhou com toda a sua equipe na circunscrição de Cavaleiro, também em Jaboatão, durante três anos e meio e conseguiu deixar o bairro de Cavaleiro por mais de 180 dias sem um homicídio. Historicamente, Cavaleiro era conhecido como um dos bairros mais violentos do estado.

Atualmente, em Piedade há um ano, a equipe comandada por Ramon apresenta uma redução de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs) de 43% quando comparado ao mesmo período do ano passado, e um índice de resolução de homicídios de 75%. Confira o desabafo do delegado na entrevista abaixo:

“Temos os melhores índices de resolução de crimes e os piores salários do Brasil”

 

Delegado Ramon. Foto: Arquivo pessoal

Delegado Ramon Teixeira. Foto: Arquivo pessoal

Qual a sua avaliação sobre o Pacto Pela Vida?
O Pacto Pela Vida pernambucano é, num plano teórico, um programa de segurança pública muito interessante, no sentido de buscar uma atuação integrada entre diversos órgãos direta e indiretamente responsáveis pelo enfrentamento ao crime. Pode-se afirmar, de certa forma, que a execução desse projeto foi bem-sucedida nos sete anos anteriores, mas sua conclusão, lamentavelmente, está sendo algo terrível em 2014.

E o que mudou neste ano no Pacto Pela Vida?
Nada, e é exatamente essa a razão do problema. Os números conquistados pelo Pacto Pela Vida comprovam o sucesso do programa quanto à redução da quantidade de homicídios cometidos no estado, porém é preciso assinalar que, entre suas premissas basilares, se encontravam a formação, a capacitação e, especialmente, a valorização do servidor público. Apesar de muito prometer, contudo, o governo do estado não valorizou devidamente o seu policial, que é o servidor público diretamente responsável por tal sucesso; ironicamente, o resultado dessa negligência também pode ser expresso em números.

Então, o senhor acredita que o PPV pode ter resultado negativo neste ano?
Certamente. O Pacto Pela Vida caminha, pela primeira vez em oito anos, para um aumento no número de homicídios, grosso modo, por não valorizar seu policial. Trata-se, evidentemente, de um processo de desgaste paulatino e contínuo, não ocorre da noite para o dia; foram anos de espera por um merecido reconhecimento que, apesar das promessas governistas, nunca veio. Por isso, naturalmente, o inconformismo dos policiais civis e militares culminou em manifestações públicas de insatisfação e chegou, no caso desta última, à deflagração de greve.

Recentemente, foi publicada no blog uma pesquisa feita pelo delegado Igor Leite, na qual 94% dos delegados afirmaram estar insatisfeitos. O motivo da insatisfação é exclusivamente salarial?
Não, o problema não é simplesmente remuneratório, com a mais absoluta certeza. É, sobretudo, a falta de valorização profissional que indigna a quase todos os delegados daqui – a remuneração consiste somente no lado financeiro da questão. Quer ver? A mesma pesquisa por você citada aponta que 91% dos delegados pernambucanos trocariam, se pudessem, seu cargo por outra carreira jurídica com salário equivalente ou superior. Noutras palavras, nove em cada dez delegados de polícia pernambucanos preferiam ser, por exemplo, delegados de polícia em qualquer outro estado da federação que lhes pagasse pelo menos a mesma coisa! Isso é um retrato do cenário desolador em que se encontram esses dedicados profissionais em Pernambuco.

Em que consiste, na prática, essa desvalorização profissional?
Consiste no injustificável descompasso entre o volume de trabalho existente, o nível de cobrança exercido sobre a produtividade, a qualidade dos resultados alcançados pelos ocupantes do cargo e a sua realidade remuneratória. Ora, se você trabalha por absurdas 64 horas semanais ou mais, é diariamente demandado por cada homicídio ocorrido em sua área de atuação territorial, apresenta os melhores índices de resolução de crimes entre todas as Polícias Civis do país e recebe o segundo pior salário da categoria no Brasil – caso dos delegados de polícia pernambucanos –, como não se indignar? Como não se sentir injustiçado, frustrado, desvalorizado?

Os delegados de Pernambuco recebem o 2º pior salário do país?
Sim, alguns reais a mais do que o último lugar do ranking nacional, o Espírito Santo. Delegados de polícia pernambucanos têm uma remuneração bruta inicial, acredite, cerca de duas vezes e meia menor do que a dos delegados goianos em início de carreira. Então é isso, por si só, que indigna a todos aqui? Com certeza, não. É, sim, o fato de que Goiás, a título de exemplo, contabiliza 44,3 homicídios por 100 mil habitantes, ao passo que Pernambuco, segundo dados do Mapa da Violência de 2014, atingiu a marca de 37,1 homicídios por 100 mil habitantes. Indigna o fato de que Pernambuco foi o único estado nordestino a apresentar diminuição no número de homicídios na última década, embora os delegados de polícia pernambucanos sigam com o pior salário da região Nordeste.

O senhor falou em uma carga horária de 64 horas por semana ou mais, é essa a jornada de trabalho de um delegado de polícia em Pernambuco?
Para muitos, é, sim. Há alguns anos, o governo do estado de Pernambuco criou uma espécie de sistema de complementação salarial, o chamado Programa de Jornada Extra de Segurança, PJES, que consiste na remuneração por blocos de horas trabalhadas em regime de plantão, além do horário normal do expediente. No âmbito da Polícia Civil, essa jornada de trabalho extraordinário vem sendo há anos remunerada pelo estado de Pernambuco, no entender da ADEPPE, em descumprimento da legislação vigente, pagando por meio de decreto valores que chegam a ser quase sete vezes menores do que o efetivamente devido na forma da lei, o que seria, por óbvio, ilegal conforme esse entendimento.

Essa é uma queixa só dos delegados ou de todos os policiais civis?
Os ocupantes de todos os cargos policiais civis, sem sombra de dúvida, têm as mesmas reclamações a fazer. Insiste-se na ideia de que o cerne da indignação dos policiais civis está na falta de valorização profissional; portanto, quem integra os quadros da instituição que, em alguns aspectos, funciona como o motor do Pacto Pela Vida, mas é tratado pelo governo como coadjuvante e descartável, fica justamente inconformado.

Recentemente, o governador João Lyra Neto afirmou não ser possível negociar aumento salarial para os delegados da Polícia Civil, assim como para os PMs que entraram em greve alegando que não podia mais negociar em ano eleitoral. Como o senhor vê essa posição do governo do estado?
Sob o argumento da legislação eleitoral, vejo como inverídica. É possível, sim, negociar a reestruturação da carreira nos termos propostos por representantes da ADEPPE, mas, em vez de adentrar o viés jurídico da questão, prefiro trazer à tona que, logo depois das declarações do chefe de nosso poder executivo estadual, o governo potiguar encaminhou e a Assembleia Legislativa aprovou significativo reajuste salarial para policiais e bombeiros militares; além disso, foi igualmente noticiado, na mesma época, que o governo federal acordou um reajuste salarial para agentes, escrivães e papiloscopistas da Polícia Federal. Ora, seria apenas em Pernambuco que a legislação nacional supostamente vigeria, ou se trataria esse, verdadeiramente, de um argumento não compatível com a realidade?

O senhor, como delegado de polícia, está naquele grupo de insatisfeitos com o cargo e trocaria de carreira jurídica se pudesse?
Tristemente, no atual cenário, sim. Veja, o mínimo que se espera de um ente federativo é que valorize seus servidores públicos, para que sempre produzam com mais qualidade e eficiência. Se você, estado, não os valoriza e não lhes reconhece o trabalho duro, você irá perdê-los. Considero-me, sem falsa modéstia, muito bom no que faço – não por talento ou outra qualidade individual inata, mas por trabalhar muito e dedicadamente. Recusei-me, já delegado de polícia em Pernambuco, a tomar posse em dois concursos públicos financeira e geograficamente mais vantajosos para mim, simplesmente porque, vocacionado para o cargo, acreditei nas promessas governistas de valorização profissional da carreira. Vários outros delegados de polícia, aqui talvez falando de dezenas de profissionais, passaram por situação semelhante; hoje, acredito que nenhum deles tomaria igual decisão. Há delegado de polícia em Pernambuco, acredite se quiser, disposto a se licenciar sem remuneração apenas para estudar para sair, tamanha sua indignação com a presente conjuntura.

O senhor acredita que a insatisfação pode afetar a qualidade do trabalho policial?
Acredito que todos com quem trabalho muito bem sabem que não somos servidores públicos do governo, nem trabalhamos para um programa de segurança pública. Somos servidores públicos do estado, trabalhamos para a sociedade e dela fazemos parte, para a qual desejamos, pessoal e profissionalmente, proporcionar a melhor qualidade de vida possível. Se conseguirmos gerar, por meio de nosso trabalho, um pouco mais de segurança ao cidadão, então o trabalho estará sendo realizado a contento, independentemente de nosso estado de espírito.

Núcleo de DNA pernambucano vira referência nacional

Por Raphael Guerra

Ainda com sede provisória e numa equipe formada por apenas cinco peritos criminais, o Laboratório de Perícia e Pesquisa em Genética Forense de Pernambuco está conseguindo desvendar, em média, 30 a 40 casos de crimes sexuais por mês. Desses, 10% a 20% dos suspeitos – alguns deles presos – são considerados inocentes, graças aos exames de DNA.

Fotos: Alcione Ferreira/DP/D.A Pres

Fotos: Alcione Ferreira/DP/D.A Pres

O laboratório, inaugurado em 2012, virou referência no Norte-Nordeste.
“Estamos conseguindo resolver os casos com mais agilidade porque o estado passou a coletar melhor as amostras, como saliva, pêlos e manchas de sangue”, afirmou a gestora do laboratório, Sandra Santos. Segundo ela, em geral, os suspeitos de envolvimento em abusos sexuais não se negam a fornecer material genético para análise, o que facilita o confronto de dados para comprovação da autoria do crime.

Mensalmente, a polícia encaminha ao laboratório 70 amostras para estudo. Aproximadamente metade deles estão relacionados aos abusos sexuais. Os cinco peritos que formam a equipe em Pernambuco possuem especialização e mestrado em genética ou biologia molecular. Uma auxiliar legista, especialista em perícia criminal, completa o grupo.

No último mês, peritos do Instituto de Criminalística do Piauí procurou apoio de Pernambuco para desvendar oito casos, sendo quatro relacionados a identificação de cadáveres e outros quatro sobre crimes de cunho sexual. “Em duas semanas de trabalho, concluimos todas as análises”, contou a gestora do laboratório.

Além do Piauí, estados como Tocantins e Maranhão também encaminham material para estudo no laboratório pernambucano, cuja sede provisória fica em Prazeres, Jaboatão dos Guararapes. A Secretaria de Defesa Social prometeu para outubro do ano passado a inauguração da sede permanente, mas as obras atrasaram e ainda não há nova previsão para conclusão. O prédio, que será mais amplo, ficará em Santo Amaro, área central do Recife.

Missa de um ano em memória de Danielle Fasanaro é celebrada nesta quinta-feira

Nesta quinta-feira está fazendo um ano que a modelo Danielle Solino Fasanaro, 35 anos, foi assassinada pelo tatuador Emerson Du Vernay Brandão, 27, que se apresentou à polícia com o nome de André Cabral Muniz. Ele tinha um relacionamento com a vítima e resolveu cometer o crime quando a jovem disse que não queria mais continuar a relação.

Hoje, os familiares e amigos de Danielle participarão de uma missa em memória da sua alma. A celebração acontecerá às 19h na igreja do Morro da Conceição. Os familiares contam com a presença de todos. O suspeito pelo crime que aconteceu em Olinda, no Grande Recife, segue preso no Centro de Triagem, em Abreu e Lima. Até agora apenas uma audiência de instrução foi realizada.

Leia mais sobre o caso em:

Danielle Fasanaro: 11 meses e nenhuma resposta

Programa de cura da violência

Criado em 2001, na cidade de Chicago, nos Estados Unidos, o programa Cure Violence vem obtendo bons resultados no quesito redução de violência em comunidades carentes. A organização treina membros da localidade para que eles passem a fazer a intermediação nos conflitos existentes na região e evitar que novos ocorram.

Chicago desenvolve programa pioneiro de enfrentamento à violência (CHICAGO TOURISM/DIVULGAÇÃO)

Segundo o diretor internacional da Cure Violence, Brent Decker, o homicídio é a 2ª causa principal de morte dos norte-americanos com idades entre 15 e 34 anos. Em passagem pelo Recife, na semana passada, Brent participou do seminário Prevenindo Homicídios e Interrompendo o Ciclo da Violência, na UFPE, a convite do professor e pesquisador José Luiz Ratton.

Durante o evento, o ex-presidiário Frankie Sanchez, que deixou a prisão há cerca de seis anos, falou sobre a sua experiência como interruptor de violência na comunidade onde mora.

Foto: Guilherme Verissimo/Esp.DP/D.A P  Pauta:

Foto: Guilherme Verissimo/Esp.DP/D.A P
Pauta:

Entrevista especial >> Frankie Sanchez

“Passei 25 anos da minha vida preso”

O que você fazia antes de entrar para o Cure Violence?
Eu nasci em Chicago, nos Estados Unidos, nunca conheci meu pai e perdi minha mãe quando tinha apenas cinco anos. Aos 11 de anos de idade passei a fazer parte de uma gangue e, aos 13, fui preso por ter atirado em uma pessoa. Poucos anos depois, fui libertado e voltei para as ruas. Quando completei 18 anos fui detido novamente porque acabei cometendo um homicídio. No total, acabei passando 25 anos da minha vida dentro das unidades prisionais norte-americanas. Hoje estou com 47 anos e consegui retomar a minha vida. Quando eu voltei para casa, foi muito difícil encontrar um emprego. Foi então que um amigo me convidou para fazer parte do Cure Violence. Achei que era uma boa opção. Agora fiz a escolha certa.

Como foi a sua infância sem a presença do seu pai e com a morte da sua mãe quando você tinha apenas cinco anos?
Não foi fácil viver sem os meus pais desde muito novo, mas também não posso dizer que foi a ausência deles que me fez entrar no mundo do crime. Acabei fazendo coisas erradas e ainda muito novo já estava envolvido com a criminalidade. Além disso, mesmo depois que já estava preso, continuei comandando gangues e participando de crimes durante dez anos. Foi uma escolha minha mesmo. Escolhi o caminho errado.

Quais foram os crimes que você cometeu e o que o levou a fazer isso?
Primeiro, ainda quando era adolescente, atirei contra uma pessoa e fui punido por isso. Foi uma retaliação. Depois, numa briga entre dois grupos, acabei matando uma pessoa, que também estava atirando contra o meu carro. Fui condenado a 70 anos de prisão. Em comunidades como a minha era frequente os garotos novos entrarem no mundo do crime devido à falta de oportunidades. Hoje desenvolvo trabalhos com muitos jovens que são filhos de amigos meus.

O que você fez durante todos esses anos na prisão?
Além de aprender a tratar com todo tipo de criminoso, também continuei ordenando a prática de crimes do lado de fora da prisão. No entanto, também aproveitei o tempo encarcerado para estudar. Durante a internação na unidade para adolescentes, terminei o colegial. Na prisão de adultos, continuei os estudos, mas quando estava perto de conseguir minha liberdade acabei sendo transferido para uma unidade de segurança máxima porque eu era apontado como um líder de gangue. Lá eu ficava preso numa cela solitária durante 23 horas. Tinha apenas uma hora para sair do castigo. Com isso, acabei sem terminar meus estudos. Como agora estou livre e trabalhando, vou voltar a estudar e fazer uma faculdade. E agora vai ser mais fácil porque o programa vai pagar meus estudos. Tenho que me dedicar bastante.

Você já recebeu afrontas ou ameaças das pessoas com as quais precisa trabalhar?
Inicialmente, eu compareço no local onde está ocorrendo o fato, às vezes até em tiroteios, mas preciso resolver a situação e sair fora. As pessoas podem fazer o que quiserem comigo. Podem me ameaçar, agredir verbalmente, contanto que não me agridam fisicamente. Se não houver pessoas me agredindo, se não partirem para bater em mim ou tentar alguma coisa do tipo, eu sei me controlar.

O que você sente vendo tantas pessoas jovens sendo assassinadas na sua comunidade?
Meu coração fica quebrado. Eu faço todo o possível para que o pior não aconteça. Fico muito triste quando vejo as pessoas da minha comunidade sendo presas ou assassinadas. Já perdi as contas de quantos funerais eu acompanhei de pessoas conhecidas depois que deixei a prisão. Meu trabalho não é uma profissão fácil. Trabalho com o pior do pior. Em agosto do ano passado, eu levei um tiro e as pessoas da comunidade ficaram muito tristes. É um trabalho penoso, mas precisamos seguir em frente.

Quantas pessoas você acredita que conseguiu tirar do mundo do crime?
Se cada uma das pessoas dessas comunidades tivesse uma profissão decente, seria muito mais fácil tirá-las do mundo do crime. No entanto, fica praticamente impossível dizer quantas vidas eu consegui salvar com o meu trabalho. O nosso objetivo é reduzir ao máximo o número de assassinatos na comunidade. Na semana passada, uma pessoa foi baleada na minha comunidade e eu fui até lá. A primeira providência que a gente deve tomar é tirar as crianças e os adolescentes daquele ambiente negativo. Tenho que fazer com que as pessoas se afastem daquela situação. Nosso trabalho exige que tenhamos ouvidos atentos, para evitar tudo de ruim que possa vir a acontecer. Hoje eu sei exatamente a postura que preciso ter para chegar nas comunidades. Além disso tenho feito palestras em várias escolas.

O que a comunidade acha desse trabalho realizado por profissionais como você?
Logicamente, eles têm uma visão muito positiva, já que envolve a vida dos filhos, dos primos, dos sobrinhos, enfim, dos parentes deles. Todo mundo torce para que o programa tenha bons resultados. Por exemplo, na comunidade onde eu moro, Little Village, muitas crianças e adolescentes acabam se espelhando no exemplo dos interruptores para mudar de vida. Eles precisam acreditar no trabalho que estamos fazendo. Quando vejo grupos de jovens no meio da rua, e identifico que alguma daquelas pessoas não é legal, chego perto e mando os meninos irem para casa. Muitas vezes nós assumimos o papel de irmão, de pai e temos contato com vários líderes de gangue.

Saiba mais

O programa:
Cure Violence ou Curando a Violência

Área de atuação:
Estados Unidos, Honduras e Quênia

Ano de criação:
2001

Objetivo:
Evitar conflitos e mortes nas comunidades carentes

Modelo:
O modelo de trabalho é baseado na experiência pessoal de cada pessoa

Exemplo:
O Núcleo de Estudos e Pesquisas em Criminalidade, Violência e Políticas Públicas de Segurança da UFPE estuda a possibilidade de implantar programas parecidos de empoderamento e mediação comunitária em algumas áreas do Recife

 

Denúncias de violência contra a mulher no Ligue 180 aumentam 60%

A ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, disse hoje (18) que as denúncias de violência contra a mulher recebidas pelo Ligue 180 nas últimas três semanas aumentaram em 60%. As ligações passaram de uma média de 12 mil para 20 mil por dia.

A ministra Eleonora Menicucci fala no Programa Bom Dia, Ministro, sobre a campanha Violência contra as Mulheres (Elza Fiúza/Agência Brasil)

Eleonora Menicucci atribuiu esse aumento à campanha nacional “Violência contra as mulheres – Eu ligo”, que visa a estimular as denúncias por meio da Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180. A campanha foi lançada no dia 25 de maio e incluiu um novo aplicativo para celular chamado Clique 180, que pode ser baixado na internet.

O aplicativo permite o acesso direto ao Ligue 180 e contém informações sobre os tipos de violência contra a mulher, dados de localização dos serviços da rede de atendimento e proteção, além de sugestões de rota para chegar até eles.

“A violência contra a mulher é uma chaga que estamos combatendo cotidianamente. É possível combatê-la por meio de políticas públicas de prevenção, proteção e punição aos agressores e por campanhas que mudam a cultura da violência no nosso país, como a campanha ‘Eu ligo’”, disse Eleonora, que participou do programa Bom Dia, Ministro, produzido pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República em parceria com a EBC Serviços.

Muitas vítimas demoram para denunciar as agressões. Foto: Annaclarice Almeida/DP/D.A.Press

Muitas vítimas demoram para denunciar as agressões. Foto: Annaclarice Almeida/DP/D.A.Press

A ministra ainda informou que foram relatados dois estupros de turistas estrangeiras desde o início da Copa do Mundo. Os crimes, segundo ela, foram cometidos por um brasileiro e um estrangeiro. “Mas já está resolvido, tudo foi apurado. Elas já foram embora”, relatou.

Eleonora repudiou as vaias e ofensas à presidenta Dilma Rousseff na abertura da Copa, na Arena Corinthias, o Itaquerão. “Foi lamentável, foi execrável.  As mulheres brasileiras se sentiram agredidas e humilhadas. O Conselho Nacional dos Direitos da Mulher soltou uma nota lamentando e repudiando. Tem preconceito por ela ser uma mulher também”.

A ministra ainda informou que a primeira Casa da Mulher Brasileira deverá ser inaugurada em Brasília até o fim de setembro. A estimativa é inaugurar dez casas até o fim do ano. Esses centros integrarão serviços públicos de segurança, acesso à Justiça, saúde, assistência social e orientação para o trabalho, emprego e renda em 26 capitais.

Da Agência Brasil